Fabrício Cordeiro
Goiânia – “Na França, eu sou um autor; na Alemanha, um realizador; na Grã-Bretanha, um diretor de gênero; e, nos EUA, um vagabundo.”
Esta talvez seja a declaração mais famosa de John Carpenter, que a partir desta sexta-feira (26/7) recebe uma Mostra com 14 de seus longas no Cine Cultura. É raramente citado ao lado de grandes como Martin Scorsese, Clint Eastwood e Robert Altman, cineastas norte-americanos que, nutridos de notável inspiração durante os anos 1970 e 1980, cravaram seus nomes entre aqueles que costumamos chamar de mestres. Seria a sua intimidade com o cinema de horror e com o fantástico o motivo dessa relativa recusa? Pois Carpenter também trata e observa, frequentemente com saboroso cinismo, de algumas das grandes questões quem dizem respeito não apenas ao seu país, mas ao cinema praticado por Hollywood durante décadas. Construiu uma carreira anti-establishment, mas até aí Altman fizera o mesmo.
Carpenter é cria de Howard Hawks e Nicholas Ray. É devoto do cinema clássico, sobretudo do western, o gênero americano por excelência, presente na lapidação de seus anti-heróis, como o Snake Plissken (Kurt Russell) de Fuga de Nova York (1981) e Fuga de Los Angeles(1996); na relação entre homens, verificada na coleção masculina isolada no Ártico em O Enigma de Outro Mundo (1982); ou na mise en scène do jogo de caçada e abrigo, o cerco iminente, como uma contagem regressiva, a começar por Assalto à 13ª DP (1976), modernização e urbanização de Onde Começa o Inferno? (1959), de Hawks.
Além de suas influências, é digno de atenção a maneira como o cinema de Carpenter parece ser energizado pelo medo. Em Halloween (1978), há o medo vizinho, o receio de andar pelas ruas do prometido sonho americano, medo do invasor munido de faca de cozinha, objeto tão doméstico e familiar. Em A Bruma Assassina (1980), adaptação de Stephen King, Carpenter inaugura a ameaça que vem de outra dimensão e, tecnicamente, nos ensina que, no cinema, é possível temer o que mais parece ser apenas gelo seco.
O desconhecido, o outro mundo, passa a ser figura recorrente na obra do cineasta. Enquanto Steven Spielberg faturava milhões com seu extraterrestre bonzinho no lançamento de E.T.(1982), no mesmo ano Carpenter aparecia com um alien nada amistoso em O Enigma de Outro Mundo, sua versão para O Monstro do Ártico (1951). Em seguida, faz Christine (1983), outra adaptação de Stephen King, sobre a relação… earmm… amorosa entre um rapaz e um automóvel com vida (maligna) própria, numa espécie de subversão dos filmes de high schoolou mesmo dessa cultura colegial típica dos Estados Unidos. Dois anos depois, faria Starman(1984), este, sim, algo muito próximo da história do E.T. de Spielberg, mas com Jeff Briges interpretando o alienígena solto na terra, criando vínculos com humanos e perseguido pelo governo, num curioso mix de encanto e estranhamento.
Seus filmes seguintes também são movidos por forças ocultas: Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986), provavelmente seu trabalho mais afetado (no melhor sentido), parece todo empenhado em brincar com as expectativas de filmes de ação e fantasia; em Príncipe das Sombras (1987), o mal absoluto e capetoso prestes a chegar à Terra, num crescendo que Carpenter carrega até um desfecho medonho, a imagem de um certo braço sendo algo difícil de esquecer; por sua vez, Eles Vivem (1988), sua provável grande obra-prima, sci-fiesquisitona que eleva ao máximo a ideia de sociedade do espetáculo, visualizando um mundo dominado por forças maiores, imperceptíveis, e, assim, capaz de resumir boa parte da obra de Carpenter, em que seus personagens passam a cultivar alguma proximidade com o insano, ou, num grau mais metafórico, correm o risco de sucumbir a poderes que, embora aparentemente distantes, são muito reais (o consumo em Eles Vivem, que Carpenter declarava ser uma resposta à era Reagan; o carro em Christine, símbolo da produção, da indústria, do capitalismo, da liberdade individual e da virilidade…).
A Mostra no Cine Cultura ainda exibe À Beira da Loucura (1994), Vampiros de John Carpenter (1998), Fantasmas de Marte (2001) e Aterrorizada (2010), Carpenters dos anos 1990 e do século já virado, nesta que muitos têm considerado sua fase mais questionável. Mas não teria sido a carreira de Carpenter sempre questionável, e dela saído tanto brilhantismo?
No ano passado, uma mostra John Carpenter foi exibida no Festival do Rio, posteriormente ganhando uma retrospectiva no CineSesc de São Paulo, com direito a exibições em película (algumas não em tão bom estado, me disseram, mas isso é o de menos). Por aqui, as sessões serão digitais, Blu-ray, mas quando se tem esse espírito de maratona e essa iniciativa de educação do olhar, que é uma das propostas do espaço do Cine Cultura, faz parte do processo, assim como ocorre no Cine UFG há algum tempo, com programações quase completas de cineastas (mas, no geral, lá são exibidos os nomões do cinema moderno).
Antes da mostra já começar, fica outra expectativa, a de que outras destas retrospectivas autorais ganhem seu lugar em grades futuras. Sala bem localizada, ideal para se arriscar num cinema autoral pesado. Uma mostra com os tops de Takashi Miike? Ou de Kiyoshi Kurosawa, ideia que certamente já ocupa a cabeça do programador Rafael Parrode? Seria possível? Esperemos que sim.
As exibições da Mostra John Carpenter serão únicas e em ordem cronológica, com debates nas noites de domingo (28/7) e quinta-feira (1/8). A entrada é franca e a programação pode ser conferida no site do Cine Cultura.
Serviço:
Mostra John Carpenter
Quando: 26 de julho a 01 de agosto de 2013
Local: Cine Cultura – Centro Cultural Marietta Telles Machado, Praça Cívica, nº 2.
Mais informações: (62) 3201-4670
Entrada gratuita