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Como quebrar convenções de gênero

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25.03.2025 - 08:04:00
 
Não há como não falar sobre Adolescência, a minissérie britânica em quatro episódios produzida pela Netflix que é justificadamente um dos assuntos do momento. Se você ainda não assistiu, o que se segue está repleto de spoilers. Corra e assista. É uma das melhores coisas que vi em muito tempo e, provavelmente, tem pouco a ver com o que você espera. 
 
Na série, Jamie, um garoto de 13 anos, é preso sob a acusação de ter matado uma colega de escola. A trama é uma exploração dos desdobramentos dessa tragédia.
 
David Bordwell, um dos mais brilhantes pesquisadores das narrativas cinematográficas, nos ensina que nossa leitura de um filme é um processo  cíclico de perguntas e respostas. Para entendermos a trama e dotá-la de coerência, usamos os elementos que nos são fornecidos – imagens e sons -, criando e testando hipóteses que são então confirmadas ou desmentidas por novas informações. 
 
Nesse processo, uma das ferramentas de que lançamos mão são as convenções de gênero. Como espectadores experientes, conhecemos bem as regras básicas que diferenciam dramas de filmes policiais e de comédias. A convenção de gênero é um modelo abrangente com alto poder explicativo porque oferece princípios gerais que se aplicam a todos os filmes daquele tipo. Assim, nos faroestes, quase sempre, há um cowboy que será o protagonista numa trama que, muitas vezes, envolve fazer justiça. Em histórias de amor, a questão básica que move a história é o destino de um casal: eles ficarão juntos? Dramas envolvem dilemas morais e, com frequência, conflitos entre o privado e o público. Em comédias, é comum um protagonista inadequado para  o contexto em que se encontra. 
 
Já em filmes policiais, é frequente que a trama se desdobre ao redor da investigação para descobrir o autor de um crime e seus motivos, trabalhando com o que o narratologista Meir Sternberg chamou de “os três apetites narrativos”: curiosidade (quem matou?), o suspense (ele vai ser pego?) e a surpresa (o assassino não era quem eu esperava).
 
Não é simples, por isso, romper convenções de gênero. Um filme pode ser ruim porque apenas segue essas convenções de maneira tão estrita que se torna puro clichê. Há aqueles ainda piores, entretanto, que, sem destreza dramatúrgica, cruzam as linhas dessas convenções e apenas nos deixam confusos. Todavia, uma marca de grandes filmes reside exatamente em subverter de maneira criativa essas convenções de gênero para nos surpreender não por seu conteúdo, mas por sua forma. Essa é uma das grandes qualidades de Adolescência.
 
A minissérie começa dando todos os sinais de se tratar de uma narrativa policial como outras. Um suspeito fora do padrão comum – um garoto branco de 13 anos de uma família de classe média num subúrbio pacato – é preso e acusado de um crime brutal. Ele nega peremptoriamente que seja o assassino. Tudo aponta para uma trama movida pela injustiça, o que nos prepara para reviravoltas e surpresas. Seguramente, surgirão elementos para colocar em dúvida a autoria do crime. 
 
Todavia, ainda no primeiro episódio, a polícia apresenta sua principal evidência: um vídeo de câmera de segurança mostra, de maneira indubitável, que Jamie cometera o homicídio. É uma quebra tão abrupta da expectativa trazida pela convenção de gênero que seguimos insistindo na hipótese padrão ainda durante longo tempo: acreditamos que deve acontecer uma reviravolta na investigação – o filme teria sido feito com inteligência artificial? É falso? Talvez não seja de fato Jamie nas imagens? 
 
Essa surpresa nunca se concretiza. Após os dois primeiros episódios acompanharem a investigação, há um salto de sete meses no tempo – Jamie continua preso aguardando julgamento – e, depois, de mais seis meses – Jamie segue sob custódia e sua família lida com a terra arrasada que sua vida se tornou. 
 
À medida em que certas convenções de gênero perdem poder explicativo, buscamos amparo em outras, procurando respostas e coerência narrativa. A hipótese seguinte é a de que deve haver algo profundamente disfuncional na família que explicaria o comportamento de Jamie. Esse pai provavelmente tem esqueletos no armário: é possivelmente um tipo misógino e violento, quem sabe um assediador moral ou mesmo um abusador sexual?
 
Nesse sentido, os roteiristas Stephen Graham e Jack Thorne fazem uma caracterização ambígua e inteligente de Eddie Miller, o pai de Jamie (representado pelo próprio Stephen Graham). Ele é o estereótipo do pai proletário britânico durão que já vimos em outros filmes, como os de Mike Leigh e Ken Loach, o que ajuda a reforçar a plausibilidade da hipótese de segredos obscuros.
 
Adolescência é tão hábil na maneira como manipula essas convenções que nos mantém aferrados a essas expectativas até o fim mesmo diante de toda evidência em contrário. Há de se revelar algum monstro, um segredo perverso, alguma anormalidade brutal que explique a tragédia. 
 
Mas simplesmente não há. Jamie é de fato o assassino. Sua família não tem esqueletos guardados. Eddie e Manda são pais comuns e amorosos que se esforçam imensamente para dar o melhor a seus filhos.
 
A narrativa da série não se interessa pelos lugares-comuns do gênero policial e do melodrama. Não há injustiça a ser revertida, não há um monstro clássico a ser punido, não há espaço para catarse. E, no entanto, justamente por não atender a nossos apetites narrativos, Adolescência nos surpreende num outro nível. A série coloca no meio da sala vários elefantes e nos deixa para lidar com eles.
 
Jamie é um assassino de 13 anos, mas não é um monstro clássico. Ele não é o adolescente perturbado de Precisamos Falar sobre Kevin, nem um Hannibal Lecter,  perverso e manipulador. É apenas um garoto comum na aparência, como meu filho ou o seu. Eddie Miller tampouco é um espancador ou pedófilo. É somente um pai angustiado com a dúvida de todos nós – sou mesmo um bom pai?
 
Não nos é oferecida, dessa forma, nenhuma via para expiação da culpa, nem tampouco devolvido qualquer sentido. Não há uma justiça transcendente, nem qualquer garantia de que nossos melhores esforços serão recompensados. O mal pode brotar mesmo onde aparentemente não existem sementes.
 
Como se não bastasse esse domínio absurdo da estrutura narrativa, os quatro episódios de Adolescência são todos filmados em planos-sequência sem cortes. Cada um tem cerca de uma hora em tomada única contínua, revelando não apenas a maestria da direção, mas o alto nível do elenco, onde a surpresa maior é o estreante Owen Cooper, que faz o papel de Jamie Miller. É absurda sua capacidade de interpretação para um garoto de 15 anos que nunca atuara. O terceiro episódio especialmente é um feito cinematográfico: acompanhamos uma hora da sessão de Jamie com a psicóloga contratada para avaliá-lo, representada pela igualmente brilhante Erin Doherty. As variações de humor e ritmo, a ambiguidade emocional e o nível de interação entre os atores é coisa raramente vista.
 
Sem contar o quarto e último episódio, em que seguimos uma manhã na vida dos pais de Jamie e de sua irmã. A maneira como a tensão se acumula em meio a questões banais do cotidiano e a superposição do afeto a um fluxo subterrâneo silencioso de dor e mágoa lembram os melhores momentos de Uma Mulher sob Influência, obra-prima do mestre do cinema independente americano John Cassavetes.
 
Adolescência, como têm reiterado seus criadores, é uma narrativa sobre as piores consequências da masculinidade contemporânea. Na semana que vem, falaremos sobre isso. Até lá, não deixe de assistir outra obra-prima sobre a masculinidade: Oeste Outra Vez, filme de Érico Rassi, de que falei aqui, em cartaz, a partir desta quinta-feira, em salas de todo o país. 
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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