Era uma tarde de calor em Goiânia, naquele finzinho de setembro de 2004. No mês seguinte aconteceriam as eleições municipais e meu irmão, Luís Antônio, ou Luisinho Paiva, como se apresentava, era candidato a vereador por Goiânia – e Línio de Paiva, nosso tio, assumira a coordenação geral da campanha, tanto em razão de sua experiência política (foi vereador e deputado estadual), quanto por sua característica marcante de abraçar, entusiasticamente, os projetos de familiares e amigos. Naquela tarde calorenta, acontecia uma movimentação da campanha na praça do Cepal, no Setor Sul, quando uma fiscalização apareceu e ameaçou apreender os escassos cartazes e bandeiras daquela campanha franciscana, feita com recursos, e idealismo, inteiramente familiares. Na hora do aperto, “chama o Tio Línio!”, que lá chega quando o material já estava sendo colocado dentro de uma kombi. Discute aqui, pondera ali, e a fiscalização, apesar do esforço argumentativo de nosso coordenador-geral, permanecia irredutível. Aparentemente se dando por vencido, Tio Línio se dirige aos fiscais e diz: “Então vocês vão levar tudo mesmo, né? Pois então terão que me levar junto!” – e literalmente pula para dentro da kombi, dando-se por apreendido junto com o material. Desnecessário dizer que os fiscais, não querendo correr o risco de “prender” na kombi um senhor de quase 70 anos, desistiu da diligência. Material de campanha salvo!
Pois é desse sujeito, capaz de proezas como a narrada, que nos despedimos no dia de ontem, 10 de março de 2026, falecido aos recém completos 89 anos de idade.
E como não poderia ser diferente, essa singela homenagem não vai lavrada com as entristecidas notas que acompanham falecimentos, mas com a música da alegria, ao ritmo do bolero que tanto marcou a vida do Tio Línio – pois aqui se trata não de chorar sua morte, mas de comemorar a sua vida.
As notas da imprensa em geral, ao comunicar seu falecimento, destacaram a trajetória pública desse advogado: vereador por Goiânia, deputado estadual, secretário de Estado, Conselheiro e Presidente do Tribunal de Contas dos Municípios. Muito justo. Foi, realmente, uma trajetória marcante, e até certo ponto improvável, ante os escassos recursos materiais, desse mineiro de Araguari, que ainda rapazote na década de 1950, acompanhando os pais, veio desbravar aqueles que eram os primeiros anos da nova capital goiana.
Mas se aos jornais restou o enfoque da vida pública, ao sobrinho escriba se abre a janela muito mais rica da convivência pessoal e familiar – pois foi no seio da família que, desde bem cedo, tive a oportunidade de ir conhecendo essa grande figura humana.
Aos meus olhos de criança, Tio Línio era aquele tio que tinha a casa mais legal, fosse para visitar, fosse para “pousar”, como dizíamos à época – e como era legal quando o pouso dava certo! Era a casa que tinha os primos mais velhos e por isso mais legais, tinha videogame e espaço para as brincadeiras infantis, além dos infindáveis quitutes da Tia Alice. E o Tio Línio era sempre aquele cara que no final da visita dizia ao meu pai: “Luiz, deixe os meninos ficarem!”.
De criança passei à primeira juventude, tempos em que conheci, e passei a admirar, uma das grandes características do nosso homenageado: um homem que apreciava a vida e a convivência com as pessoas. Acho que posso resumir assim: Tio Línio era um camarada que gostava de gente, independente de classe, credo ou posição social; ele simplesmente gostava das pessoas e gostava de estar com as pessoas. Foram os bons tempos das campanhas políticas, nossas e dele, além das tantas festas de família em que o “Línio seresteiro” se apresentava, sempre acompanhado de seu inseparável violeiro, Elmano. Convenhamos: para um jovem na casa dos vinte e poucos anos, o que há de mais legal do que um tio cantor, com disco gravado e tudo?
Mas foi na idade madura que mais nos aproximamos, pois então as afinidades emergiram. E afinidade é fenômeno interessante, pois não é uma coisa ou outra; é um conjunto que vai do superficial ao profundo, do banal ao existencial, mas que, no final das contas, faz as pessoas se admirarem e se quererem bem. Por exemplo, compartilhei com Tio Línio o gosto por carros (Mercedes) antigos – a ponto de eu tanto insistir, que consegui que ele me vendesse uma linda Mercedes azul, que inclusive foi do meu pai, e que até hoje tenho e guardo com carinho. Essa pode ser vista como uma afinidade superficial, mas de jeito nenhum desimportante, pois isso conecta as pessoas. Mas tínhamos também afinidades mais profundas, como o gosto pela Política, com “P” maiúsculo, sendo que o Tio Línio foi um grande incentivador de minha candidatura à presidência da OAB (de novo o perfil de abraçar entusiasticamente os projetos de quem ele gostava) e, depois de eleito, um conselheiro durante minha presidência.
E os almoços de sábado, na casa de meu pai e da Isabella, também não poderiam ficar de fora dessas alegres lembranças. Sempre que podia e enquanto teve saúde, foi presença constante em nossa mesa, com boas histórias e a compartilhar, feliz e generoso, da vida de seus cinco sobrinhos e respectivas esposas/esposos, e dos sete sobrinhos-netos, cujas infâncias certamente marcou, como marcou a nossa.
Por tudo isso e muito mais que poderia ser contado, resolvi escrever esse Tributo a Línio de Paiva: para comemorar sua vida e agradecer a Deus por ter me dado a oportunidade de conviver, pelos 48 anos de minha vida, com essa grande figura humana – sentimento que tenho certeza é compartilhado por toda a nossa família.
E onde estejas, Tio Línio, que essa homenagem te alcance, na forma de amoráveis rosas, orquídeas e violetas, como canta o bolero de que tanto gostavas, fazendo-te leve a transferência da morada transitória na Terra, para a Pátria Espiritual a que todos nós, um dia, também haveremos de aportar. Por isso, meu caro amigo, até breve!
*Lúcio Flávio Siqueira de Paiva, advogado do escritório GMPR
