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Veneno chamado caretice

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05.06.2013 - 16:56:48

Vergonhoso o recuo do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, na história do “Sou feliz sendo prostituta”. A frase era só uma tentativa de promover o orgulho da mulher profissional do sexo e estimulá-la a se prevenir contra doenças sexualmente transmissíveis. Ou seja, algo corretíssimo.

Não se tratava de apologia à prostituição, conclamando com algo como “vem ser puta você também, vem!”.

Não se tratava de publicidade dos serviços oferecidos. Era somente a tentativa de estimular algo como um gay pride das prostitutas, uma chance de trazer para a luz um debate que, por uma questão de saúde pública, não deve permanecer na sombra.

Mas a caretice venceu de novo. Como naquele lamentável episódio do kit anti-homofobia no Ministério da Educação. Infelizmente. Estamos pegando um caminho equivocado no Brasil. Reacionário, conservador, retrógado.

O governo turco tentou voltar medidas de cunho religioso, extirpadas de lá desde o fim da Primeira Guerra Mundial, para dentro do Estado secular e olha o pau que está dando. Nós não. Vemos as religiões meterem seu bedelho em tudo quanto é canto e assistimos a cena, dóceis como cordeiros. Maldita intromissão.

Independente de você achar asqueroso, de seu Deus considerar um pecado com direito à passagem direta aos quintos dos infernos, de sua mãe ficar horrorizada com as garotas que vendem sexo, essa profissão vai continuar existindo.

Não dizem à boca miúda que até o Filho do Homem andava entre elas enquanto a sociedade o execrava? Pois é. Então por qual razão cercear o direito dessas mulheres ao acesso às políticas públicas de saúde? É ter visão estreita demais para brigar contra isso.

Mesmo que no discurso oficial Padilha não afirme que irá retroceder dos projetos para as prostitutas, somente da campanha publicitária, o estrago já foi feito. Já mostrou para a ala conservadora que basta uma mobilização de araque pelas redes sociais que o ministério recua.

Agora, prepare-se, eles virão para cima tal qual um bando de zumbis famintos sobre alguém indefeso. O Ministério da Saúde demonstrou fraqueza. E, nessa disputa, isso significa a morte.

O veneno da caretice está contaminando as artérias brasileiras e matando a possibilidade de adentrarmos de verdade ao século XXI.  A ampliação de direitos para todos do País está limitada por conta da visão arcaica de raiz religiosa.

A bancada parlamentar desse segmento se articula, interfere, impõe seus preceitos e faz que um pensamento mais arejado recue, se acovarde, fique encolhido.

Não se assuste se surgir por aí a brilhante ideia de queimarmos livro que não coadunam com lógica religiosa.

Não se assuste se daí partir a sugestão de colocarmos na fogueira os que praticam aquilo que eles consideram pecado. Esse é o caminho que estamos trilhando. Que belo caminho, Brasil…

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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