Logo

Entenda a guerra de tarifas de Trump e consequências para Brasil

WhatsAppFacebookLinkedInX
03.04.2025 - 15:51:00

São Paulo – A medida do governo dos Estados Unidos (EUA) de impor tarifas a todos os parceiros comerciais, nessa quarta-feira (2), representa uma tentativa da maior potência do planeta de retomar a posição que a indústria do país já teve, além de tentar combater os déficits comerciais de bens que somam cerca de US$ 1 trilhão ao ano.
 
Essa avaliação é feita por diversos analistas, entre eles, o economista-chefe do Banco Master, Paulo Gala, consultado pela Agência Brasil. O também professor em economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), contudo, avalia que as tarifas não podem sozinhas reverter a perda de competitividade da economia estadunidense, em especial, para a Ásia.
 
“A Ásia foi muito eficiente em desenhar políticas para desenvolver a indústria dela nos últimos 20 a 30 anos. Os governos do Vietnã, da Malásia, da Tailândia, da Indonésia, da China, até mesmo da Índia, têm conseguido desenhar políticas de inovação e industriais com subsídios ao desenvolvimento tecnológico”, comentou.
 
O especialista argumenta que o tarifaço representa “um choque brutal” na economia mundial, o maior desde os anos 1930. Além disso, diz que não se tratam de tarifas recíprocas, como prometia o governo Trump, e que haverá impacto para economia brasileira, em especial, para alguns setores e empresas, como a Embraer.
 
Em média, as tarifas aplicadas por Trump foram de 10% para países da América Latina, de 20% para Europa e de 30% para Ásia, mostrando que o problema maior está no continente asiático. 
 
“Hoje, a Ásia deve ter quase 25% do mercado mundial de carro, para não falar da China com a BYD, que está quase matando a Tesla nos mercados mundiais”, comentou Paulo.
 
A Tesla é a fabricante de carros do multibilionário Elon Musk, dono da plataforma X e aliado do presidente Trump.
 
Em 2023, a produção industrial dos EUA como parcela da produção industrial global foi de 17,4%, bem abaixo dos 28,4% de 2001, segundo dados da Casa Branca. “Grandes e persistentes déficits comerciais anuais de bens dos EUA levaram ao esvaziamento de nossa base de manufatura; inibiu nossa capacidade de fabricação doméstica”, justificou Trump. 
 
Paulo Gala diz que as tarifas não podem reverter o custo de produção nos EUA.
 
“O problema é que o custo de produção nos EUA hoje é 5 a 6 vezes maior do que na Ásia. Enquanto a média salarial nos EUA é de US$ 5 mil, na Ásia é de US$ 1 mil”, disse.
 
Choque brutal
As medidas geram incerteza no mercado mundial, derrubam bolsas em todo o mundo e devem paralisar as decisões empresariais. Uma multinacional que produz no Vietnã, na China, em Taiwan, ou na Europa, vai pensar duas vezes agora no que fazer, avalia Paulo Gala.
 
“É o maior choque tarifário desde os anos 1930, é um choque tarifário brutal e o mercado está reagindo com muita preocupação. Vai ter uma desestruturação dramática do comércio, investimentos e tecido produtivo”, acrescentou.
 
Para ele, as tarifas devem pressionar a inflação interna dos EUA. “Todos os produtos asiáticos ficam 30% mais caros. Equipamentos, máquinas, tratores, computadores, chips, tudo isso”, alertou.
 
Tarifas recíprocas?
Um dos principais argumentos da Casa Branca para o tarifaço desta semana é que os parceiros comerciais têm adotado tarifas aos produtos estadunidenses superiores aos que os EUA aplicam nas suas importações e cita o caso do Brasil.
 
“Grandes e persistentes déficits comerciais anuais de bens dos EUA são causados ??em parte substancial pela falta de reciprocidade em nossas relações comerciais bilaterais, que dificultam a venda de produtos por fabricantes dos EUA em mercados estrangeiros. O Brasil (18%) e a Indonésia (30%) impõem uma tarifa mais alta sobre o etanol do que os Estados Unidos (2,5%)”, afirmou Trump na Ordem Executiva publicada ontem.
 
Na avaliação do economista Paulo Gala, as medidas não respeitaram qualquer princípio de reciprocidade. “Não foi tarifa recíproca. É a ideia de que, se um país tarifa os EUA em 30%, os EUA vão lá e tarifam 30% de volta. Isso é tarifa recíproca. Mas não foi isso que foi feito”, afirmou.
 
Para Paulo Gala, o governo Trump apenas pegou os grandes déficits comerciais que os EUA têm e colocaram uma tarifa em cima.
“Foi uma resposta meio tosca. Na verdade, é uma tarifação de países e produtos que causam déficit nos Estados Unidos”, completou.
 
Brasil
O Brasil ficou com a tarifa mais baixa entre as divulgadas, com uma taxação de 10% sobre todas exportações para os Estados Unidos. O governo promete tentar reverter a situação e mesmo recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC) que, devido a paralisia promovida pelos EUA, teve sua atuação limitada nos últimos anos. 
 
O efeito geral que a guerra de tarifas vai causar, com provável retaliação por todo o mundo, deve trazer problemas adicionais para o comércio internacional no Brasil, não diretamente relacionado com a taxação sobre as importações brasileiras.
 
“O Brasil ficou com a tarifa ‘mais barata’ de 10%. Claro que isso é um benefício, mas o Brasil vai sofrer por conta desse terremoto global que está acontecendo. Um medo de crise derrubando juros e dólar e uma recessão, obviamente, que afetariam o Brasil também”, afirmou o economista-chefe do Banco Master.
 
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) lembrou que os EUA são o principal destino das exportações da indústria brasileira, especialmente de produtos de maior intensidade tecnológica, além de liderarem o comércio de serviços e os investimentos bilaterais. 
 
Paulo Gala avalia que a fabricante de aviões brasileira Embraer deve ser uma das companhias mais atingidas.  “Talvez Embraer seja a empresa mais impactada. A nossa dependência em relação aos EUA não é muito alta. Para além dos efeitos diretos em algumas empresas brasileiras, não deve ter um efeito tão dramático.”, completou.
 
Oportunidades para o Brasil
Especialistas têm destacado ainda que a crise aberta pela guerra de tarifas abre oportunidades que podem ser aproveitadas pelas exportações brasileiras. 
 
"Se souber aproveitar esse momento, o Brasil pode expandir suas exportações, especialmente porque a taxação sobre produtos americanos pode levar importadores a buscar alternativas", na avaliação de Volnei Eyng, CEO da gestora de ativos Multiplike. (Agência Brasil)

Leia mais:
Tarifa sobre produtos brasileiros nos EUA entra em vigor no sábado (5)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Caroline Louise

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Infraestrutura
28.09.2026
Prefeitura de Aparecida divulga cronograma de recapeamento até 2 de outubro

A Redação  Goiânia – A Prefeitura de Aparecida de Goiânia informa a programação dos serviços de recuperação asfáltica previstos para a semana de 28 de setembro a 2 de outubro. As equipes da Secretaria de Infraestrutura atuarão em ruas e avenidas de diferentes bairros do município com serviços de microrrevestimento, fresagem e aplicação de nova […]

Vem aí!
28.09.2026
Calor deve passar dos 40ºC em Goiás nesta semana

Ludymila Siqueira Goiânia – O calor deve ganhar ainda mais força em Goiás nesta semana. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as temperaturas máximas podem superar os 40ºC, enquanto a umidade relativa do ar pode ficar na casa dos 20%, índice considerado abaixo do normal. Apesar das altas temperaturas, o Inmet ressalta que valores […]

Economia
28.09.2026
Goiás registra alta no comércio de veículos quase 5 vezes maior que a do Brasil

A Redação Goiânia – Goiás registrou alta de 15,1% no comércio de veículos, motocicletas, partes e peças no acumulado de janeiro a julho de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. O resultado representa uma expansão 4,7 vezes maior que a registrada no Brasil, de 3,2%. Os dados são da Pesquisa Mensal […]

Orçamento
28.09.2026
Mabel apresenta proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) 2027 nesta segunda-feira (28/9)

A Redação  Goiânia –  O prefeito Sandro Mabel apresenta na próxima segunda-feira (28/9), às 9h, a proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2027, que será encaminhada à Câmara Municipal de Goiânia. O instrumento legal estima as receitas e fixa as despesas do município para o ano seguinte. Para 2027, a previsão é de R$ […]

Beleza!
28.09.2026
Lua da Colheita tem brilho intenso no céu de Goiânia

A Redação  Goiânia – O ponto alto da 10ª Lua Cheia de 2026 ocorreu no sábado (26), quando a chamada Lua da Colheita atingiu seu pico máximo. Mesmo após o momento de maior intensidade, o fenômeno ainda pode ser observado no céu de Goiânia, com a Lua mantendo um aspecto bastante iluminado e visível. O […]

Incêndio
27.09.2026
Caminhão pega fogo na divisa entre Goiás e Tocantins

A Redação Goiânia – Um caminhão carregado de maçãs pegou fogo no posto fiscal da divisa entre Goiás e Tocantins, na BR-153, na tarde de sexta-feira (25/9). A equipe de Busca e Salvamento dos bombeiros (CBMGO) foi empregada na ocorrência e, ao chegar ao local, encontrou o veículo já totalmente consumido pelas chamas. Os bombeiros […]

Tecnologia
27.09.2026
Ceia-UFG apresenta modelo brasileiro de formação em IA em reunião da ONU

A Redação Goiânia – O Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia-UFG) apresentou, na quarta-feira (24/9), sua experiência de formação em inteligência artificial em oficina da AI Skills Coalition, iniciativa ligada à União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência especializada da Organização das Nações Unidas (ONU). O diretor do Ceia-UFG, Arlindo […]

Temporal na Região Metropolitana
27.09.2026
Equatorial Goiás garante normalização do fornecimento para 85% dos clientes afetados pelas fortes chuvas

A Redação Goiânia – A Equatorial Goiás mantém os trabalhos para restabelecer o fornecimento de energia aos clientes afetados pelas fortes chuvas que atingiram a Região Metropolitana de Goiânia neste sábado (26). A companhia registrou um avanço rápido no atendimento e, já nas primeiras horas, reduziu para 85% o impacto inicial causado pelas tempestades para […]