José Abrão
Goiânia – “Resiliência” foi o termo escolhido pelo presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Mário Schreiner, para resumir o ano de 2025 do agronegócio goiano, marcado por avanços expressivos do setor produtivo, mas também pela permanência de gargalos e desafios aos produtores.
Ao fazer um balanço para a imprensa na sede da Faeg, em Goiânia, José Mário destacou a safra recorde 2024/2025 no Brasil e em Goiás, com impacto positivo no combate à inflação e no acesso aos alimentos, ao mesmo tempo em que alertou para a queda nos preços de produtos como soja, milho e leite, que não vêm remunerando adequadamente os produtores. “350 milhões de toneladas no Brasil, mais de 37 milhões de toneladas em Goiás, um crescimento de 20%. E é claro que isso ajuda muito o Brasil no combate à inflação, no alimento acessível às pessoas”, destacou ao mencionar o resultado da safra, mas sem deixar de citar que o leite, por exemplo, passa por uma crise de rentabilidade, com rendimento inferior a R$ 2 o litro.
Zé Mário, como é chamado o presidente, reforçou que não é porque o setor vai bem que o produtor vai bem. “A inadimplência do setor produtivo rural já alcança 11%. Isso tem sido há mais de 90 dias, além de todos os processos que já foram renegociados. Só em Goiás, foram renegociados mais de R$ 4 milhões de dívidas”, relata. “É claro que isso é reflexo de uma política econômica equivocada, sem responsabilidade fiscal, não obedecendo ao controle de gastos, com os juros a 15%, mais as taxas de juros reais, que chegam a quase 20%. Então, isso traz um cenário muito negativo para o produtor rural do Brasil”, queixa.
No âmbito das exportações, a China segue como a maior parceira do Estado, responsável por 50% de todo o volume, sendo 83% de suas aquisições relacionadas à soja. Os EUA vêm em segundo lugar, com 3%, sendo que 68% do que compram é carne bovina. Mesmo com o tarifaço, o país seguiu comprando e até aumentou a quantidade de carne adquirida proveniente do Brasil e de Goiás.

Clima
Outra incerteza recorrente está ligada às questões climáticas. Este ano, demorou para começar a chover, o que afetou o calendário. Além disso, as chuvas começaram intensas e volumosas, o que também pode causar prejuízos. “Houve um atraso do plantio, de mais de uma semana, em função do clima, da falta de chuvas regulares. Aqueles que plantaram primeiro também tiveram algum impacto no plantio. E é claro que isso vai impactar também no plantio da safrinha em Goiás. É muito cedo ainda para se ter uma avaliação de perdas, mas acredita-se que pode haver uma redução na produtividade”, argumenta Schreiner. “Sem dúvida nenhuma, o custo de produção para 2025 e 2026 permanece muito alto. Isso faz com que os produtores busquem outras fontes alternativas, muitos produtores, inclusive, usando o próprio patrimônio para poder fazer o plantio. Isso traz uma preocupação muito grande também”, completa.
Para o próximo ano, José Mário orienta o produtor: “não corra riscos. Não há uma perspectiva de melhora em curtíssimo prazo, principalmente para soja, milho e esses produtos. Tivemos um atraso das chuvas, então garanta o seu negócio, mas não corra riscos desnecessários”.
Fronteira agrícola e gargalos
Mesmo com desafios, a Faeg se sente confiante de que o Estado está no caminho para se tornar e se consolidar como o segundo maior produtor agro do país, atrás apenas do Mato Grosso. “Nós temos áreas ainda muito propícias ao cultivo. Eu diria que temos duas regiões principais, mas é claro que todo o estado de Goiás ainda pode expandir, não derrubando nenhuma árvore, apenas usando áreas que têm pastagens degradadas, transformando-as em áreas de agricultura”, explica.

Essas regiões são o Vale do Araguaia, que tem 4 milhões de hectares disponíveis, e o Nordeste goiano, com cerca de 1,3 milhão de hectares. Mas ainda permanecem gargalos de desenvolvimento em Goiás. José Mário aponta dois: infraestrutura logística, algo que tem sido melhorado com a pavimentação de rodovias por meio do Fundeinfra, e energia elétrica, que sofre com a limitação da rede. “Isso não quer dizer só distribuição; precisamos de linhas de transmissão, e essas linhas precisam ser licitadas pelo governo federal. Então, você não tem ali oferta de energia, não tem energia suficiente para poder fazer todo esse desenvolvimento”, diz.
Críticas à política econômica
José Mário também teceu críticas ao governo federal, que ele afirma “não dar a devida atenção” ao setor agropecuarista. “A atenção que recebemos está muito abaixo daquilo que representamos para o Brasil. Somos quase 50% das exportações, 27% do PIB, 32% dos empregos. Não vemos uma política justa para o setor. Este ano, sofremos com a falta de oferta de crédito rural, com os juros extremamente elevados”, pontua. “Não há vontade política do governo federal para o nosso setor, que sobrevive graças à própria eficiência e produtividade”, finaliza.
