Por fim, o ano começou marcado pela dança das cadeiras que, para muitos jovens, reorganiza provisoriamente seus lugares na travessia entre a vida acadêmica e a vida profissional. Um desses momentos em que o tempo social se impõe com força, organizando destinos, expectativas e afetos.
A semana dos resultados do SISU escancara essa travessia. De um lado, as comemorações: gritos de alívio, abraços emocionados, famílias e estudantes celebrando uma conquista que carrega anos de investimento, renúncia e esperança. De outro, o trânsito intenso diante dos cursinhos endossa o fluxo incessante de jovens que seguem apostando na promessa de que “da próxima vez vai dar certo”. Ali, a felicidade é adiada, e o presente, sacrificado em nome de um futuro idealizado.
Instala-se, assim, uma lógica de maratona: é preciso correr, insistir, suportar. Fala-se muito da importância de atravessar a linha de chegada; no entanto, pouco se fala sobre o fôlego. Pouco se pergunta quem ampara, quem acolhe, quem escuta esses jovens quando o corpo e a mente começam a dar sinais de exaustão. Sob o imperativo da alta performance, a ideia de limite passa a soar como fracasso, e o sofrimento psíquico é frequentemente silenciado ou normalizado.
As escolas, por sua vez, transformam-se em vitrines. Exibem seus aprovados, disputam números, constroem rankings e fazem do sucesso um espetáculo. A aprovação vira marketing; o sofrimento que sustenta esse processo permanece fora de cena. Não há cartazes para a angústia, para a solidão, para o medo de não ser suficiente.
Paralelamente, se abriu a temporada de cerimônias de colação de grau — que, aliás, são sempre carregadas de emoção — ao testemunhar tantas histórias de superação de nossos alunos. Jovens que encerram um ciclo e se lançam na vida profissional. De um lado, o alívio: “por fim acabou, consegui!”, “não aguentava mais”. Esse cansaço diz algo importante — revela o quanto esse percurso, muitas vezes, foi vivido sob pressão contínua, atravessado por dificuldades de permanência e de conclusão do curso, por diferentes motivos. De outro, emerge o peso de encarar o mercado de trabalho e, com ele, as exigências da vida adulta, frequentemente marcadas pela mesma lógica performativa que atravessou a formação universitária.
Essa ambivalência tão própria do fim de um ciclo também atravessou a nossa casa. Na defesa do TCC do meu filho, o professor anunciou o esperado: “A boa notícia é que você passou; a má é que agora terá que encarar o mundo dos boletos”. Uma notícia que carrega um peso real da saída da universidade: o fim de um percurso conhecido e o início de uma vida profissional marcada por responsabilidades concretas e, muitas vezes, solitárias. Há algo de luto nessa saída: o fim de um tempo protegido, conhecido, ainda que exaustivo.
Ao mesmo tempo, com a filha caçula, estamos imersos na angústia do começo. Mudanças de cidade, despedidas, reorganizações familiares e uma avalanche de ansiedade. Trata-se de uma transição marcada por separações, novidades e desejos, mas também por incertezas profundas. Para muitos, é a primeira experiência real de autonomia — e também de solidão.
Enquanto um se despede, a outra chega; enquanto um fecha um ciclo, a outra inaugura outro. E é nessa coexistência de fins e começos que a travessia ganha contornos ainda mais intensos.
É verdade que uma certa dose de ansiedade é constitutiva dessas passagens. Ela carrega a promessa de uma “vida melhor”, de realização pessoal, de felicidade futura. O problema surge quando essa promessa se transforma em exigência absoluta, quando o sonho não admite dúvidas, tropeços ou revisões de percurso.
Chegar à universidade, para muitos jovens, implica sustentar um ideal de felicidade, realização e conquista, ao mesmo tempo em que se confrontam com a frustração inevitável de que nenhum ideal se realiza por completo. Os conflitos nas relações, a competitividade, as dificuldades acadêmicas e de pertencimento, bem como a falta de perspectiva em relação ao futuro, são fatores que, como evidenciam as estatísticas, contribuem significativamente para a evasão nas escolas e universidades — quando não para o adoecimento psíquico.
Soma-se a isso a pressão silenciosa de sustentar sozinho a ideia de um sonho que, por isso mesmo, precisa ser realizado a qualquer custo. Relatos não faltam para quem, profissionalmente, acompanha jovens vivendo essa travessia na universidade.
É nesse ponto que a escuta se torna fundamental. Escutar não para corrigir trajetórias ou reforçar ideais de sucesso, mas para abrir espaço à pergunta, à ambivalência, ao mal-estar que insiste em aparecer. Escutar o jovem em travessia é reconhecer que nem todo sofrimento é sinal de fracasso — muitas vezes, ele é um pedido de pausa, de elaboração, de cuidado.
Talvez o desafio não seja apenas entrar ou permanecer na universidade, ou alcançar a tão prometida vida profissional, mas criar condições para que essas travessias possam ser vividas com menos violência psíquica. Isso implica questionar o imperativo da alta performance e apostar na escuta — uma escuta que legitime o sofrimento, sustente o desejo e permita que novos sentidos possam emergir ao longo do caminho.
Jordana Balduino: é psicóloga, doutora em Educação, professora adjunta de “Psicologia e Educação” na Universidade Federal de Goiás.
