Logo

Manifesto contra os Ideais

WhatsAppFacebookLinkedInX
19.11.2024 - 18:24:23

Sabe por que a democracia é provavelmente a melhor ideia que o ser humano já teve?

 
Porque ela parte do pressuposto de que não correspondemos aos ideais que gostamos de cultivar a respeito de nós mesmos. Não somos necessariamente bons, inerentemente solidários, não há de antemão um futuro luminoso nos esperando, o progresso não está garantido.
 
Não se trata tampouco de dizer que somos inescapavelmente maus ou egoístas e que essa tendência inata precise ser contida – há nisso uma discussão infrutífera e complexa sobre a divisão entre natureza e sociedade que é um beco sem saída. Mas o fato é que a vida coletiva é desafiadora e que ideais, nesse sentido, nunca foram garantias para uma convivência mais frutífera. Ao contrário.
 
Sim, não há humanidade possível sem ideais, sem um projeto de futuro, um lugar almejado aonde desejamos chegar – como indivíduos ou como sociedade. Todavia, foi sempre algum tipo de ideal que produziu aquilo que de pior nossa espécie foi e segue sendo capaz. 
 
Pense em qualquer atrocidade e haverá sempre um ideal a justificá-la: os genocídios coloniais, a escravidão, o Holocausto, os gulags soviéticos, o 11 de setembro, Hiroshima e Nagasaki, o Apartheid, Holodomor, a Revolução Cultural Chinesa, todos os mortos e torturados de todas as ditaduras latino-americanas, o 7 de Outubro do Hamas, a reação israelense a ele – tudo produzido por ideais, histórias que inventamos para justificar que certas pessoas dominem outras e que pavimentam o caminho do sofrimento, da crueldade e da morte. 
 
A democracia surgiu por acidente quando pessoas cansadas de terem seus traseiros chutados por pessoas que justificavam seus chutes com base em ideais – em geral, um direito divino que as tornava melhores que as outras – se juntaram e desistiram de idealizar a si mesmas por um instante. Com isso, pensaram um conjunto de regras que estabelecesse proteções exatamente contra os ideais uns dos outros. 
 
Justamente por isso, a democracia não deve ser vista como um ideal. Ela é uma frágil engenharia social que se coloca como valor supremo para que os ideais não nos destruam – é um mecanismo que coloca em pé de igualdade todos os ideais e os força à negociação, esperando que disso resulte a melhor vida coletiva possível. 
 
Eu não sabia direito o que era a democracia até conviver de perto com políticos. Percebi então que eles faziam discursos nos palanques e púlpitos se atacando – por vezes, eu temia que pudessem se matar uns aos outros -, mas depois tomavam café, davam-se tapas nas costas, perguntavam-se se as respectivas famílias iam bem e se despediam com um “Fica com Deus”.  
 
Churchill supostamente teria dito que as pessoas não devem saber “como as salsichas e a política são feitas”. Sobre as salsichas, realmente parece conveniente preservar nossa ignorância. Em relação à política, todavia,  e, por extensão, à democracia, ao contrário, parece-me que o problema não reside em como são fabricadas, mas na maneira como as idealizamos, e no próprio fato de que as idealizemos.
 
A democracia não pode ser vista como um ideal, e não foi feita, como dito, para realizar ideias pré-concebidas, mas sim para evitar os males, sempre muito maiores, que a absolutização dos ideais produz. Ela é uma proteção precária para, primeiro, evitar que, por esses ideais, uns tornem miseráveis as vidas de outros e, no limite, que nos matemos uns aos outros quase sempre com requintes de crueldade. Eventualmente, como fruto disso, quem sabe, resulta uma convivência coletiva virtuosa que melhora a vida da maioria.
 
A democracia não garante nada de antemão. Não garante igualdade, nem liberdade, nem justiça, nem progresso econômico. Além disso, é de fato, muitas vezes, reduzida a um discurso vazio usado para perpetuar injustiças.  Disso não resulta, entretanto, que menos democracia – ou seu descarte puro e simples em favor de soluções autoritárias – resolva esses mesmos problemas.
 
Que os políticos se xinguem em público e se confraternizem em privado é uma virtude, antes de se tornar uma degenerescência. Que as ideologias se ofusquem no bojo das negociações é bom, antes de ser ruim. Que a política brasileira tenha sempre tendido aos acordos é um ganho, apesar de ter se convertido em problema (aliás, possivelmente, se não houvesse o centrão, já estaríamos em guerra civil). Nossa democracia vai mal, mas segue de pé. Os galhos tortos nascem do mesmo tronco de onde surgem ramos saudáveis, mas isso não significa que as raízes estejam podres.
 
Por isso, é preciso seguir repetindo: precisamos de mais democracia, não menos. 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
02.11.2026
Morce-GO Vermelho reúne cinéfilos em programação especial de terror; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Morce-GO Vermelho – Goiás Horror Film Festival chegou à 10ª edição no último fim de semana, com uma programação dedicada ao cinema fantástico e de horror. O evento foi realizado em Goiânia e Anápolis. A seleção reuniu 42 filmes, escolhidos entre 1.082 obras inscritas. A curadoria é assinada por Mônica Trigo, […]

Curadoria Afetiva
01.11.2026
Zen Vergonha

Peço licença para me apropriar do título do podcast da destemida, Fernanda Lima que tem como principal objetivo falar de assuntos sem tabus ou constrangimentos e que, no meu caso e nesse texto específico, serviu como uma luva. Para início de conversa indicarei a série alemã, “Assassino Zen” (2024), disponível na Netflix, cuja segunda temporada […]

Noite e Dia
30.10.2026
Prêmio Fieg de Inovação 2026 reconhece projetos que impulsionam a indústria goiana

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) anunciou, na última quarta-feira (28/10), os vencedores do Prêmio Fieg de Inovação 2026. A cerimônia, realizada no Centro de Convenções de Goiânia durante a programação da Expoind 2026, reconheceu projetos que contribuem para o desenvolvimento da indústria goiana por meio de novas […]

Joias do Centro
30.10.2026
Maria Fumaça nº 11 é símbolo da chegada do progresso a Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Entre os marcos da Estrada de Ferro de Goiás, as locomotivas estão entre os mais representativos. Por meio delas, o progresso chegou ao Estado e, consequentemente, à nova capital. Bem no Centro de Goiânia está um dos símbolos deste tempo, a Antiga Estação Ferroviária, que guarda uma peça que chama a […]

Meia Palavra
28.10.2026
‘Carrie’ renova clássico sem perder o espírito original

Olá, sumidos. Nada mais adequado para a semana do Dia do Saci do que falar da nova encarnação de Carrie, a Estranha, agora uma série da Prime Video feita por Mike Flanagan, de Missa da Meia-Noite e outros sucessos do terror recente. Já renovada para a segunda temporada, isso, por si só, já deve informar […]

Noite e Dia
27.10.2026
Jardim Potrich celebra o aniversário de Goiânia com yoga e sabores do Cerrado; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em comemoração ao aniversário de Goiânia, o Jardim Potrich realizou, no último sábado (24/10), uma experiência que uniu yoga, alimentação saudável e valorização da biodiversidade do Cerrado, convidando o público a celebrar a cidade por meio do cuidado com o corpo, a mente e os sentidos. A programação contemplou uma aula […]

Noite e Dia
26.10.2026
População comemora aniversário de Goiânia no tradicional desfile cívico; veja galeria de fotos

Carolina Pessoni Goiânia – Goiânia comemorou seus 93 anos, no último sábado (24/10), com a realização do tradicional desfile cívico-militar na Avenida 24 de Outubro, no Setor Campinas. A programação, realizada durante a manhã, reuniu mais de 1,2 mil participantes e marcou as celebrações pelo aniversário da capital goiana. O prefeito Sandro Mabel e a vice-prefeita […]

Curadoria afetiva
25.10.2026
Equilíbrio

“A Anitta fez um curta musical que é um dos maiores acontecimentos do ano. Equilibrivm I-II tem 35 minutos. Acho que uma boa maneira de resumi-lo é dizer que ele é uma grande homenagem à cultura brasileira, feito com muito cuidado e respeito. A pesquisa visual do projeto vai fundo em três pilares. Primeiro, as […]