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Sobre como descobrir sentido nos dias, contando boas histórias!

21.03.2024 - 08:56:42
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Você sabia que cada dia é especial?
Claro que não sabia! Porque não é!
Não existem dias especiais por si. Puff… veio o dia e é especial! Não! Ah, mas talvez seja especial a forma como vivemos esse dia? Também não!
 
O que faz o dia especial é a história que guardamos dele. Histórias criam âncoras aos dias, fazendo com que nossa memória guarde algo desse dia. Há uns dias, por exemplo, 18 de março, minha filha disse sua primeira palavra. E eu conto isso pra todo mundo. As pesquisas dizem que com 10-11 meses um bebê pode fazer barulhos ou gestos e até perguntar algo com esses gestos, dizer não com a cabeça ou a mão, insistir, dar oi ou tchau. E por volta os 12-14 meses, podem dizer algumas palavras, sabendo o que elas querem dizer. Mas a minha filha… tem 9 meses, e ainda fará 10.
 
18 de março não nasceu especial, e ele não se fez especial. Ele é especial porque eu guardei uma história que nele vivi. Uma história que pode pouco ou nada importar a você, leitor, mas que é importante para mim!
 
Por isso, nas diversas religiões do mundo, os calendários são criados para nos convidar a contar boas histórias. Calendários são agendas que podemos preencher de sentido. Talvez por isso, o calendário bahá’í, um dos dois calendários que eu sigo, no caso o calendário religioso para mim, tem os dias da semana não com nomes de deuses de mitos esquecidos (Marte, Júpiter, Frigga, Thor…) ou números ordinais ou fracionários (segunda, terça, quarta…). Mas atributos espirituais: glória, beleza, perfeição, graça, justiça, majestade, independência. Porque deveríamos nos lembrar de contar histórias que nos ajudem a sermos mais independentes e apoiarmos histórias que ajudem na independência dos outros. Histórias que ofereçam justiça e histórias que clamem por ela. Afinal, o que seria de um mundo sem graça, um mundo sem beleza física, mental ou espiritual?
 
E os dias festivos e sagrados são como o ponto alto desse calendário, reunindo todas as características nobres. Pensemos como no Natal famílias cristãs se reúnem ou como famílias muçulmanas jantam juntas no mês do Ramadã! O seu duplo propósito é relembrar as histórias que deram sentido ao seu senso de comunidade, e viver uma história que valha a pena recordar anos sem fim.
 
Nestes dias de março, milhares de pessoas no mundo celebram o ano novo. Uma pesquisa rápida a alguma lista de anos novos, encontra mais anos novos celebrados no mês de março que nos restantes meses do ano. Isso porque vários calendários resolveram celebrar este como um dia de muitas histórias!
 
Não à toa, que até há 200 anos muitos países europeus, cristãos, ainda celebravam o ano novo a 25 de março, o Dia da Anunciação, o dia no qual Gabriel se manifesta a Maria e lhe anuncia que ela será a mãe virgem de ninguém menos que o filho de Deus! Não à toa muitos hindus fundem a celebração de Durg?, a deusa da proteção, força e maternidade com o ano novo. Não à toa os hebreus comemoram no mês de Nissan, a primeira colheita do ano. Não à toa, a primeira religião monoteísta, aquela dos Magos que buscavam o salvador, o zoroastrianismo, chama este dia de Naw-Rúz, o novo dia! E a minha, uma religião independente (e diferente das que citei acima) e nem 200 anos tem, celebra esse mesmo dia! Este é o novo dia de oportunidades de vivermos novas histórias, mas sobretudo, guarda-las e recontá-las.
 
Uns vivemos mais aventuras e outros mais desventuras. Somos heróis das nossas histórias e talvez vilões de outras. Cada dia nos oferece a oportunidade de viver uma nova história, de contar uma nova história, de guardar uma nova história.
 
É difícil imaginarmos o ano novo não ser a 01 de janeiro, não é? Mas a verdade é que essa invenção não tem nem 500 anos direito. Na Inglaterra, há pouco mais de 200 anos janeiro se tornou o mês do ano novo. Na Arábia Saudita, isso aconteceu em 2016! Não é sobre o dia do ano novo, mas sobre a história que ele conta.
 
Nos textos bahá’ís, lemos que este dia é especial porque o Sol ilumina toda a Terra com a mesma intensidade. Simbolicamente, conta uma história que nos diz que todos recebemos as mesmas bençãos de Deus, igual! Todos recebemos a mesma luz. Mas isso não quer dizer que todos vivamos a mesma história.
 
O que nos leva a um convite. Como vivemos outras histórias que não as nossas? Como empatizamos com a dor do outro, ou celebramos a vitória do outro? Como contamos e vivemos a história que é do outro? Com amor, inveja, com companheirismo, rivalidade, com cuidado ou acusação…? E descobrimos aqui que não é apenas sobre a história que eu conto sozinho sobre mim e sobre o outro. É a história que contamos juntos sobre nós!
 
Por isso, o termo comunidade se faz importante! “COM”-UNIDADE! Comunidade não é uma massa na qual todos devem pensar igual, mas sobre pessoas que pensam diferente, sentem diferente e agem diferente, mas que se propõem ao diálogo, para encontrar sentido numa história que inclua a todos, apesar de suas diferenças.
 
Sem histórias não há momentos sagrados a celebrar, há apenas o consumo, a troca de presentes. Sem histórias, a vida não tem sentido. Mas só quando formos capazes de escutar a história do outro, poderemos verdadeiramente contar a nossa. Só quando acolhermos a história do outro, a nossa será acolhida. E, por isso, só quando sentarmos juntos, poderemos criar juntos a nossa história, e encontrar o verdadeiro sentido dessa vida: contribuir para que hoje seja melhor que ontem.
 
Naw-Rúz é o novo dia. É o dia perfeito para lembrarmos que nós podemos nos renovar, porque nós criamos as histórias de cada novo dia!
 
Então, eu pergunto: sabemos viver essa nova história?
Vivamos essa história!

Sam Cyrous é cidadão do mundo, psicólogo (09/8178), pesquisador para a obtenção de título de doutor da UnB e presidente da Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial (Ablae)
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por Sam Cyrous

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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