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Mais que amor

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25.02.2013 - 22:32:59

Goiânia – O amigo me liga no final do dia. Diz que sua mulher, uma grande amiga minha, está doente, e pergunta se posso visitá-la. “Ela anda tão tristinha. Acho que se você vier aqui, poderá animá-la um pouco”. Chego na casa dos dois e lá está ela, deitada na cama, chorosa e sentindo muitas dores.


Conversamos um pouco, tento acalmá-la e ela decide tomar um banho. O marido corre para ajudá-la a retirar os curativos. De longe, observo a delicadeza com que ele afasta gazes e esparadrapos, o cuidado que toma para não esbarrar nos pontos, a paciência com que enxuga as lágrimas dela.

“Será que isso não vai passar nunca?”, pergunta a amiga angustiada. “É claro que vai, meu amor”, assegura ele. “Mas será que não vou enlouquecer até lá? Esse mal-estar é terrível demais”, questiona ela, com medo. “Não, você não vai enlouquecer. Tudo isso vai passar. E até que passe, estarei o tempo todo com você”, garante o marido.

A cena está longe de ser erótica ou romântica. Ela com cicatrizes e dores, tem o corpo avermelhado, coberto por um antisséptico estranho. Veste com a ajuda do parceiro uma camisola larga, calça um par de velhas pantufas e joga-se na cama, abatida. Não há poses sensuais, jogos de palavras nem nada que lembre um clima de namoro.

Ironicamente, nesse momento tenho a certeza de estar presenciando uma cena explícita de amor. É que além de carinho, há também muita amizade. Ele cuida dela, consegue se colocar no lugar da mulher sem julgá-la ou reprimi-la. Ela retribui o cuidado com gratidão e com uma história de quem sempre fez o mesmo por ele.

“Que sorte ter um relacionamento assim”, penso eu com meus botões. Mas logo depois me corrijo. Não é sorte, é merecimento. Para ter um relacionamento assim é preciso alta disponibilidade. É preciso estar disposto a dar afeto, tempo, dedicação, paciência; querer dar ao parceiro aquilo que reservamos aos nossos melhores amigos.

Muitos casais baseiam suas relações no tesão e em disputas de poder. Problema nenhum, pois cada um decide como quer ser feliz. Percebo, porém, que esse tipo de parceria não costuma ter vida longa, ou, se tem, ao final traz mais tristezas que alegrias, mais amarguras que compensações.

Não há atração que resista à rotina. Com o tempo, o tesão arrefece e a necessidade urgente do toque do outro, do calor do outro, vai diminuindo. Se o motor da relação for única e exclusivamente a atração física, é provável que ela comece intensa, dure um punhado de meses e depois acabe, com cada um seguindo sua vida.

Se o motor for a disputa de poder, quando um tenta a todo momento mostrar ao outro que está coberto de razão, querendo impor sua ideologia, seu estilo de vida, a coisa pode até começar excitante – como diz Dinho Ouro Preto, “o poder de dominar é tentador” –, mas provavelmente não terminará bem. Brigas desgastam e cansam.

Quando um casal consegue aliar atração física – sim, ela diminui e se transforma com o tempo, mas é muito importante – com amizade, creio que aí, sim, talvez a relação tenha boas chances de dar certo e se tornar sólida. Pode parecer simples, mas há que se lembrar que amizade de verdade envolve muita coisa. 

Como diz Artur da Távola, no lindo texto “Amor só não basta”, “é preciso que haja, antes de mais nada, respeito. Agressões zero. Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência. Amor, só, não basta. Não pode haver competição. Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber levar. Amar, só, é pouco.”

Lembro-me de tentar consolar minha mãe, quando meu padrasto morreu, e ouvi-la dizer: “Ainda vai doer muito tempo. É que não perdi só meu marido, perdi também meu melhor amigo”. Eles eram capazes de ficar horas a fio conversando. Ele a entendia como ninguém, cuidava dela, e vice-versa.

Que alegria saber que você se relaciona com o outro, e não contra ele. Que há camaradagem, confiança e apoio. Que independente da cama, estar ao lado de alguém é um prazer. Que bom poder ir para o outro e cantar baixinho: “O meu melhor amigo é o meu amor…”   
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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