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Freddie Cricien no palco com a Madball (Foto: Fabio Marques)
Freddie Cricien no palco com a Madball (Foto: Fabio Marques)

“Uma conexão diferente”, diz vocalista da banda Madball sobre tocar no Brasil e em Goiânia

Grupo se apresentou na capital pela primeira vez na quinta-feira (5/3)

06.03.2026 - 09:17:51
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José Abrão

Goiânia – A banda Madball surgiu nos anos 1980 como um projeto paralelo à Agnostic Front. Logo, ela se tornaria uma referência global na cena hardcore, transcendendo o mercado americano e virando sinônimo do estilo musical de Nova York. Agressiva e abrasiva, a banda veio a influenciar toda uma nova geração (e a geração seguinte) de artistas que hoje dominam grandes palcos, como Knocked Loose e Turnstile.

Nesta quinta-feira (5/3), o grupo passou pela primeira vez por Goiânia, tocando para uma casa lotada no De Leon Music Pub, no Setor Sul. Antes do show, o vocalista e fundador Freddie Cricien conversou com exclusividade com o jornal A Redação sobre o novo disco, o cenário musical atual e sobre como sua música raivosa conseguiu transcender fronteiras e idiomas.

Por que a música hardcore feita em Nova York ressoa com pessoas de lugares tão distantes quanto Goiânia?

Você não precisa nem ser de uma grande cidade. Algumas culturas possuem um lado mais áspero, talvez da sua experiência de trabalho, de vida, de rua, algumas áreas do mundo que conseguem se identificar com essa música mais abrasiva, rebelde, e essas pessoas gravitam em direção ao hardcore. Embora você não precise ter levado uma vida difícil para curtir o que fazemos: muitas pessoas que nos acompanham gostam de música agressiva e levam vidas normais. Mas em alguns lugares você consegue sentir que há mais paixão, mais conexão, e o Brasil é um lugar assim. Nós tocamos aqui desde os anos 1990 e sempre houve essa troca de energia: nós nos entendemos. Isso vale para toda a América do Sul: há uma conexão diferente.

A cena hardcore se formou através do faça-você-mesmo. O que você acha das plataformas de streaming e do YouTube hoje em dia para novas bandas da cena?

Existem argumentos diferentes sobre a questão do streaming porque dizem que o artista, e isso é provavelmente verdade, não está recebendo um valor justo pela música porque é muito fragmentado e você paga para esses serviços uma mensalidade. Você não está comprando um álbum físico. Mas há o argumento: uma loja de disco teria todos os discos? Acho que não. É algo estranho. Acho que é excelente para a exposição: um novo artista pode subir sua música para essa plataforma, algo que nunca tivemos quando começamos. Era só boca-a-boca e se você tivesse sorte como nós tivemos, você entrava em um bom selo e sua música circulava. Ainda é um tipo específico de música, com um público nichado, mas você tem pelo menos algum tipo de veículo. Streaming é muito bom por essa exposição, você vai ser exposto a muito mais gente, já que pode procurar qualquer álbum, show ou banda. É difícil: de um jeito ou de outro, o artista ainda se ferra de alguma forma (risos). Mas pelo menos agora todos estão em pé de igualdade.

(Foto: Fabio Marques)

Vocês estão trabalhando em um novo álbum e já incluíram novas músicas no repertório. Quando esse novo álbum completo será lançado?

Em maio. Ele está pronto desde setembro, a única coisa que segurou seu lançamento foi um problema de mixagem. Fizemos com um cara e não gostamos, aí fizemos com outro e adoramos. E também a arte. Não pra soar como um otário, mas a capa ficou icônica, mas para assegurar a foto eu precisava achar o cara, só que ele morreu, e eu precisava fechar a licença com a família. Então todo esse processo levou um bom tempo, mas felizmente não custou muito, eu temia que ia ser impossível, mas foi razoável. E esses passos seguraram o lançamento um pouco. Mas posso dizer com segurança que vai ser lançado por volta de 15 de maio. Já gravamos um vídeo e vamos gravar outro em abril e um deles será nosso single.

A cena hardcore sempre foi diversa e o Madball teve um papel importante nisso, introduzindo novos elementos que ressoam com outros gêneros, como o metal. Como você se sente em relação a novas bandas como Turnstile e Knocked Loose tocando em palcos raramente abertos ao hardcore antes?

Algo que eles estão fazendo é se conectar com públicos diferentes. Essas bandas transcenderam o mundo do hardcore. Turnstile veio com a gente em turnê várias vezes. Quando comemoramos 25 anos, circulamos com diversas bandas jovens e Turnstile estava entre elas, quando ainda estavam começando a chamar a atenção, e agora estão tocando em palcos gigantescos. Fico muito feliz por eles. Acho que musicalmente eles evoluíram um pouco e isso foi o suficiente para atrair outras audiências. Isso é excelente porque se você conectar os pontos, o mapa ainda leva de volta para o hardcore. Isso não significa que a Madball vá tocar nos mesmos lugares que eles, infelizmente (risos), mas de vez em quando eles falam da gente em uma entrevista e isso pode fazer alguém dizer ‘oh, quem são esses caras?’. Então isso torna novas pessoas cientes do hardcore. Já a Knocked Loose, nós íamos fazer uma turnê na Europa tendo eles como principal banda de apoio, mas aí a pandemia veio e nada aconteceu. E aí eles explodiram. Agora é a gente que tem que pedir pra ir na turnê deles (risos). Estou esperando o convite, ok? Eles conheciam a cultura, estavam honrados por poder fazer essa turnê com a gente, mas quando tudo acabou, eles estavam tão grandes que eu não podia chamá-los mais. Mas é muito legal. Tudo relacionado ao hardcore está recebendo muita atenção agora e isso não é algo ruim pra gente: estamos ainda no front lutando a anos, então é muito legal.

(Foto: Fabio Marques)

Não só os EUA, mas o mundo todo está passando por um momento de grande instabilidade política. O que os artistas podem fazer em um momento como este? Isso vai inspirar novas músicas?

Na minha honesta opinião, sendo totalmente transparente, às vezes eu sinto que os artistas deviam falar menos e não se envolver em algumas das conversas políticas porque de vez em quando eles se envolvem e soam como idiotas porque não sabem a história completa de nenhum dos lados. Eu sou um cara do hardcore e não um político e não finjo ser o que não sou. Eu me preocupo com minha família e meu círculo próximo e se eu puder ajudar outro ser humano, eu ajudarei. Eu estou neste mundo há 50 anos e experienciei muitas coisas. Estou consciente do que está rolando, tudo isso afeta todo mundo. Como artista, você tem o direito de tirar isso do seu peito criativamente, mas enquanto você não sabe direito do que você está falando, você não devia falar nada. Porém, se você quer falar pela sua arte de algo que está no seu coração, vá em frente, está no seu direito, mesmo se for algo que eu não queira ouvir, desde que seja honesto. Muitas pessoas do nosso mundo estão escolhendo lados e nós somos garotos da rua, do punk, não somos democratas ou republicanos. Podemos ter pontos de vista, mas é um momento de polarização complicado e que me parece ser de propósito, feito para dividir as pessoas. É mais fácil controlar as pessoas assim.

Você é de Nova York, uma cidade que também passou por muita coisa recentemente. Você acha que o novo prefeito pode fazer alguma diferença?

Nova York era um lugar muito barra pesada quando estávamos começando. Eu não morei lá nos anos 1980, mas estava lá direto e era difícil. Nos anos 1990 eu morei naquele ambiente e era complicado, você tinha que estar atento. Então houve uma onda em que as coisas ficaram mais limpas e seguras. O que algumas pessoas também não gostaram, porque acharam que tirava algo da cidade. Eu acho que recentemente houve um declínio em Nova York. Eu não moro lá, mas vou lá o tempo todo e não me importa quem está na prefeitura, mas a cidade não está bem: está muito suja, a epidemia de drogas está de volta, há pessoas drogadas nas ruas. Eu via isso nos anos 1980 e 1990, mas ver isso agora? É estranho e não sei se é intencional ou se o clima e as coisas estão tão invertidas… essas cidades funcionam como elas funcionam, seja lá quem for o presidente. O governo local faz o que quiser. Eles podem culpar o presidente o quanto quiserem, mas eles governam a cidade e você precisa questionar isso.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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