Do alto dos meus 60 anos, eu olho para trás e vejo o quanto nós, mulheres, já caminhamos rumo à igualdade social. Mas a jornada não acabou. Um quarto do século XXI já se passou e a pauta de gênero ainda é assunto de calorosas discussões, das rodas de conversa à debates públicos. Leis ainda precisam ser promulgadas para se garantir um comportamento que deveria ser natural entre pessoas, independente de sexo: o respeito.
Falando de atuação profissional, a mulher já representa 44% da força de trabalho formal no País e é maioria nos bancos da universidade e de pós-graduação. Mas, abaixo desta superfície, ou melhor, acima, nos cargos de alta gestão, o gap ainda é grande. As mulheres já estão presentes nos cargos de analistas, coordenação e média gestão, mas entre os tomadores de decisão, somos minoria.
Segundo o Panorama Mulheres 2023, estudo realizado por Insper e Talenses Group, as mulheres ocupam apenas 17% das presidências das empresas brasileiras, e somente 21% dos conselhos de administração têm presença feminina.
De uma forma velada, alguns comportamentos minam a performance feminina em reuniões de alta cúpula, que atualmente já foram identificados e ganharam até nomenclatura. Como ser interrompida diversas vezes, de forma com que ela não consiga concluir sua linha de raciocínio em uma conversa. Esta é uma prática batizada como manterrupting. Ou receber uma longa explicação de um homem de algo óbvio, menosprezando sua capacidade. É o que se chama de mansplaining. Ou precisar entregar uma boa ideia para que um gestor assumisse o protagonismo e, assim, tivesse a credibilidade necessária para ser executada. Acredite, isto acontece nos bastidores do mundo dos negócios.
No papel de gestora, a mulher com pulso firme é autoritária, enquanto o homem é interpretado como um líder nato. Movidas pelo desejo de empreender e desenvolver seu talento para a gestão, as que chegaram à alta gestão certamente colecionam enfrentamentos, com direito a lágrimas e horas de terapia necessárias para suportarem uma dura jornada.
Se pudesse dar um conselho à Tânia de 35 anos atrás, eu pediria que não sofresse tanto, que apenas acreditasse em sua capacidade. O fortalecimento de nossa autoestima e de nossa autoconfiança é o cerne da questão para ocuparmos os espaços que desejamos. No dia em que internalizei isto, não deixei mais que a dúvida em minha competência me afetasse. Eu simplesmente não me importei mais com qualquer desmerecimento que pudesse estar acontecendo em minha volta e continuei a seguir o meu caminho. Neste quesito, precisamos aprender a ser mais racionais com os homens.
Não cabe aqui estabelecer rivalidade em relação ao homem, de quem somos parceiras de vida. É preciso compreender também que essa excessiva confiança na figura masculina é fruto de uma herança cultural que não pretendeu, necessariamente, desmerecer a mulher, mas cuidar dela, preservá-la dos dissabores e agressividade do mundo dos negócios. Era assim que a humanidade pensava há 100 anos, não se tratava de um ato de crueldade. E dá para combater essa mentalidade com firmeza, mas sem perder a serenidade, desde que haja autoconfiança.
Somos nós as responsáveis pela mudança de cultura e ela virá, é uma questão de tempo. As mulheres vêm se destacando na área das pesquisas acadêmicas, nas empresas estão quebrando paradigmas e trazendo resultados ao mercado. Estamos criando uma nova mentalidade em nossas famílias, por meio da educação de nossos filhos, sem reproduzir comportamentos misóginos. O equilíbrio virá. Basta acreditarmos em nós mesmas.
*Tânia Soares é empresária e integrante do Conselho de Administração do Grupo Soares.
Conselhos que daria para mim aos 25 anos
*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG