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O poder da palavra

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29.01.2013 - 15:27:57
 
 
Goiânia – Duas notícias me chamaram atenção nas últimas semanas.
 
Uma delas sobre a proibição da entrada de babás sem uniforme branco em um clube do Rio de Janeiro. A segunda vem do site de um hospital, em São Paulo, abordando o que fazer em relação às “muitas crianças que nascem com os cabelos crespos ou rebeldes demais”.
 
Sugerindo que a mãe não use formol de jeito nenhum, o texto aponta que “há opções de escovas que podem ser feitas nas meninas de pouca idade sem causar danos”.  O texto era ilustrado com a foto de uma menina negra de cabelos crespos.
 
Para mim, as duas notícias são a faces da mesma moeda: o preconceito.
 
O brasileiro enche o peito de orgulho para falar que no Brasil não existe racismo, que somos um país colorido e multiracial. Mas esse mesmo brasileiro se refere a cabelo crespo como cabelo ruim, diz que tem o pé na cozinha e quando algo sai errado é porque foi serviço de preto.
 
Se usar expressões como essas não é racismo, fica difícil saber o que seria. E o mais incrível, é que ninguém se dá conta do horror que expressões como essas significam, pois reforçam estereótipos negativos de maneira coloquial.
 
A palavra tem poder e a repetição exaustiva de ditos e expressões como “cabelo ruim” tem um impacto negativo na auto estima de milhares de homens, mulheres e crianças de origem negra.
 
Não estou propondo aqui uma caça às bruxas nem o politicamente correto. Estou propondo uma reflexão. Toda palavra reflete um pensamento e se não queremos ser taxados de racistas devemos ter cuidado com o que sai das nossas bocas. Se queremos mudanças de comportamento, se queremos melhorar como Nação, como pessoas e como cidadãos, temos que começar por nós mesmos, observando o que dizemos e o pôrque dizemos.
 
A proibição da entrada de babás sem uniforme no clube carioca também é claramente um ato de preconceito, uma manobra para separar o “joio do trigo”. O branco usado pelas babás, como bem disse a jornalista Miriam Leitão em sua coluna no Globo, tem o objetivo de marcar a divisão entre as pessoas e deixar explícito a que grupo social elas pertencem. A jornalista continua: “Não existe nenhum argumento plausível para a regra que não seja os resquícios do servilismo que nos acompanha desde a escravidão.”
 
Já escrevi sobre o tema aqui em duas ocasiões – Mulheres de Branco e Mulheres de Branco 2– e sempre fico envergonhada quando estou em um restaurante, clube ou praia – e chega o casal, seus filhos e uma moça de branco logo atrás.
 
Neste verão, fui a uma praia do Uruguai bastante familiar. Pais e mães curtindo as férias na companhia dos filhos. Um dia vejo um casal chegar com três filhos e uma moça vestida de branco logo atrás. Nem precisei escutar a voz para saber de que país eram.
 
Senti um misto de vergonha e pena.   
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por Bia Tahan

*Jornalista

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