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A treta só começou

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14.06.2013 - 20:45:39

Goiânia – A Caixa de Pandora foi aberta. Onde isso vai dar, ninguém sabe. Torço para que seja positivo. Tenho quase certeza que será. Se fosse para apostar, diria que piorar não vai. Mas nunca se sabe. O fundo do poço é uma ilusão. Tudo que está ruim é passível de piora. Não acho que seja o caso atual.

O movimento que começou lutando contra o reajuste das passagens de ônibus em várias capitais brasileiras extrapolou seu objetivo inicial. Acredito que os governos podem até recuar e voltar o preço cobrado para o anterior que os protestos não vão acabar. Transbordou. E sobre o leite derramado, não há muito o que fazer.

São Paulo nesse caso, como sempre, é o motor do Brasil. O movimento paulistano capitanea algo de extrema relevância. Os jovens não sabem muito bem o que querem, mas sabem exatamente o que não querem: não aceitam que as coisas fiquem porcas como estão. Não há como não concordar com eles.

A juventude que vai para as ruas brasileiras atualmente não tem os vínculos que irrigaram movimentos populares anteriores de nosso País. O cara que é universitário hoje e tem 18 anos nasceu em 1995. Ele não viveu a ditadura. Inflação para ele é só nos livros. Não nutre a paixão platônica por Lula como a parcela hegemônica da esquerda contemporânea brasileira.

Ele não se emocionou com o Lula-lá cantando por tudo quanto é artista. Ele não xingou o Figueiredo. Não tomo pau dos canas por estar em reunião no DCE. Não se indignou com a edição do debate do segundo turno de 1989. Ele não gritou “fora FHC” e “fora FMI”. E isso não tem nada a ver com alienação. Ele só é novo demais para ter feito essas coisas. É compreensível a falta de, digamos, respeito cego que parte dos progressistas tem pelo PT.

Afinal, quando esse cara que hoje afronta o status quo tinha alguma possibilidade de entender minimamente o noticiário de política, o que rolava era a lama do escândalo do mensalão encharcando a estrela vermelha do Partido dos Trabalhadores.

Lula não é um ícone dos trabalhadores que chegou lá. Para o universitário de hoje, ele é mais um da corja que sempre deu as cartas no Brasil. Por que esse moleque iria nutrir admiração cega pelo barbudo que seduziu intelectuais e trabalhadores no final da década de 1970?

Esse jovem que toma bala de borracha da polícia despreparada sempre foi duramente criticado por não fazer nada. Foi chamado de alienado, geração Facebook, egoísta, sem preocupação social. Enquanto isso, as burradas dos governantes só se avolumaram.

As escolas públicas, do berçário à pós-graduação, são vergonhosas. Ele não pode comer um pit dog na esquina sem medo de ser assaltado. A saúde pública é deprimente. O transporte coletivo o trata como lixo. Lembra-se do “quem sabe faz a hora não espera acontecer”? Pois é, acho que chegou o momento desse jovem.

Todas grandes transformações mundiais começaram com motivos pequenos que se tornaram causas maiores, muito maiores do que a gênese do movimento poderia sonhar. Até mesmo no delírio utópico mais surreal. Sinto algo no ar. Posso estar errado, como geralmente estou. Mas acho que agora é de verdade. A bolha estourou.

A primavera árabe sensibilizou o mundo. Tomara que no nosso inverno latino a juventude brasileira seja o farol das mudanças. De que o país rico que somos hoje seja também justo de amanhã. Que o transporte público seja de graça e com qualidade paradigmática para o restante do mundo. Já que é para lutar, que lutem pelo ideal. Só 0,30 centavos (no caso goianiense) é muito pouco para tamanho empenho. Vocês podem mais.

Essa juventude que vai para a rua e enfrenta a truculência do braço armado do Estado me representa.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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