Logo

O peso do desconhecimento e a fragilidade da reputação

27.10.2025 - 08:47:37
WhatsAppFacebookLinkedInX

O Centro-Oeste do Brasil é a região que menos arrecada no Programa Nacional de Apoio à Cultura, do Ministério da Cultura. É o menor índice de ações apresentadas e com baixíssimo nível de captação. Esse dado, entretanto, não pode se confundir com o valor do patrimônio cultural da região, muito menos com o nível dos profissionais atuantes. Se são Paulo fica com praticamente a metade de todos os aportes da Lei Rouanet, isso não significa que não haja competência e relevância em outros Estados, muito menos em Goiás. 
 
Um processo de restauração requer compromisso, paciência e profundo respeito. Convivo com o Patrimônio Cultural desde os meus 13 anos de idade; hoje tenho 65. Ao longo de mais de quatro décadas de atuação direta, aprendi que preservar não é apenas restaurar estruturas físicas — é zelar por memórias, identidades e histórias que nos constituem como sociedade.
 
Sempre fui considerada uma pessoa severa nas minhas avaliações e na condução da causa pública. E foi justamente essa severidade — muitas vezes confundida com rigidez — que me permitiu conhecer empresas, profissionais e organizações não governamentais verdadeiramente comprometidas com o Patrimônio Cultural. Gente séria, que entende que bulir com o patrimônio é lidar com algo sagrado, que exige ética, técnica e responsabilidade. Ao longo dos anos, aprendi a separar o joio do trigo. Há quem veja na preservação do patrimônio apenas uma oportunidade de visibilidade ou de lucro. Mas há também — e felizmente — quem a veja como missão.
 
Por isso, li com indignação reportagem publicada recentemente no UOL, que citava a uma dessas sociedade culturais originárias do Centro-Oeste, a Elysium, além de outras empresas e pessoas com quem atuei de forma próxima e respeitosa. Por um lado, a reportagem questionava os recursos terem ficado sob responsabilidade de entidade sediada em Goiás. Por outro lado, tenho a dizer que se trata de equipe de longa trajetória, de mais de 30 anos em defesa do patrimônio, responsável por várias ações não apenas no Centro-Oeste, mas em todo o País e mesmo no exterior. 
 
O texto me causou tristeza e perplexidade. Mais uma vez, vi como o desconhecimento e a falta de apuração podem gerar informações distorcidas, capazes de manchar trajetórias inteiras e de esfacelar o trabalho de profissionais sérios. O jornalismo do “denunciamos” chega, muitas vezes, como um trator: atropela reputações, simplifica contextos complexos e ignora a dedicação de quem há décadas atua em prol do bem público. E o faz, muitas vezes, em nome de uma suposta busca pela verdade — que, sem profundidade e sem escuta, se transforma em injustiça.
 
Não se trata de blindar ninguém contra críticas. A crítica é essencial e deve existir. Mas quando ela se baseia em desconhecimento, ela deixa de informar para ferir. O Patrimônio Cultural — e todos que trabalham por ele — merecem mais do que manchetes apressadas: merecem respeito, precisão e responsabilidade.
 
*Salma Saddi é historiadora, servidora do Iphan por mais de 40 anos, ex-superintendente do órgão em Goiás
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Salma Saddi

*

Postagens Relacionadas
Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]

Renato Gomes
10.02.2026
A qualidade da saúde começa na gestão

Durante muitos anos, quando se falava em qualidade na saúde, o debate quase sempre se concentrava no ato assistencial. O olhar estava voltado para o médico, o hospital, a tecnologia, os equipamentos. Tudo isso é, sem dúvida, essencial. Mas, após mais de 25 anos de atuação em gestão, consultoria e educação em saúde, cheguei a […]