Há dias em que a alma pede silêncio.
Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta.
Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse a última chance de existir. Vivemos em urgência constante. E, enquanto tentamos salvar tudo, vamos nos perdendo.
Quem ousa desacelerar é visto como imprudente. Como alguém que não entende o jogo. Mas tenho visto pessoas que entenderam, sim, e por isso escolheram sair dele.
Um juiz de Direito, carreira sólida, estabilidade invejável, trocou as horas intermináveis no tribunal pela liberdade de trabalhar em casa.
Um jornalista consagrado, o mais conhecido do país, deixou a bancada número um para estar mais perto dos seus.
Um cantor gospel preferiu a vida discreta em outro país à engrenagem que transforma fé em espetáculo.
Um príncipe britânico se afastou do trono para preservar a própria paz.
Histórias recentes e diferentes. Decisões incompreendidas. O mesmo propósito: priorizar o que realmente importa.
Você pode dizer que todos já estavam com a vida feita. Talvez. Mas o que, afinal, é vida feita? Quanto é suficiente? Onde está o limite? Ou será que esse limite nunca chega porque sempre inventamos um próximo degrau?
Passamos mais tempo no trabalho do que na mesa de casa.
Ganhamos dinheiro para pagar remédios, terapias e cansaços acumulados.
E, quando finalmente temos um pouquinho de tempo, já não temos presença.
Eu percebi que algo estava errado quando chegava em casa tarde e, mesmo ali, ainda estava ausente. O corpo no sofá, a mente no celular. As mensagens de amigos sempre por último. Ainda quando estávamos juntos, eu sempre pedia mais um minutinho no celular para despachar uma última demanda.
Percebi também quando deixei de ouvir com atenção o desabafo de quem amo porque, na minha cabeça, os meus problemas eram maiores. Como se a dor tivesse hierarquia. Como se existisse uma régua invisível medindo a complexidade de cada sofrimento.
Que engano é esse? Nada é mais trágico do que se tornar indiferente.
A Bíblia pergunta em Marcos 8:36: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”
Talvez nunca essa pergunta tenha feito tanto sentido.
A verdade é que vivemos como se tivéssemos tempo de sobra. Mas não temos.
Acordar vivo é um milagre diário, e não temos controle sobre ele. Todos os dias alguém parte. O tempo de alguém termina sem aviso.
Moisés pediu naquele tempo, e hoje faço desta minha oração também: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.”
Que tenhamos sabedoria para compreender a brevidade da vida e a eternidade de Deus. Contar os dias significa viver com propósito, focando no que é eterno e deixando de lado as coisas passageiras, aquelas que têm preço, mas não têm valor. Entende?
Talvez sabedoria também seja parte disso: entender que o tempo é o único bem que não se recompra.
Que saibamos escolher, ainda que na contramão do mundo, o que tem valor eterno. Que não troquemos presença por aplauso, paz por status, nem mesa compartilhada por metas intermináveis.
Se for para ganhar o mundo, que não seja à custa da alma. Se for para correr, que seja na direção do que permanece. Porque, no fim, podemos ser substituídos em qualquer lugar, menos em nossas casas.
O que a rua oferece cobra um preço, preço do tempo que não temos e que eu não estou disposta a trocar pelo valor do que realmente importa.
* Anna Carolina Cruz é jornalista