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Notas etnográficas sobre um domingo patriótico

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09.09.2025 - 08:30:00

Como diz Júlio Cortázar, ir à esquina comprar o jornal pode ser um gesto arriscadíssimo, desde que sejamos capazes de abandonar as lentes do cotidiano e olhar o mundo de forma renovada. Ontem, fui tomado por esse espírito ao sair para comprar pão.
 
De casa, já ouvia os chamados e frases de efeito do carro de som estacionado ao lado da praça. Saindo à rua, vi as famílias — pais e mães com crianças —, os idosos, gente com cara de rica, saída ali mesmo da vizinhança, e gente com cara de pobre, que pegara o ônibus pra estar ali — em comum, as camisas da seleção ou a bandeira como uma espécie de manto sagrado e ritual: do Brasil, de Israel e, neste domingo, muitas dos Estados Unidos.
 
Sacola com o pão sob o braço — o que ajudava para que algum conhecido passante não confundisse minhas motivações por ali —, decidi que as crianças poderiam esperar um pouco mais pelo café da manhã, enquanto eu, o Malinowski na tribo da extrema-direita, me lançava a uma pequena expedição etnográfica.
 
Não só pelas camisas amarelas e bandeiras, o clima era um pouco o mesmo da chegada ao estádio: a fumaça das barracas de espetinho, o cheiro de gordura no ar, os isopores oferecendo refrigerante e cerveja, as rodas animadas de conversa antes do início da partida. Em cada pequeno grupo, parecia sempre haver um líder, em geral, um jovem tatuado ou um senhor grisalho com ares de autoridade. Paro, é claro, para ouvir as conversas, e o tom é também o mesmo dos papos futebolísticos: o sujeito está sempre palestrando — tem explicações para os tropeços do time e certezas sobre o futuro do campeonato. Nesse caso, entretanto, em vez de Filipe Luís e Dorival, os nomes são Lula e Alexandre de Moraes.
 
Soltam-se foguetes, das caixas de som, sobem hinos diversos — o Brasil é pródigo em hinos —, há as camisetas de sempre à venda e uma, em especial, me chama a atenção: um cachorro cagando a estrela do PT.
 
É então que o vejo, estrategicamente parado na esquina, ao lado de um desses potentes triciclos artesanais, de evidente fabricação doméstica — talvez noites longas de garagem, talvez um orgulho de aposentado com ferramentas na mão —, cheio de detalhes em couro ao redor do reluzente tanque prateado e do motor impecavelmente polido. O sistema de som era uma obra à parte em tamanho e volume, despejando triunfalmente o Hino da Independência.
 
O dono e engenheiro daquela obra de uma vida tinha entre seus 50 e 60 anos. Era bastante calvo, mas sustentava orgulhoso um rabo de cavalo trançado que parecia conectá-lo a uma energia samurai. De baixo para cima, coturnos, calça camuflada de brim e uma camiseta cavada preta com estampa do Iron Maiden. Nos dedos, vários anéis — pedras de diferentes cores e a indefectível caveira. Protegendo o rosto e dando a ele um ar de X-Men, os óculos Juliet espelhados. À mão, a lata 500 ml de Itaipava.
 
A posição da moto sobre a calçada na esquina mais privilegiada do lugar, o figurino, o hino — tudo compunha, claro, uma performance. E nada de errado com performances. Todos “performamos” o tempo todo. Mas havia ali uma alegria e um orgulho genuínos, um sentido de pertencimento e de grande missão.
 
Não pude deixar de sentir certa ternura. Porque se, de fora, o espetáculo parecia exagerado e anacrônico — um teatro de bravatas, um eco de batalhas perdidas —, de perto, a sinceridade era obstinada. O rabo de cavalo questionava o tempo, o triciclo desafiava o ridículo, o hino preenchia o silêncio de uma manhã de domingo. E tudo isso para quê? Para não estar sozinho na sua casa de dois quartos no Jardim América; para ser parte de um rito além dos jogos do Palmeiras na TV; para acreditar que ainda há uma grande narrativa capaz de dar sentido à sua vida depois de 50 anos separando cartas nos Correios.
 
Quando ele nota que o observo, vejo um brilho em seu olhar e, se esboçando, a intenção para interagir com um confrade — comentar, quem sabe, os absurdos da semana no STF, celebrar os arreganhos autoritários de Donald Trump ou ainda o entreguismo pusilânime de Eduardo Bolsonaro.
 
Abaixo o olhar, ajeito o saco do pão sob o braço, giro nos calcanhares e tomo o rumo de casa.

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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