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E aí, novidades?

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28.06.2013 - 10:40:33

Goiânia – Outro dia um desavisado deixou um comentário na página de um de seus mil amigos no Facebook: “parabéns, muitas felicidades!” Até aí tudo bem, cumprimentar pelas redes sociais não custa nada.  Custa menos que uma ligação a cinco centavos o minuto. Mas a ele outros desavisados seguiram: “muitos anos de vida”. Até então tudo não passava de uma ironia mórbida, um fora sem maiores consequências, pois o tal amigo há alguns meses já não existia como carne. Mas quando alguém postou no seu mural: “e aí, quais as novidades?” – estremeci.

E estremeci, não por pena dos desconhecidos desinformados sobre o inopinado da morte, não por lamentar a sorte daquele conhecido que passara para outra melhor e que já não poderia cutucar, ser cutucado, curtir, ser curtido, compartilhar ou ser compartilhado – a avalanche de informações da web nos deixa educadamente insensíveis – mas porque essa pergunta me provoca uma comichão nos nervos. Estremeço cada vez que uma pessoa que não vejo há anos ou há apenas alguns dias me pergunta: quais são as novidades?

Sinto certo constrangimento. Parece que minha vida anda por demais devagar. Habito ainda o mesmo endereço; trabalho no mesmo emprego; não troquei de carro, marido ou namorado; não ando às voltas com nenhum novo e mirabolante projeto. Sim, envergonho-me da repetição que parece tediosa. E olha que minha vida e meu humor não são assim o que se possa chamar exatamente de estável.

Vivemos o tempo em que as novidades são um imperativo. Precisamos atualizar as páginas das redes sociais, publicar fotos no instagram, registrar tudo o que de novo nos sobrevém. Os produtos nas prateleiras dos supermercados, os cartazes nas vitrines das lojas de roupa, os comercias de TV sempre exibem nos rótulos um grito de “novo”!  Somos convocados a comprar o novo sabão em pó que lava mais branco, a ter a nova versão do celular, a trocar o modelo das calças pelo da nova estação. E sem ver vamos substituindo o que nem ficou velho pelo que nem é novo de verdade, como eternas crianças ávidas por mais um brinquedo de que minutos depois já enjoaram.

A palavra da vez ou a obsessão do momento é inovação. A empresa tem que inovar ou perde espaço no mercado. O profissional tem que inovar ou perde o emprego. A mulher tem que parecer nova, diferente, outra, ou perde o lugar no coração do amado. Se ao menos o que se anuncia como inovador fosse mesmo algo além do ordinário.

Mas o que é verdadeiramente novo leva anos, às vezes décadas para ser gestado. As grandes invenções que foram significativas e decisivas para a humanidade não surgiram da noite para o dia, nasceram a partir de invenções anteriores; sua construção levou décadas ou até séculos; resultaram de conhecimento acumulado. As verdadeiras transformações em nossa personalidade e em nossa vida também não se operam do dia para a noite. São custosas, exigem esforço. Às vezes nem são visíveis enquanto se realizam. Frequentemente nem se concluem.

Temos, porém, muita pressa de que o novo irrompa. Difundiu-se a ideia de que por ser a vida breve, devemos ser rápidos. Mas não há nada assim de tão novo sobre a face da Terra. Continuamos os mesmos, cometendo os mesmos primitivos e bárbaros erros, com as mesmas perguntas sem respostas, e com a única e definitiva certeza, mais velha até que a própria  humanidade: a certeza iniludível e inevitável da morte. Mas não estou contando a você novidade alguma.

(Nem é novidade também que você, como eu, às vezes gosta de ser um ser obsoleto, colecionador de dias exatamente iguais uns aos outros, de viver sua vida silenciosamente em segredo. Não se sinta culpado ou envergonhado por isso.)

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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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