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A velha política da exclusão

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27.06.2013 - 11:42:03

Goiânia – A lógica que acompanha o crescimento de Goiânia é pavorosa. Quando ando pelo centro, os prédios do nascimento da cidade parecem querer gritar ou pedir socorro. A história, a cultura e a tradição vão para o saco quando o que impera é a ordem e o dito progresso.

Simbólico e um bom exemplo – que sempre me refiro – é a praça do Bandeirante. O “praça” aqui poderia vir entre parênteses, já que não há praça alguma. O glorioso eixão acabou atropelando a história de Goiás e, diariamente, o próprio Anhanguera é quase atropelado também.

Recebo a notícia de que hoje – 27/6 – a casa da foto foi demolida pela Secretaria Municipal de Obras. Uma das últimas da década de 1930. A razão é que ela está abandonada há anos e uma restauração custaria em torno de R$1 milhão, investimento que a família proprietária não tem para a casa e a prefeitura também diz não ter. Abandonada, acaba sendo ocupada por usuários de drogas e prostitutas.

   Casa na Rua 20 foi demolida nesta quinta-feira (27) (Foto: Ana Cristina Boaventura)

Fui tomada por uma tristeza e revolta. Minha indignação vem de dois lados: o descaso com a preservação de nossos patrimônios e história e a política de exclusão que impera sobre a de ocupação.

Há quase dois anos escrevi aqui minhas impressões sobre Berlim. Definitivamente, foi uma das cidades que mais gostei de conhecer.

Uma das principais razões é simples: a gente cheira história o tempo todo. Apesar da destruição violenta deixada depois da Segunda Guerra Mundial e a reconstrução que seguiu, o que dizia respeito à história ficou intacto. O mesmo em relação à Guerra Fria.

Os pedaços do muro estão lá. O Check Point Charlie também. Alguns edifícios que abrigavam escritório da SS semi destruídos. Tudo para lembrarmos do que aconteceu. Para sabermos onde estamos pisando. Para valorizar a história, ainda que seja dolorida.

Ao ler uma notícia dessas, me encho de tristeza porque vejo que a história da minha cidade está indo para o saco. Que história terei eu para contar para os meus filhos? “Aqui, hoje onde é esse Shopping, era um teatro antigo que ficou abandonado e foi demolido. No meio dessa avenida tinha um Bandeirante. Aqui onde é essa farmácia, era uma casa de um dos primeiros juízes de Goiânia”.

Não há respeito pela história, pelos patrimônios. Não importa o que fica para trás, mas o que vem pela frente. E o que vem, segue uma lógica de “progresso” onde o que importa é o fator econômico e a ordem. Mas uma grande cidade não é feita só de desenvolvimento econômico. Ela é feita de cultura e de história. De outro modo, não é uma cidade, é um aglomerado vazio de trabalhadores.

A minha indignação vem também dessa política de exclusão que dá muito menos trabalho para os poderes públicos e varre a sujeira para debaixo do tapete. Destróem mocós para que usuários de drogas, traficantes e prostitutas não utilizem do espaço para gerar insegurança nos moradores da região.

Esse é o oitavo “mocó” destruído nesse ano. É essa a política da cidade: destroem prédios abandonados ao invés de ocupá-los. Afastam os sujeitos marginalizados dali que buscam, em seguida, o próximo buraco para se enfiarem. Derrubar prédios abandonados e afastar marginais dali não resolve problema algum de segurança ou de tráfico e prostituição. Apenas afasta o problema para a próxima esquina. Mas o preço é alto. Nesse caso, o preço é um pedaço da história de Goiânia.

Falta coragem para enfrentar o centro e seus problemas. Em cada esquina, um problema social. A política é da higienização. Retirar e afastar, afastar, afastar até que cheguem às periferias. O lar dos problemas sociais. Onde não atrapalhe e incomode os demais moradores da cidade: os cidadãos de bem!

Falta peito para assumir um espaço abandonado e transformá-lo em alguma coisa que inclua ao invés de excluir. A cidade pipoca de grupos culturais sedentos para terem um espaço para produzir, ensaiar, criar. Quem sabe, ali na casa da Rua 20, os mesmos marginais poderiam voltar ali não para usar e vender drogas, mas para participar de alguma atividade cultural que tivesse as portas abertas para eles. Portas que sempre estiveram fechadas para quem acabou se fazendo marginal.

A lógica da exclusão é mais simples, mas não resolve nada. Topar investir num espaço desse e retomar os espaços abandonados da cidade é assumir os fantasmas que assombram o centro. Quem sugeriu a demolição foi a Polícia Militar. Mas isso não é problema de polícia. É caso de Educação, Cultura, Esporte e Assistência Social.

Numa tacada só, dois grandes erros: quebrar um prédio para destruir um problema que não se resolve com demolição. Destruir paredes que abrigam muito mais que drogas, prostituição e problemas sociais: mas a história de Goiânia.   
 

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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