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'Nouvelle Vague' (Foto: divulgação)
'Nouvelle Vague' (Foto: divulgação)

‘Nouvelle Vague’ é homenagem charmosa ao cinema

14.01.2026 - 10:16:05
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Se tem uma coisa de que estou de saco cheio no cinema atualmente são as “biografias premium”: filmes grandiloquentes e congratulatórios sobre artistas importantes, que possuem orçamentos tão inchados quanto suas narrativas são anêmicas. Exemplos recentes incluem Elvis, Um Completo Desconhecido e Springsteen: Salve-me do Desconhecido. Longas que parecem ignorar que filmes precisam de histórias, trama e conflito.

Richard Linklater parece devidamente consciente disso em Nouvelle Vague, um filme-homenagem ao que muitos críticos, cineastas e cinéfilos consideram, até hoje, o movimento mais influente do cinema moderno, responsável por avançar a linguagem cinematográfica para o estilo que conhecemos.

Para homenagear sem ser chato, Linklater opta por escolhas divertidas e faz um recorte contido: Jean-Luc Godard e os 23 dias de filmagem de seu primeiro filme, Acossado (1960), um clássico instantâneo.

O filme entra na vibe da estética da época ao optar pela proporção de tela “quadrada” do período e por filmar em um preto e branco granulado, além da escolha de filmar em francês, obrigando os americanos a ler legendas, o que é sempre bom.

O longa, aliás, exala a atmosfera parisiense em suas locações, carros, sotaques e na atitude blasé dos personagens. Ao mesmo tempo, o filme consegue ser quase didático, mas sem ser chato, ao botar na tela os elementos que tornaram a nouvelle vague especial, como a valorização do “real”, o baixo orçamento e a autoconsciência de que um filme é um filme, com quebras da quarta parede e “erros” propositais de continuidade.

O resultado é um filme charmoso, com cheiro de Gauloises e gosto de vinho barato, que te joga no meio da cena, da filmagem e da redação da Cahiers du Cinéma, fazendo você se sentir parte desses jovens tão terrivelmente jovens, criativos e apaixonados.

Ao contrário dos filmes mencionados no começo do texto, Nouvelle Vague é uma carta de amor que parece, de fato, uma carta de amor: de papel amassado, escrita à mão, manchada de batom e provavelmente com uma marca de café e/ou de vinho.

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por José Abrão

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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