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Gentileza gera…espanto!

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10.12.2012 - 12:44:19
Goiânia – Chego repleta de compras da rua e quase morro de susto ao perceber que alguém se aproxima por trás e puxa meus pacotes. Pensei ser vítima de um assalto, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que fui alvo da gentileza do vizinho. Vendo meu aperto, ele apressou-se em me ajudar com a infinidade de coisas que eu trazia. 
 
Alguns dias antes, no supermercado, eu aguardava na fila do caixa com o carrinho lotado, quando uma moça parou atrás de mim com um pacote de maçãs. Quando disse que poderia passar na minha frente, ela custou a acreditar. Ficou me olhando como se visse um E.T, até que entendeu a gentileza e agradeceu, sorridente. 
 
Na mesma semana, o condutor que saía da garagem aguardava uma alma boa que lhe deixasse entrar na via. Uma senhora, então, segurou o trânsito e permitiu sua passagem. O homem levou quase um minuto para acreditar que alguém perdera um pouco do próprio tempo para favorecê-lo, e só entendeu com as buzinas enfurecidas.
 
Tristes tempos estes em que gestos de gentileza nos causam espanto. Estamos tão acostumados à grosseria alheia, que quando alguém quebra a regra do “salve-se quem puder” nos deixa de queixo caído. Custamos a crer no que vemos e ficamos até desconfiados, achando que pode ser pegadinha.
 
A falta de gentileza começa conosco mesmo. Sempre que cometemos um erro, por menor que seja, não hesitamos em nos chamar de burros, imbecis. Se estamos sozinhos, somos incapazes de comer uma comida decente e engolimos qualquer gororoba, pois achamos que não valemos o esforço.
 
É preciso que alguém com espírito gentil nos mostre que nossas falhas não são tão graves, que errar é humano, e que merecemos, sim, mimos para deixar a vida mais leve e divertida. Alguém que nos mostre que vale a pena exercitarmos um olhar mais amoroso e compreensivo em relação a nós mesmos.
 
Nos relacionamentos estamos habituados a não receber retornos de ligações, a ouvir gritos, suportar ataques de irritação e palavras duras. Ironicamente, quanto maior a convivência e o laço de afeto, menor a cerimônia em ser agressivo e impaciente com o outro, em mostrar a ele o que temos pior a todo instante. 
 
Em tempos de doses cavalares de individualismo e estupidez, tive bem recentemente uma demonstração do quanto um pequeno gesto de gentileza pode ser transformador. Foi por meio de uma amiga que trabalha numa empresa que emprega dezenas de jovens aprendizes, vindos de famílias bastante carentes.
 
Um dia, ao ver que o adolescente que trabalhava na sala dela ficou com o olho comprido para o bolo que ela havia trazido para o lanche, minha amiga partiu o pedaço em dois e deu a outra metade a ele. O moço ficou tão feliz, que a partir de então ela passou a trazer de casa o lanche sempre em dose dupla.
 
A colega de trabalho, incentivada pelo gesto, também resolveu dobrar o lanche para dar uma parte à outra jovem aprendiz do departamento. Um tempo depois, elas decidiram fazer uma vaquinha com todos os colaboradores para promover, uma vez por semana, um lanche coletivo para os adolescentes.
 
A ideia deu tão certo que o lanche coletivo agora acontece diariamente, no final da tarde. Agradecido pela iniciativa, pois na maioria das vezes fazia apenas uma única refeição por dia, um dos jovens aprendizes trouxe panos de prato bordados pela mãe de presente para as colaboradoras.
 
Impressionadas com o capricho e o talento da bordadeira, elas começaram a encomendar roupas e toalhas à mãe do rapaz, que hoje tem o dobro do faturamento graças aos pedidos das colegas do filho. E de pensar que tudo começou um pedaço de bolo… Prova de que, além de espanto, gentileza também gera gentileza.  
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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