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O impossível não pode parar

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24.11.2023 - 09:46:39

O que define o tempo são os símbolos, as marcas. Seremos lembrados por nossa passagem na Terra, daqui séculos, pela Covid. No presente século, por nossa capacidade de remediar conflitos maiores, mas não mitigar regionais – Ucrânia, Israel e Palestina, como exemplo. No quarto do século, o símbolo é o uso das máscaras, da vacina e como nos comportamos pós-Covid. Como nos relacionamos? Como “superamos” tantas perdas? Como nos equilibramos mentalmente para enfrentar mais o desconhecido e com a possibilidade de mais perdas?
 
No Universo de incertezas, a ansiedade avança, a depressão assola e o câncer amedronta. O pior, o radicalismo político aflora de tal forma que a visão, de muitos, turva. É tanta a paixão por acreditar em algo, seja a desfaçatez da canhota ou as propostas inexequíveis da dura direita, que mais lembra a dita tão dura.
 
Para ilustrar. Na rua em que moro, uma boca de lobo se perdeu na primeira chuva forte deste fim de ano. Colocaram cones, atropelaram. Colocaram sacos de lixo, atropelaram. Uma jovem quebrou um galho da árvore mais próxima para sinalizar aquele buracão no meio de uma tempestade. Um senhor de idade acompanhado por uma enfermeira, que carregava seu guarda-chuva, bradou à moça por quebrar o galho. Estamos tão envoltos aos nossos pensamentos que reagimos efetivamente no egoísmo, no narcisismo.
 
O que nos marca? Os fatos inusitados, as surpresas, o inédito. Quem imaginou que um time de futebol, formado pela classe trabalhadora de Goiânia, teria a chance de ser grande na memória das pessoas não interessadas? A paixão por clube de futebol – não esses de empresa que alteram estatuto com aplausos de funcionários para ter seus donos no comando – estou falando de junção de pessoas não identificadas financeiramente que objetivam o impossível para ter algum sentido à vida social. Algo que não se explica de maneira racional.
 
Todas as construções ocidentais deste século passaram pela dura mão do Estado, pela sua benevolência e, pela paixão da religião em uma justificativa para estarmos aqui neste espaço-tempo. Ou seja, com o time da Vila Famosa a história não foi diferente. A reunião de um oficial militar, a primeira-dama do construtor de Goiânia e o padre da paróquia da vila operária idealizaram e fundaram um time de futebol para opor o chapa-branca e, o da Campininha. A empresa do grupo abastado não existia para o futebol até a metade da década de sessenta – seu primeiro título regional.
 
O que nos marca então no presente quarto de século da pós-Covid? O sonho ainda pulsa. O impossível pode ser realizado. A fórmula do sucesso é um engodo, e a promessa do destino é uma aberração. O que temos efetivamente como promessa é o esforço, o estudo, a dedicação e o trabalho. Mas também o mágico. Como é bom o efeito do improvável em toda comunidade de uma cidade que pulsa ao resultado do futebol. Como é impactante ver a incredulidade do adversário, a gana do menino, o sonho realizado do velho, a satisfação do adulto.
 
Viver um sonho é um privilégio que nunca devemos diminuir. Seja ele qual for. E o futebol permite viver os sonhos mais belos, pois é comunitário, é sociável, é conjunto. Não é a resposta de um ego inflamado, não é fruto de um egoísmo narcisista. Ver um time de vila operária disputar um apogeu é viver um sonho coletivo. E, como diria Seixas, o Raul: “?Sonho que se sonha só. É só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”.
 
Como é alcançar este sonho? Sei lá, não me acorde.
 
Kowalsky do Carmo Costa Ribeiro, advogado, Procurador-Geral da Câmara Municipal de Goiânia

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por Kowalsky Do Carmo Costa Ribeiro

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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