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Melhores que nós?

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04.06.2013 - 09:54:15

Goiânia – A semana começa tensa na Câmara Municipal de Goiânia. É que um projeto de lei que prevê a implementação do ponto eletrônico para os vereadores está deixando os legisladores de cabelo em pé. Resistentes em aderir ao monitoramento biométrico de presença, muitos alegam que “bater ponto é uma humilhação”.  

Sim, você leu certo: nossos membros do Legislativo consideram o ato de bater ponto vergonhoso, humilhante. Talvez por isso que, em 2011, eles tenham faltado às sessões 571 vezes. Em 2012, 716 vezes, o que representa um aumento de 25%. Detalhe: as sessões ordinárias só ocorrem de terça à quinta, das 9 às 12h.

Você, funcionário público ou de uma empresa privada, pode madrugar para chegar pontualmente ao emprego e não sair nem um minuto antes do registro eletrônico decretar o fim do expediente. Você pode ter um dia do seu salário cortado se faltar ao trabalho e não apresentar uma justificativa plausível. Os vereadores, não.

Deve ser porque eles ganham R$ 11 mil, enquanto você trabalha o mês inteiro para receber um décimo disso. Ou porque eles dispõem de carro e combustível por conta, enquanto você rala para comprar sit pass e andar espremido nos ônibus. Ou talvez porque eles tenham um monte de assessores em seus gabinetes, enquanto você precisar se virar sozinho. Uma coisa é certa, eles se julgam melhores que nós.

Eu só queria entender a razão de tanta pretensão. Por que eles se acham superiores em relação ao restante dos cidadãos? Com base em que critério definiu-se que um trabalhador qualquer pode bater ponto e um vereador não? Com base na formação intelectual e cultural dos legisladores? Na produtividade deles?

Sei que vivemos numa democracia e que a vontade popular deve ser respeitada, mas vamos analisar a coisa friamente: temos alguns vereadores que desconhecem o conteúdo dos projetos que estão tramitando, que nunca leram um livro na vida, mal sabem articular uma frase ou concatenar um raciocínio lógico.

Já você, no seu trabalho, é obrigado a produzir muito, com qualidade e rapidez. Não pode falhar nem faltar. É cobrado a fazer cursos de pós-graduação
, reciclagem e não sei mais o quê. Precisa se especializar ao máximo, estar antenado com todas as novas tendências e prestar contas de tudo o que faz ao seu chefe.

Vergonhoso, na minha opinião, é ganhar sem trabalhar. É ser mantido pelo poder público, contar com uma série de privilégios e não querer dar a mínima satisfação à sociedade. É ter sido eleito por milhares de pessoas que esperam ação e prestação de contas e ignorar solenemente a obrigação moral de fazer isso.

Se vossas excelências de fato trabalham tanto quanto dizem, não deveriam temer a implantação do ponto eletrônico. É possível sobreviver a ele. Nós, trabalhadores do Brasil, somos prova disso. Bater ponto não mutila nem mata. Só obriga a gente a estar no emprego realmente, fazendo o que esperam de nós.

É verdade que não se pode generalizar. Felizmente, temos legisladores comprometidos com a causa popular, que sabem que a Câmara não é a extensão de suas casas nem de seus escritórios particulares. Que veem o povo não como gente inferior ou igual, mas como o patrão que financia seus mandatos.

A esses homens e mulheres que honram o Legislativo goianiense e o voto que receberam,o meu apelo para que lutem para fazer prevalecer na Câmara Municipal de Goiânia o respeito e a seriedade. Se não querem bater ponto, que ao menos não justifiquem isso com asneiras. Humilhante é ter de ouvir tanta bobagem.

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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