A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo esgarçamento das relações humanas, torna-se urgente perguntar: que tipo de mundo estamos ajudando a construir a partir da universidade?
Cada profissional formado impacta pessoas, territórios, culturas e ecossistemas. A atuação profissional, portanto, não se sustenta apenas em conteúdos disciplinares. Ela é atravessada por valores, saberes construídos ao longo da vida e escolhas éticas que se refletem diretamente nas formas de viver, produzir e se relacionar. Nesse sentido, o compromisso com a sustentabilidade não pode ser periférico, nem restrito a ações pontuais ou disciplinas isoladas. Ele precisa atravessar todas as áreas do conhecimento e orientar a formação humana.
É nesse contexto que a nova edição do meu livro “Sustentabilidade no ensino superior: uma prática transdisciplinar na formação de professores”, publicada pela Editora Scotti, se torna especialmente relevante. Lançada originalmente há 15 anos e agora atualizada, a obra retorna alinhada aos desafios contemporâneos ao propor uma formação docente comprometida com a vida, a cidadania, a cultura de paz e a preservação ambiental.
Parto de uma experiência pedagógica desenvolvida no curso de Letras, na qual a sustentabilidade da vida foi tomada como eixo unificador dos trabalhos de conclusão de curso. Relatos de estágio, planos de aula e projetos transdisciplinares revelam que é possível formar professores de língua portuguesa, literatura e inglês capazes de integrar, de forma crítica, temas como direitos humanos, valores humanos e consciência planetária em suas práticas pedagógicas.
Uma mudança efetiva de paradigma só se torna possível quando o conhecimento passa a ser compreendido como instrumento de enfrentamento das desigualdades. Garantir condições mínimas de vida precisa ser um objetivo central da formação universitária e, consequentemente, compor os currículos de todos os cursos. Isso exige uma formação que vá além da técnica, incorporando dimensões éticas, sociais e culturais como fundamentos da atuação profissional.
Na formação de professores, esse desafio é ainda mais evidente. O foco excessivo no desenvolvimento teórico e didático-pedagógico, aliado à uniformização das práticas, muitas vezes inviabiliza uma formação crítica do ponto de vista da sustentabilidade. A valorização de diferentes saberes (acadêmicos, comunitários, territoriais) é condição indispensável para a construção de comunidades mais saudáveis e conscientes de seu papel no mundo. Pensar de forma transdisciplinar é um exercício que se aprende na experiência, na abertura ao desconhecido e no respeito às diferenças.
A sustentabilidade, nesse sentido, não pode ser relacionada a uma dimensão ambiental ou econômica apenas. Trata-se de um modo de vida, profundamente cultural, que orienta escolhas individuais e coletivas e que possibilita a preservação e o aprimoramento das condições de vida ao longo do tempo. A fragmentação desse conceito enfraquece sua potência transformadora e limita sua atuação na construção de sociedades mais justas.
Minha trajetória como professora e pesquisadora na Universidade Estadual de Goiás reforça essa compreensão. Olhar para fora, para o outro, para o diferente, para o mundo que nos constitui é o que permite que práticas pedagógicas sejam orientadas pela defesa da vida e da dignidade humana. Projetos de extensão, pesquisas e ações formativas voltadas às demandas reais das comunidades demonstram que sustentabilidade e transdisciplinaridade não são abstrações, mas práticas possíveis e necessárias.
Não por acaso, meu livro dialoga com documentos como a Carta da Terra, a Carta da Ecopedagogia e a Carta da Transdisciplinaridade, que reafirmam a necessidade de uma educação comprometida com os direitos humanos e com a formação de cidadãos com consciência local e planetária. Esses documentos coletivos ampliam vozes, conectam experiências e fortalecem princípios éticos que orientam práticas educacionais transformadoras.
Formar cidadãos com consciência local e planetária significa reconhecer que não aprendemos apenas em livros ou salas de aula. Aprendemos nas relações, no conhecimento do território, de sua história, de suas limitações e potencialidades. Desenvolver essa consciência é compreender que as escolhas feitas em um lugar impactam vidas em outros, seja na migração, na exploração de recursos naturais ou nas desigualdades globais.
A educação, sozinha, não é capaz de reverter modelos econômicos e sociais predatórios. Mas pode insistir em uma perspectiva crítica, questionadora e comprometida com a vida. Pode formar sujeitos capazes de fazer escolhas mais conscientes e de atuar na construção de um futuro menos desigual.
Às instituições de ensino superior, fica a convocação: reforcem seus princípios de formação a serviço da humanidade. Todas as áreas do conhecimento podem e devem contribuir para um desenvolvimento que não sacrifique a vida em nome do progresso. Educar com consciência planetária não é uma opção. É um compromisso ético com o presente e com o futuro.
*Carla Conti é doutora em Políticas Públicas (UFRJ) e pós-doutora em Gestão da Informação pela Universidade do Porto. Professora da graduação e do mestrado em Educação na Universidade Estadual de Goiás, pesquisa educação em direitos humanos, gênero e tecnologias digitais. Mineira de Passos e residente em Inhumas (GO), dedica-se à escrita de obras que cruzam desenvolvimento pessoal e crítica social. É autora de Sustentabilidade no ensino superior, livro que retorna 15 anos após a primeira edição em meio às urgências ambientais e sociais contemporâneas, com apresentação de Anabela Simões (Universidade de Aveiro) e prefácio de Andrea Kochhann (UEG).
