São Paulo – Scott Adams, cuja experiência como gerente de nível médio em um banco e em uma empresa de telefonia lhe deu material para criar a tirinha Dilbert — uma sátira diária da vida corporativa que se tornou uma sensação, mas foi cancelada por mais de 1.000 jornais após ele fazer comentários racistas em seu podcast em 2023 — morreu nesta terça-feira, 13, em sua casa em Pleasanton, Califórnia, na área da Baía de São Francisco. Ele tinha 68 anos.
Sua ex-esposa, Shelly Adams, confirmou a morte, informando que ele estava sob cuidados paliativos. Scott Adams anunciou em maio que tinha um câncer de próstata agressivo e que provavelmente teria apenas alguns meses de vida.
Por mais de 30 anos, Dilbert narrou os absurdos do ambiente de trabalho de alta tecnologia e ridicularizou a gestão. O personagem principal era um engenheiro frustrado que trabalhava em um cubículo em uma empresa de tecnologia, cujo animal de estimação inteligente e antropomórfico, Dogbert, sonhava com a dominação mundial. Outros personagens incluíam os colegas de Dilbert, Alice, Asok e Wally; o infeliz “Chefe de Cabelo Pontudo”; e Catbert, o gato de cor vermelha e maléfico diretor de recursos humanos.
No seu auge, Dilbert era distribuído para cerca de 2.000 jornais internacionalmente, colocando-o no patamar de outras tirinhas populares como Peanuts, Doonesbury e Garfield. Adams também publicou inúmeras coletâneas de Dilbert e escreveu livros de negócios, incluindo O Princípio Dilbert, que postula que “os trabalhadores mais ineficazes são sistematicamente movidos para o lugar onde podem causar menos danos: a gerência”.
A tirinha também levou à produção de uma série de animação de curta duração na TV, bonecos de pelúcia do Dilbert, jogos de computador e o “Dilberito”, um burrito vegetariano congelado que fracassou nas vendas em supermercados após alguns anos. O próprio Dilbert foi a estrela de uma campanha publicitária de 30 milhões de dólares para a Office Depot em 1997.
“Uma das razões de seu sucesso foi que ele foi o primeiro a ter uma tirinha baseada na vida no escritório ,com personagens recorrentes com os quais as pessoas podiam se identificar, como Alice, uma mulher realmente inteligente que nunca recebia atenção ou elogios”, disse Alan Gardner, editor do site The Daily Cartoonist, em uma entrevista.
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Adams sugeria que Dilbert dava voz aos habitantes isolados dos cubículos. “Isso foi o que descobri de incrível quando entrei na internet há alguns anos”, disse ele ao The New York Times em 1995. “Ouvi de todas essas pessoas que pensavam que eram as únicas, que estavam nessa situação única e absurda. Que não podiam falar sobre sua situação porque ninguém acreditaria.”
Ao longo dos anos, Adams fez comentários sobre mulheres e judeus que lhe trouxeram atenção negativa fora da bolha de cartunista amado. Ele usou seu podcast, Real Coffee With Scott Adams, para oferecer comentários livres sobre as notícias, uma plataforma que levou à queda de Dilbert. Em fevereiro de 2023, ele discutia uma nova pesquisa da Rasmussen Reports que descobriu que apenas 53% dos americanos negros concordavam com a frase “Tudo bem ser branco” (It’s OK to be white), uma frase que tem sido promovida por supremacistas brancos, de acordo com a Liga Antidifamação.
“Se quase metade de todos os negros não está bem com pessoas brancas”, disse ele no episódio do podcast, então eles são um “grupo de ódio”. Ele acrescentou: “Eu não quero ter nada a ver com eles. E eu diria que, com base na forma como as coisas estão indo atualmente, o melhor conselho que eu daria aos brancos é saírem de perto de pessoas negras.”
A reação foi imediata. Muitos jornais de grande circulação, incluindo The Washington Post, The Boston Globe, The Los Angeles Times e o The New York Times (em sua edição impressa internacional) cancelaram Dilbert. O mesmo fez a USA Today Network, que na época tinha mais de 200 jornais.
Pouco depois, a Andrews McMeel Universal, que na época distribuía Dilbert para cerca de 1.400 jornais, cortou relações com Adams. O mesmo fez o selo de negócios da Penguin Random House, uma das maiores editoras do mundo, que desistiu dos planos de lançar seu livro de conselhos semi-humorístico, Reframe Your Brain. Adams o autopublicou no final daquele ano.
Adams defendeu-se em um podcast subsequente, dizendo que não era racista e que tinha usado hipérboles quando chamou os negros de “grupo de ódio”. Ele reconheceu que seus comentários haviam prejudicado sua carreira. “A maior parte da minha renda terá sumido até a semana que vem”, disse ele. “Minha reputação para o resto da vida está destruída. Não dá para voltar atrás disso, estou certo?”
Ele ressuscitou rapidamente a tirinha como Dilbert Reborn e a disponibilizou por assinatura na plataforma Locals.
A trajetória de Scott Adams
Scott Raymond Adams nasceu em 8 de junho de 1957, em Windham, Nova York, nas montanhas Catskill. Seu pai, Paul, era funcionário dos correios. Sua mãe, Virginia (Vining) Adams, era corretora de imóveis e operária de linha de montagem. Em uma casa tranquila onde Scott era o filho do meio, ele era o piadista.
“A parte cínica de mim vem do meu pai”, disse Adams ao The San Francisco Chronicle em 1998. “Não sei se ele disse algo sério sobre qualquer coisa desde que o conheço.”
Scott queria ser cartunista desde os 5 anos. Mas “quando você chega a uma idade em que entende probabilidades e estatísticas, você perde aquela inocência de que tudo é possível”, disse ele ao Times em 2003. Então ele seguiu um caminho empresarial: formou-se em 1979 no Hartwick College, em Oneonta, Nova York, com bacharelado em economia. (Agência Estado)
