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Está faltando taito para a molecada de hoje

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12.04.2013 - 13:11:08

Goiânia – Preocupado com o avanço dos coxinhas em tudo quanto é canto do mundo de hoje, pensei um pouco sobre o que tinha quando eu era moleque e que a rapaziada agora não tem acesso. Depois de vasculhar um pouco minha memória combalida pelos maus hábitos, me lembrei de um espaço que era um divisor de águas entre homens e meninos: o fliperama. Tinha gente que assim chamava o local onde comprávamos fichas e jogávamos os games eletrônicos. Outros de taito. Alguns fundiam as duas nomenclaturas e partiam para o neologismo taitorama. Tanto faz, estamos falando da mesma coisa.

Era um lugar que seus pais não gostavam que você frequentasse, mas tinham noção da importância de que seus filhos ali estivessem. O ambiente era predominantemente masculino. Ali você aprendia alguns códigos que regem os ambientes ricos em testosterona: toda gozação é possível, mas se você passar do limite corre o risco de tomar uma porrada; piadas com a mãe do outro são o último passo para a violência física; se você comprou algo é dever ir até o fim. Um tipo de honra que a geração shopping center nunca irá entender.

Também era uma escola para o lado errado da vida. De aprender a fumar, de fazer a máquina dar crédito com palitinho ou embalagem de Veja recortada, de roubar ficha do playboy que dava bobeira. Os vícios e a criminalidade estavam sempre ao seu lado e cabia a você saber que caminho trilhar.

O fliperama que eu mais frequentava era um perto da Praça do Avião. Também ia muito a um ficava na Rua 3, perto do Cine Ouro. O do Setor Aeroporto tinha o clima mais amigável. O do Centro já era mais tenso. Tinha um monte de office boys matando serviço e trombadinhas querendo ganhar o boné de alguém incauto. E você ficava ali do lado, tentando aprender a manha de como se dar bem em tal jogo.

Quando comecei a ir aos taitos, os jogos de bolinha estavam meio defasados. O que bombava de verdade era o Double Dragon. A parte da ponte desse jogo era o maior motivo de desavenças desde a crise dos mísseis em Cuba. Vou tentar explicar a razão. Se você desse dois toques à frente com o joystick, o personagem aplicava um golpe chamado cabeçada. A ponte era quebrada e você precisava ficar bem na beiradinha para pular o buraco. Só que para chegar ao limite e ultrapassar o obstáculo, você deveria ir com pequenos toques no controle. Era mais que comum durante esse processo você dar uma cabeçada no seu companheiro de jogo que caía no buraco e perdia uma vida. A hombridade de um taito não deixava isso passar barato. Os urubus em volta começavam a zoar e era preciso descontar essa desforra para vingar a vida perdida. Acho que foi daí que surgiu a ideia para aquele tipo de jogo um contra o outro ao estilo Street Fighter.

Depois vieram outros jogos que mobilizavam a galera, como Tartarugas Ninjas, Street Fighter, Mortal Kombat… Passado algum tempo deixei a idade dos jogos, as garotas começaram a chamar mais atenção, comprei um violão e a vida seguiu. É o curso. Os fliperamas de bairro acabaram junto dos cinemas. Agora só estão nos shoppings, o que não proporciona o astral de outrora. E daí você entende a raiz do metrossexual brasileiro.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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