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A vida em uma sacola que a chuva levou

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05.03.2013 - 17:27:58

Goiânia – Só quem tem um coração de pedra não se sensibiliza com a história de José Damião Sobrinho. Esse pernambucano, de 57 anos, perdeu tudo o que tinha devido a uma enchente em sua casa, em Cubatão (SP). E o principal: R$ 2,7 mil reais que ele estava juntando em uma sacola se foram junto da lama. A grana era para a passagem de volta e a construção de uma casinha em sua cidade natal, Pesqueira. Todos seus sonhos foram levados na enxurrada. Todos esforços perdidos em uma sacolinha de plático. Uma tristeza.

Impossível não fazer um paralelo com o bate-pavão na grana do povo do início do governo de Fernando Collor, em 1990, sob a gestão de sua inesquecível ministra Zélia Cardoso de Mello. Eu era moleque, tinha 10 anos, mas a lembrança do desespero de famílias que tiveram suas economias das cadernetas de poupança inescrupulosamente saqueadas ainda é vívida em minha memória.

Sonhos no lixo, planos abortados pela mão pesada do Estado, injustiça cruel vinda de quem deveria garantir os direitos. Coisas de uma republiqueta que éramos, recém-entrados no primeiro governo democraticamente eleito depois de décadas. Que esses tempos sejam só (triste) passado! Será que José Damião não foi um dos lesados que ficaram traumatizados com o arbítrio desse confisco?

Também é preciso questionar o sistema bancário brasileiro. É tanto documento, tanto comprovante, tanta burocracia, tanta informação… Nessa avalanche de necessidades desnecessárias, a parcela historicamente destituída de direitos do nosso país é, mais uma vez, alijada do processo. Como alguém sem instrução consegue abrir uma conta no banco? Como operar um daqueles caixas eletrônicos que cancelam seu cartão quando esquecemos da maldita sequência de letrinhas?

Uma vez vi um idoso se desesperar na frente de um caixa eletrônico. Ele quase teve um infarto para tentar sacar 60 reais. Não conseguiu. Os bancos excluem sistematicamente quem não tem condições sociais mínimas e quem não entende o novo mundo virtual. Será que José Damião não foi um dos segregados que não conseguem manter conta nas instituições bancárias?

Outro ponto que é necessário refletir diz respeito ao planejamento das nossas cidades. Aquelas pessoas não poderiam estar morando ali, em área de invasão. A leniência do setor público permite que tragédias seguidas de tragédias sejam rotineiras. E continuamos em nossa indignação de redes sociais, mas votando com o mesmo interesse que temos quando nos ligam de um call center. Vamos esperar mais uma dúzia de desastres como o da região serrana fluminense? Vamos esperar quantas dezenas de milhares de sonhos como os de José Damião serem abortados por inoperância do ente público?

José Damião, todos nós somos responsáveis pela perda de sua estimada sacolinha. Todos nós somos responsáveis pelo sepultamento de seu sonho. Todos nós somos responsáveis pela sua dor.

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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