Em Goiânia, de 1994 a 1999, Sérgio Kuhlmann foi Diretor da Orquestra Filarmônica de Goiás. Também atuou como professor de Regência e Orquestração no Centro de Educação Profissional em Artes Basileu França, instituição mantida pelo Governo Estadual. Destaca-se que, em 2000, Sérgio Kuhlmann participou da criação da orquestra jovem vinculada à Escola Basileu França.
Em janeiro de 2021, via aplicativo whatsapp, entrevistei o maestro Sérgio Kuhlmann. Segue um trecho de nossa coversa:
Othaniel Alcântara: De acordo com a biografia disponibilizada no link https://www.sergiokuhlmann.com, o senhor começou a estudar piano e teoria aos cinco anos de idade. Um outro site, vinculado à prefeitura de Goiânia, afirma o seguinte: “Sérgio Kuhlmann iniciou aos seis anos de idade os estudos de piano com sua mãe”. Aqui vai uma pergunta, talvez, desnecessária: foi aos cinco ou aos seis anos de idade? Outra pergunta: além de sua mãe, mais alguma pessoa da família é ou foi músico?
Ah, Othaniel, uma outra informação também importante: Quando eu comecei a estudar com o maestro Camargo Guarnieri, eu disse a ele “maestro, eu queria estudar regência”! Aí ele me disse: “o primeiro passo que você tem que dar é assistir aos ensaios". Em seguida, disse mais ou menos assim: Você assiste aos ensaios da Orquestra da USP [Universidade de São Paulo]; você assiste a ensaios da Orquestra Sinfônica Estadual [OSESP]. E você pega a partitura. Você vai até a discoteca. E, se você não tiver a partitura, e não conseguir uma cópia, eu te empresto. Você vai aos ensaios e acompanha detalhadamente o trabalho dos diretores das orquestras, durante todo o ensaio. De fato, fiz esse processo várias vezes. Percebi que estar presente a ensaios, acompanhando numa partitura, te dá a oportunidade de aprender duas coisas: orquestração, porque você vai ter a oportunidade de ver como os outros compositores organizaram o efetivo orquestral que eles tinham à disposição e, também, ver como um diretor resolve, organiza e administra todos esses recursos, todo esse universo sonoro. Eu aprendi muito, também, com análises de obras sinfônicas, de sinfonias etc.
Othaniel: Quando e como foi a transferência para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro?
No Rio de Janeiro, inicialmente, exerci a mesma função de um maestro preparador de ópera. Você começa acompanhando nos ensaios, depois você começa a ensaiar, você mesmo, com o conhecimento que você vai adquirindo. E, depois de algum tempo, você começa a atuar dirigindo bandas internas, orquestras internas, atuando como maestro assistente. E essa formação empírica, essa formação da prática é muito importante! Eu conheci vários colegas que fizeram um curso, digamos, de três ou quatro anos, e que não tiveram a oportunidade de uma convivência tão estreita, tão próxima com uma atividade profissional como um teatro, no caso, um teatro de ópera.
Ainda no Rio de Janeiro, eu tive a oportunidade de atuar como pianista da Orquestra Sinfônica Brasileira [OSB]. É outro enfoque. É diferente a música sinfônica da música do gênero operístico. Muitas vezes, tive a oportunidade de trabalhar com o Isaac Karabtchevsky (n. 1934) e com outros diretores que vinham de fora como Kurt Masur (alemão, 1927-2015). Enfim, esse contato, essa experiência de estar dentro da orquestra como músico, aporta muita informação, muitas, digamos, sensações. Por outro lado, eu tenho certeza de que um diretor de orquestra, um maestro, ele precisa também estar do outro lado, como músico, estar tocando, dominando o seu instrumento para poder saber do que um diretor necessita. Outro regente que me ajudou muito foi Romano Gandolfi [italiano, 1934-2006], um maestro de coro que teve uma carreira das mais destacadas no cenário internacional da ópera. Eu fui seu assistente na produção de Turandot [Giacomo Puccini, 1858-1924], no Rio de Janeiro. além de assistente, eu era o preparador do coro.
Meu repertório no Rio de Janeiro era, claro – por estar em um teatro de ópera – mais ópera. Mas, a questão da música sinfônica sempre esteve presente, pois, ao trabalhar orquestração com o Camargo Guarnieri e com o Mário Tavares, sempre estávamos analisando particularidades da música sinfônica, que é bem diferente. Aliás, embora sejam muito parecidas, cada qual tem uma essência distinta.
Durante a turnê, fizemos o espetáculo
com muitas orquestras diferentes. E eu me lembro muito bem que, em agosto de 1994, eu dirigia o espetáculo da Bibi Ferreira em Brasília. É um espetáculo muito, muito, muito complexo (…), falando, digamos, da dificuldade, do nível técnico, do preparo que se deve ter. Porque são muitos gêneros, muitos gêneros distintos! E é uma formação sinfônica, por excelência. Existe um coro, existe um grupo instrumental que se chama de “base”, que é composto por um violão, uma guitarra, piano, bateria e um baixo elétrico. Isso, somado à orquestra. Era, digamos, um espetáculo muito, muito bom!…