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Mulheres abrem caminhos na ciência e inspiram novas gerações em Goiás e no Brasil

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08.03.2026 - 07:55:31

Samuel Straioto

Goiânia – Nos laboratórios e nas salas de aula, em Goiás e outras partes do Brasil e do mundo, mulheres estão mudando os rumos da ciência no Brasil. Desenvolvem moléculas que podem revolucionar a medicina, formam novas gerações de pesquisadoras e constroem redes de apoio para que meninas também se reconheçam como cientistas. Em universidades e escolas, sejam instituições públicas ou privadas, elas abrem caminhos e mostram que a ciência se fortalece quando amplia vozes e perspectivas.

Recentemente, o trabalho da bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ganhou destaque. Ela dedicou três décadas ao estudo da matriz extracelular e desenvolveu a polilaminina, molécula que pode devolver movimentos a pessoas com lesão medular. A descoberta a coloca na rota de um possível Prêmio Nobel.

Em Goiás, Anita Canavarro, professora do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás, criou o Investiga Menina, projeto que atende cerca de quatro mil estudantes em escolas públicas. Já a professora Aline Maria desenvolve projetos de iniciação científica em um colégio estadual e acompanha meninas ganharem confiança dentro dos laboratórios.

Professora Anita Canavarro coordena Investiga Meninas (Foto: Talis Martins)

A ciência que legitimou exclusões

A professora de Ensino de Química Anita Canavarro, do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenadora do Investiga Menina, dedica sua pesquisa e atuação à interseção entre ciência, gênero e raça. Sua tese é incômoda: “A ciência inventa, ajuda a inventar e legitima o racismo. Na verdade, ela também constrói essa manutenção.”

O racismo, explica a professora, saiu da condição mítica — quando se escravizavam negros e negras sob a justificativa de que não tinham alma — para uma condição pretensamente racional. “É a ciência que fornece essa condição racional com artefatos da medicina, do direito, da antropologia, da biologia, da física. É a ciência que inventa a craniologia, a frenologia, o higienismo.”

Só recentemente a genética confirmou o que deveria ser óbvio: não há diferença genética entre raças. “Geneticamente, não há diferença entre as populações. Nos grupos mais parecidos há mais diferença do que nos grupos racialmente particionados.”

Sem exlcusão

Esse histórico científico de exclusão aparece nas salas de aula. “Quando uma criança tão pequena entra numa escola e vai estudar os modelos que são todos de homens brancos e europeus, uma ciência que é toda baseada nesse lugar”, questiona Anita.

O trabalho dela no ensino de química busca mostrar outros modelos de produção científica. “As pessoas que produzem ciências também são mulheres. E sobretudo num país como o nosso, onde a maioria é autodeclarada mulher e negra, faz todo o sentido falar para as meninas da sala de aula.”

A professora projeta um futuro com menos desigualdade. “A educação em química, o ensino de química, a formação de professores para ensinar essas ciências precisa estar consciente. Precisa trabalhar a igualdade de gênero e raça também em todas as esferas do ensino e da produção científica no nosso país.”

Integrantes do projeto Investiga Menina ao lado da professora Anita. (Foto: Talis Martins)

Cem pessoas num laboratório, maioria meninas negras

Anita percebeu que sua atuação ultrapassava o ensino quando fundou um laboratório de pesquisa que hoje abriga cerca de cem pessoas — a maioria meninas negras. “É nesse lugar da criação da manutenção de redes de apoio, de redes de incentivo, mas de redes de acolhida, que a minha presença se consolida ou aponta para um lugar de conforto para outras meninas parecidas comigo.”

O laboratório é espaço de produção científica, mas também território de representatividade. “É fundamental estabelecer o diálogo entre pares. Esses pares têm eixos mobilizadores partilhados junto da experiência do ser, da experiência do corpo.”

A presença de mulheres no campo da ciência, explica Anita, enfrenta questionamentos. “Porque nós somos treinados com maneirismo de gênero. Então parece que nós devemos escolher sempre as profissões ligadas ao cuidado. E não por acaso são essas profissões as menos valorizadas no mercado de trabalho.”

Quando uma mulher negra chega ao campo científico, o corpo chega antes das ideias. “Esse corpo é feminino, e esse corpo é negro. Então você precisa estar atestando a sua competência durante todo tempo. Inclusive atestando que o que você faz não é uma produção cultural ou de ativismo — também o é —, mas é produção acadêmica, referenciada, que merece estar nos mesmos nichos que todas as outras produções científicas.”

Barreiras múltiplas

As barreiras se acumulam. Anita lista: o currículo que projeta poucos exemplos de mulheres cientistas, os maneirismos de gênero, o patriarcado que associa mulheres à função de cuidado. “A não divisão do trabalho doméstico igualitariamente, a jornada tripla de trabalho, a atribuição do cuidado e das atividades domésticas ao gênero feminino — todas essas são barreiras.”

Quando se fala de meninas negras, há um agravante. “Esse corpo é duplamente marcado: é marcado pelo marcador de gênero, mas também pelo marcador de raça. E numa sociedade como a nossa, que foi a última a abolir a escravidão nas Américas, um corpo negro feminino é um corpo desautorizado da sua capacidade elaborativa, da sua capacidade criativa, da sua capacidade de inteligência, da sua capacidade inventiva.”

As marcas funcionam como interdições. “Essas meninas, quando elas chegam, elas têm esse corpo que carrega mais marca do que os outros. E aí esse é um impeditivo, sim.”

“Nós oferecemos acompanhamento pedagógico científico regular nas áreas de biologia, física, química e matemática, em sala de aula da escola pública do estado. E trazemos cientistas negras para dentro do currículo”, destaca Anita. O projeto conta com cerca de 300 cientistas parceiras. “Isso muda trajetórias, mudou a mim e muda meninas da escola pública e das cientistas convidadas todos os dias.”

A emoção vem quando Anita vê os resultados. “Eu estava numa formatura da Universidade Federal, vários cursos, e lá tinham meninas que começaram conosco dentro do Investiga e hoje são meninas que estão saindo de lá formadas.” Ela se emociona. “Essa é uma cadeia que não se quebra. Esse episódio marcante que a gente começou, hoje eu estou à frente, amanhã pode ser qualquer uma delas que está aí sendo devidamente preparada para trilhar uma carreira acadêmica.”

Da universidade à escola pública

A professora Aline Maria trabalha na base, no chão da escola pública estadual. A paixão pela ciência vem de longe. “Sempre fui muito curiosa em relação à ciência. E sobre a educação, sempre foi algo que eu quis, acho que por conta da minha família, que é quase toda da área da educação.”

Os projetos de iniciação científica nasceram do interesse dos estudantes. “Eu gosto de ver o interesse e empolgação deles, e isso me incentiva também a investir mais nesses projetos. Eu me divirto muito com eles, além de complementar muito mais no aprendizado deles com o conteúdo que, muitas vezes, em uma aula teórica, não teria o mesmo aproveitamento.”

Aline percebe que as meninas se comportam de forma diferente nesses espaços. “Eu acredito que elas se sentem mais seguras para expor ideias, principalmente porque eu sempre valorizo muito a questão delas serem boas líderes, especialmente mais organizadas e pacientes para observar detalhes.”

Preconceito que silencia

As barreiras continuam presentes. Aline identifica o preconceito como uma das principais, especialmente no ambiente escolar público. “Muitas meninas acabam sendo mais sensíveis a esse tipo de situação e, mesmo quando não acontece diretamente com elas, elas se sentem menos confiantes para se expressar ou se expor, até mesmo de forma positiva. Na maioria das vezes, tendem a se manter mais quietas e a aparecer menos nas apresentações.”

A representatividade faz diferença. Como professora mulher conduzindo projetos científicos, Aline percebe o impacto. “As alunas se sentem mais à vontade para conversar, tirar dúvidas e participar das atividades. Elas acabam se identificando mais e vendo como uma inspiração próxima da realidade delas, o que pode aumentar o interesse e a confiança para se envolverem com a ciência.”

Professora Aline Maria desenvolve diversos projetos em sala de aula. (Foto: Arquivo pessoal)

Os projetos de iniciação científica na educação básica transformam trajetórias. “Através dessas experiências que elas têm dentro dos laboratórios, pode despertar sim um interesse muito maior em futuras carreiras profissionais dentro da ciência.”

Cada atividade deixa marca. “Para mim, todos os eventos são marcantes e importantes, tanto para mim como para elas. Até porque só de ser algo diferente do tradicional já é algo que fica marcado tanto na memória quanto como uma experiência que faz com que elas se sintam mais capazes de executar certas atividades e, a partir de algumas atividades, também executar outras.”

A mensagem de Aline para as meninas é direta: “Menina, você é capaz de fazer o que quiser e de ser exatamente como você quer ser no futuro. Comece o quanto antes a construir isso dentro de você!”

Projetos que consideram especificidades

Os projetos de incentivo transformam quando garantem condição de permanência para meninas nas universidades. Anita defende que precisam considerar as especificidades do corpo feminino. “Nós temos temáticas específicas. E não estou dizendo que você não vai estudar fusão atômica — vamos —, mas vamos estudar a partir de um corpo que pode usufruir de licença maternidade.”

É preciso reconhecer que esse corpo, além de produtivo academicamente, carrega demandas de trabalho doméstico e cuidado. “Os projetos de incentivo precisam lidar com essas características inerentes ao gênero feminino. Eles precisam considerar a licença maternidade, eles precisam considerar as especificidades desse corpo.”

Quando se trata do corpo feminino negro, há uma herança histórica. “Numa sociedade escravagista como a nossa, que deixa uma herança de expropriação da capacidade laboral para esse corpo feminino. Então é preciso contar com ações afirmativas, com projetos que garantam as ações afirmativas de gênero e raça.”

Ações afirmativas em todas as esferas

Anita defende mudanças institucionais: garantia do cumprimento das políticas de ações afirmativas. “Nós precisamos ter garantia após os concursos na produção acadêmica. Precisamos ter o recorte de ação afirmativa para gênero e raça nos projetos, nos comitês de pesquisa, nos comitês julgadores dos trabalhos, nas revistas.”

Em todas as ferramentas de avaliação acadêmica, defende, é preciso ter também a aplicabilidade da ação afirmativa tanto para gênero quanto para raça.

Redes de apoio, não meritocracia

A mensagem de Anita para meninas que sonham em ser cientistas rompe com a ideia de meritocracia. “Eu gostaria de deixar de mensagem que se vejam e que sejam cientistas. E que é possível ter insegurança, que a gente vai passar mesmo por falta de apoio. E que a gente não deve acreditar na meritocracia, que sozinha basta a nossa vontade que a gente vai conseguir as coisas.”

A meritocracia, explica, faz acreditar que é só lutar que se chega lá. “Não. A gente precisa de rede de apoio. A gente precisa encontrar outras de nós que estejam dispostas a dar vazão aos nossos sonhos, a deixar a gente caminhar, segurar a nossa mão e falar que é possível.”

Anita convida: “Nós, o coletivo Tia Ciata do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás, o projeto de pesquisa e extensão Investiga Menina, nós estamos à disposição de vocês. Nos procurem, venham conhecer o que a gente faz, venham conhecer a universidade pública brasileira, venham conhecer a educação pública que é, sim, de sucesso dentro do nosso país e é para vocês também.”

E finaliza: “Venham caminhar junto conosco, mesmo que você não escolha uma área da ciência. Deem-se esse direito de conhecer uma rede de apoio para que vocês possam encontrar ressonância para os seus sonhos.”

Protagonismo que abre portas

De Tatiana Sampaio no Rio de Janeiro a Anita Canavarro e Aline em Goiás, mulheres produzem ciência e constroem redes. Transformam laboratórios em espaços de pertencimento. Levam cientistas negras para dentro do currículo. Mostram para meninas que a ciência pertence a quem quiser fazer dela seu caminho.

Enquanto Tatiana Sampaio dedica três décadas ao estudo da matriz extracelular, Anita e Aline constroem redes que devolvem esperança a meninas que nunca se viram como cientistas. São formas diferentes de contribuição: uma reconstrói conexões neurais, outras reconstroem conexões sociais e simbólicas.

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por Samuel Straioto

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