Nos últimos dias, voltou ao centro do debate um tema extremamente relevante para a saúde da mulher: o uso do Mounjaro (tirzepatida) e sua possível interferência na eficácia do contraceptivo oral. O assunto ganhou grande visibilidade após o relato público da médica e ex-BBB Laís Caldas, que anunciou uma gravidez enquanto fazia uso do medicamento associado ao anticoncepcional em comprimido.
Esse caso não é isolado nem inesperado. Como ginecologista e obstetra, considero esse episódio um alerta importante que precisa ser levado a sério, especialmente diante do crescimento expressivo do uso da tirzepatida tanto no tratamento do diabetes tipo 2 quanto para perda de peso.
Entidades médicas, como a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), já orientam que mulheres em uso do Mounjaro, principalmente no início do tratamento ou durante ajustes de dose, priorizem métodos contraceptivos não orais, como o DIU, o implante ou outros métodos de longa duração.
O motivo é claro: a tirzepatida pode alterar o esvaziamento gástrico, o que interfere diretamente na absorção de medicamentos administrados por via oral, incluindo os anticoncepcionais. Na prática, isso significa que a pílula pode não oferecer a proteção esperada nesse período.
No consultório, reforço sempre que o Mounjaro pode reduzir a absorção do anticoncepcional oral, especialmente nas primeiras semanas de uso ou quando há aumento da dose. Por isso, a escolha de métodos não orais oferece maior segurança contraceptiva e reduz o risco de uma gravidez não planejada.
É fundamental destacar que essa decisão deve ser sempre individualizada. Cada paciente tem sua história, suas necessidades e seus planos reprodutivos. Por isso, a conversa com o ginecologista antes de iniciar o uso do Mounjaro é indispensável para alinhar a melhor estratégia contraceptiva.
Esse alerta vai além da contracepção em si. Estamos falando também da saúde da gestante e do desenvolvimento seguro do bebê. Uma gravidez não planejada durante o uso de medicamentos que ainda exigem cautela pode trazer riscos que poderiam ser evitados com informação de qualidade e acompanhamento médico adequado.
Diante da popularização desses medicamentos e da ampla divulgação nas redes sociais, reforço: orientação profissional não é opcional. É parte essencial do cuidado com a saúde da mulher.
*Diego Rezende é médico ginecologista, especialista em reprodução humana