Logo

O mito do protesto pacífico

WhatsAppFacebookLinkedInX
30.05.2013 - 12:59:04

Acompanhando a repercussão do quebra-pau da polícia para cima dos estudantes que rolou nessa semana em Goiânia, estou embasbacado com a quantidade de senso comum que ando ouvindo. Em todo canto escuto que “a manifestação é válida, mas a baderna não”; “o protesto é legítimo, mas vandalismo não”; “os estudantes estão certos, mas perderam a razão”. Na boa, em que mundo essa gente vive?

Na verdade, não se trata de mundo, se trata do Brasil. Somos mestres na arte da conciliação do inconciliável. Está em nossa tradição, está tatuado em nosso DNA. Queremos sempre acender uma vela para Deus e outra para o diabo. Na frente das câmeras, somos moralistas e defensores da família. Quando as luzes apagam, fazemos aquilo que é impublicável. Calcado nesse comportamento dúbio, criamos expressões que beiram o ridículo. Os exemplos são fartos. Crítica construtiva. Manifestação ordeira. Protesto pacífico.

Fazer uma crítica nunca pode ser construtivo. Se for para construir, é elogio, nunca crítica. Crítica é para colocar em crise, fazer você perder o chão, nocautear e, a partir daí, quem sabe, colocar o indivíduo em outro caminho.

Manifestação ordeira é um contra senso tão grande quanto torcedor do Vila Nova esmeraldino. Não existe. Se é manifestação, existe justamente para questionar a ordem, colocá-la em xeque, subvertê-la. Não é para respeitar o status quo, é para desafiá-lo.

Protesto pacífico está nessa linhagem de paradoxos. Se acontece, das duas uma: ou não é protesto, ou não vai resolver nada. Para um protesto pacífico, a resolução das autoridades para o pleito popular será sempre a criação de uma comissão proteladora que não resolverá patavina. Desculpe dizer a verdade inconveniente em um belo feriado.

Observe a história. As grandes transformações sempre foram depois de muita porrada para tudo quanto é lado. Patrimônio destruído e vidas perdidas são os lamentáveis efeitos colaterais das transformações sociais. A coroa francesa queria manifestações ordeiras. Se assim fosse, seria reforma e não revolução. Faltou o sangue azul combinar isso com os miseráveis. A família czar russa queria protestos pacíficos. Também faltou combinar com os bolcheviques. Até mesmo o exemplo indiano capitaneado por Gandhi teve seus momentos de enfrentamento nada ordeiros ou pacíficos.

Não sei se estou sendo claro, sei que esse é um terreno pantanoso e facilmente deturpável. Seja por falta cognitiva, seja por falta de caráter. Não estou defendendo a quebradeira, estou dizendo que sem ela as transformações não costumam chegar. O transporte coletivo de Goiânia precisa de uma revolução. Não sei de alguma revolução na base do flower power. Existe uma? Por favor, me conte aí nos comentários.

Era previsível que a coisa chegaria ao ponto que chegou na Praça da Bíblia. As manifestações vinham acontecendo, a vontade popular foi solenemente ignorada e o reajuste veio. O clima estava ficando acirrado. Não houve diálogo com o movimento, não havia perspectiva de melhoria. O aumento era só para o bolso das empresas. Não havia contrapartida para o usuário. O que você queria? Sorrisos e narizes de palhaço? Uma outra Marcha do Todinho? Elementar que isso não aconteceria.

E não precisa ser guru para prever que outros conflitos acontecerão. Quem sabe até mais agressivos. O movimento dos estudantes se mostra determinado, parece que não está disposto a retroceder se não tivermos melhorias. O pleito está errado? Não. A quebradeira é culpa dos estudantes? Para mim, não. É de quem deixou nossos ônibus chegarem nesse estado calamitoso. E para você? A culpa dos paus que certamente ainda voarão é de quem?

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]

lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]