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Jamais seremos modernos

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18.03.2025 - 08:29:06
Passado o Carnaval, viemos a Salvador, usando como desculpa ver a estreia da derradeira turnê de Gilberto Gil.
 
Todo brasileiro é um pouco soteropolitano e carioca. Nossa história e a cultura que carregamos estão tão profundamente enraizadas nas duas primeiras capitais do país que o encanto ou a ojeriza a essas cidades, tanto faz, sempre revelam algo do indivíduo e de como se constitui em relação à nossa cultura e identidade nacional. Afinal, “Narciso acha feio tudo o que não é espelho", explicou o próprio Gil falando sobre São Paulo em sua canção imortalizada por Caetano.
 
Antes, acompanhei todos os orixás desfilando pela Sapucaí, com o Exu da Beija-Flor abrindo o desfile campeão – e quem mais poderia fazê-lo, se não ele? Vi o engraçadíssimo e genial Milton Cunha misturando como ninguém seu profundo conhecimento do Brasil à mais desbragada galhofa Carnavalesca; me diverti, mesmo que só pelos jornais e redes sociais, vendo os blocos e seguindo os amigos que foram para as ruas em diferentes cidades do país; ouvi os ensinamentos sempre iluminados de Luiz Antônio Simas sobre nossa maior festa popular; e então encerrei essa primeira etapa do ano na Baía de Todos os Santos, acidente geográfico com o mais belo nome do mundo, sintetizador da ideia hoje meio fora de moda de um Brasil sincrético como nossa maior qualidade. 
 
Juntos, Rio de Janeiro e Salvador expressam o Brasil em todas as suas contradições de que nem é preciso falar aqui, porque o ponto é outro. Mas, para ficar apenas no lado positivo, manifesta-se na atitude dos brasileiros desses dois lugares, de maneiras bem diferentes, toda a nossa generosidade, penso eu. Mais que isso, entretanto, acho que Rio e Salvador evidenciam, de forma mais evidente que outros lugares, nossa verdadeira recusa à modernidade. É isso o que ao mesmo tempo encanta e incomoda.
 
E essa recusa, me parece, talvez seja nossa maior qualidade, mas aquela que, em última instância, por outro lado, é nossa grande contradição fundante e o eixo de uma verdadeira impossibilidade. 
 
Invoco a ideia também fora de moda de Darcy Ribeiro para dizer que no Brasil a cultura europeia se misturou de uma maneira diferente às culturas africanas e indígenas. Em O Povo Brasileiro, o velho mestre explica como os colonizadores portugueses tomaram partido das próprias instituições ameríndias para mobilizarem sua mão-de-obra, casando-se com mulheres indígenas de forma a estabelecerem laços de reciprocidade com as comunidades. Por essa via, iniciaram um processo de miscigenação racial e cultural profundo e distinto.
 
Não se trata obviamente de, com isso, glorificar a colonização ou passar pano para a violência que nos constitui. Trata-se apenas de dizer que somos o que somos e temos que lidar com isso. Há um resultado concreto no presente de toda essa história, com suas belezas e horrores, e cabe a nós fazer o melhor disso entendendo o passado em toda a sua complexidade – sem esquecê-lo, sem celebrá-lo ingenuamente, mas também sem nos paralisarmos diante de sua sombra.
 
Dessa forma, na maneira portuguesa, ainda que involuntariamente, e de modo distinto dos métodos britânicos na América do Norte, acabou por ocorrer uma mistura e uma absorção muito maiores de aspectos nada triviais das culturas indígenas e africanas que nos dão nosso melhor, mas que instalaram no coração do que somos essa inevitável recusa à modernidade.
 
Ainda que de forma escamoteada, inconsciente, por essas heranças, parecemos saber que existe uma perspectiva de gozo da vida que é a própria antítese da modernidade. Esse gozo é justamente aquilo que a modernidade nos usurpa de saída, prometendo o progresso, pois a interdição a essa fruição é exatamente o que instaura a própria possibilidade da modernidade, com sua racionalidade ordenada para a produtividade econômica e para a mudança e o desenvolvimento sem termo.
 
Modernizar-se é render-se à utilidade, à razão instrumental, é abrir mão de tudo na vida que não seja meios para fins pré-estabelecidos. Ser moderno é precisamente interditar a inutilidade que caracteriza a fruição da vida em seu âmago, pois esse gozo celebratório do presente é completamente improdutivo no sentido moderno.
 
O Carnaval nos caracteriza tanto porque, espremidos entre as paredes da modernidade, essa festa se tornou uma espécie de parêntese anual onde permanece autorizado esse gozo inútil, a celebração puramente estética, a ênfase nos sentidos e naquilo que é, de outra forma, apenas pueril e banal, o amor à piada, à galhofa e à transgressão. Diante da força dessa herança e de sua centralidade em nossa cultura, o Carnaval é inevitável, necessário, e permanece como essência do Brasil por ser esse momento tolerado e celebrado em que podemos, graças aos  orixás e entidades indígenas, não ser modernos. 
 
Não há nada de novo no que falo aqui. O professor Luiz Antônio Simas explica de forma muito mais refinada esse paradoxo e o caráter antimoderno do Carnaval.
 
Pensando nessas duas cidades, Rio e Salvador, cuja marca maior é justamente o Carnaval, o que são as críticas já banalizadas a seus supostos traços culturais se não uma acusação a essa inescapável essência antimoderna?
 
O soteropolitano preguiçoso e o carioca malandro são a denúncia desse caráter brasileiro que apavora e encanta ao mesmo tempo. Afinal, não é a preguiça do baiano sempre imaginariamente representada pela imagem, muito próxima à do indígena, do homem deitado na rede, trabalhando o mínimo possível para se sustentar porque a natureza dadivosa o permite, mas sobretudo porque para ele não há qualquer sentido em acumular bens? De outro lado, a representação canônica do malandro não é justamente a do negro sambista e capoeirista, identificada sempre com a do ladrão ou bandido de maneira geral?
 
Talvez se possa dizer que o preconceito racial seja apenas a aparência superficial desse problema mais profundo: a questão não é ser preto ou indígena, mas sim portador de uma cultura que realmente precisa ser apagada para que a modernidade possa florescer. Enquanto a celebração do gozo inútil permanecer entre nós, a modernidade estará sempre ameaçada.
 
Mas, insisto, essa celebração é tão fundante do que somos que uma ideia de país para além desse embate eterno entre modernidade e tradição talvez não seja possível. Não somos capazes de ser modernos porque no fundo sabemos o tamanho da perda envolvida.
 
Não gosto da visão preconceituosa que a esquerda e as elites urbanas têm em relação aos evangélicos. Todavia, não se pode negar,  desde  Max Weber,  a relação profunda entre a cultura protestante e a modernidade. O pai da sociologia demonstrou-a, ainda no início do século 20, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Diferentemente dos católicos, que enfatizam a salvação pela confissão dos pecados e aceitação de Cristo, os protestantes valorizam o trabalho como sinal e porta para o merecimento do amor de Deus e a salvação da alma. O protestantismo é a religião da utilidade. 
 
Não deixa de ser sintomático e iluminador, nesse sentido, o preconceito de grande parte dos evangélicos em relação às religiões de matriz africana. Sua intolerância parece sinalizar exatamente para essa necessidade de apagar tudo o que de antimoderno há em nossa cultura.
 
Não nutro muita esperança de que esse Brasil antimoderno vença essa batalha, mas também não devemos subestimar a força daquilo que essas culturas nos legaram e de seus representantes que sobreviveram e que seguem incomodando o mundo e o país com sua recusa a se deixarem absorver. Por mais que a ciência, a tecnologia e o capitalismo – pilares da modernidade – tenham trazido qualidade de vida, não há possibilidade de sentido no primado moderno da razão. Só o inútil e o mistério a oferecem, e nós sabemos disso.
 
O título deste artigo parafraseia o de um livro do filósofo francês Bruno Latour, Jamais Fomos Modernos. Nele, o autor desconstrói a própria ideia de modernidade, demonstrando-a como uma enorme ilusão, visto que as cisões básicas que a compõem, como aquelas entre sociedade e natureza e entre sujeitos e objetos, bem como a ideia de uma ciência como forma superior de conhecimento, simplesmente não se sustentam em termos lógicos ou diante da própria realidade.
 
Nessa direção, ao invés do lema positivista “Ordem e Progresso”, proponho que mudemos o motto nacional impresso em nossa bandeira para: “Jamais seremos Modernos”. Apontaria para um futuro bem mais luminoso.
 
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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