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Quando a espiritualidade é a base para a recuperação de detentos

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05.12.2012 - 23:58:16

Mônica Parreira
 
Goiânia –
 "Sabe, às vezes nem me lembro do que aconteceu. Enquanto eu estava lá dentro, o sofrimento era constante e pensava que nunca mais ia sair da minha cabeça. Mas aí quando você ganha a liberdade e vive a vida aqui fora, acaba passando por cima". Esse é um breve relato que Nathália (nome fictício) faz quando relembra o passado. 

Presa em 1999 por participar do sequestro de Wellington Camargo, irmão da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano, a comerciante teve a vida transformada nos corredores da Penitenciária Feminina Consuelo Nasser, em Aparecida de Goiânia, onde cumpriu pena até 2006. "A palavra de Deus me ajuda a superar as situações difíceis da vida até hoje", pontua a ex-detenta, que se converteu quando estava reclusa.

Nathália tinha apenas 19 anos quando viu a liberdade escapar por entre os dedos. "Eu não era inocente. Todo mundo faz escolhas, e se não forem boas tem que pagar por elas", admite.

Sua condenação era de 18 anos. Mas, na primeira semana que chegou ao presídio, a jovem fez escolhas que mudaram o ciclo de sua pena. "Quando me vi naquela situação difícil, já quis participar dos cultos que tinham lá. Um ano e meio depois eu me batizei, e nunca mais deixei de seguir a Deus", argumenta.

 


Pastor Paulo Oliveira orando por Nathália quando ainda estava presa, em 2005.
(Foto: arquivo pessoal)

"As pessoas da minha época que levaram a sério, se você for procurar elas hoje, elas estão bem. Bem que eu falo é longe da criminalidade, trabalhando, fazendo sua vida e continuam na presença de Deus. As pessoas que iam esporadicamente continuam a mesma coisa, até voltaram para o presídio ou já estão mortas. Então é assim que acontece. Quem aceita a Deus de verdade, com certeza mudou de vida", pontua.
 
Em um lugar cuja característica comum entre as pessoas foi a violação da lei dos homens, uma das propostas de mudança é fazer valer os mandamentos de Deus. A troca não reduz a pena nem muda o passado, mas pode, à exemplo de Nathália, transformar o futuro. Esta é a realidade de pelo menos 15% dos detentos nos presídios goianos. Eles substituem o tempo ocioso nas celas pelo exercício da espiritualidade.

Direito constitucional
O culto à fé, para muitos detentos, tem se mostrado uma via de mão dupla. Dentre todas as ações fornecidas pela Agência Goiana do Sistema de Execução Penal (Agsep) – como cursos profissionalizantes, educativos e culturais -, a espiritualidade rompe as barreiras do cárcere, oferecendo ao detento um contato direto e constante com a sociedade, e vice-versa. 

A liberdade religiosa é assunto inquestionável no complexo prisional goiano. Ali, a fé é respeitada independente da religião, crença ou doutrina. Tal direito é garantido pela Constituição Federal que, no incisivo VII do artigo 5°, assegura a prestação de assistência religiosa em regimes fechados, como é o caso de presídios.
 
O presidente da Agsep Edemundo Dias alega que, ainda sustentado nos pilates da lei, a participação do detento é um ato espontâneo. “O país é um Estado laico, mas não antirreligioso, e o trabalho é feito sem defesa de bandeira doutrinária. Nós recepcionamos todos os voluntários e todas as doutrinas religiosas, porque todas elas contribuem, seja católica, espírita ou evangélica. Nós acreditamos muito na recuperação das pessoas, inclusive no poder que Deus tem sobre elas. Falo isso sem qualquer constrangimento, falo abertamente", defende.

Para Edemundo Dias, atividades espirituais trazem paz ao complexo prisional (Foto: Randes Filho)

 
De acordo com o coordenador de voluntariado, pastor Edson Martins Vieira, o trabalho é feito por equipes voluntárias, podendo ser realizado todos os dias, com exceção às quintas e domingos. O horário livre para as atividades é das 9h às 17h. "Fazemos questão de cumprir a lei não só pela obrigação, mas também por saber que esta é a melhor forma do preso ter liberdade de optar por qualquer religião. Além disso, todas as alas possuem cultos diários feitos pelos próprios presos", garante.
 

 
Participação e eficácia
Ainda que geralmente não manifestado, o sentimento de culpa acompanha a rotina daqueles que, por motivos diversos, tiveram a liberdade interrompida. É necessariamente sob esse viés que o exercício da fé pode levar a uma mudança de vida. "Normalmente quando a pessoa está presa, ela fica carente, fica muito suscetível a uma palavra de amor. Então, como a religião traz essa esperança, isso pacifica o sistema prisional", explica Edemundo Dias.
 
A polêmica que gira em torno do poder de transformação proposto pela espiritualidade é defendido pela advogada e mestre em ciências da religião Ana Pinheiro, que confirma a eficácia do trabalho. "Já é comprovado cientificamente que o desenvolvimento da espiritualidade ajuda sim no processo de reinscerção de qualquer pessoa na convivência social. Isso serve tanto para o presidiário quanto para qualquer ser humano. Esse processo pode ser feito a partir do momento que o preso consegue se abrir aos valores característicos da espiritualidade, que são o respeito, solidariedade e amor próprio. Essas questões vão ajudá-lo a crescer enquanto um ser social", esclarece a advogada.

Mais que levar mensagens de paz e otimismo, os grupos voluntários trabalham com atividades complementares, como shows musicais. Também realizam batismos e fazem assistência às famílias dos reeducandos. "É muito bonito ver como eles são solidários. As pessoas procuram os familiares dos detentos e prestam serviço a eles, como doação de cestas básicas e visitas", conta o pastor Edson.
 


"Uma vez um bispo me perguntou 'Pastor Edson, você acredita mesmo na mudança de vida desses presos?'. Respondi 'é claro, pois eu sou fruto desse tipo de trabalho'". Quando foi condenado em 1982 nos Estados Unidos por tráfico de drogas, a última coisa que Edson imaginou é que passaria décadas na prisão, mesmo depois de cumprir sua pena. Aos 22 anos, ele se converteu nas celas de um presídio da Flórida por influência de um trabalho evangelístico. "Um dia na cadeia parece uma eternidade. Fiquei preso 25 meses e queria distância daquilo. Mas quando voltei para Goiânia, lá estava eu dando testemunho no Cepaigo".
 
Testemunho pessoal do Pastor Edson serve de inspiração aos reeducandos (Foto: Randes Nunes)

Foi uma questão de tempo até que o ex-detento se envolvesse completamente na causa. Há 11 anos, o pastor Edson dirige com excelência o cargo comissionado que o presidente Edemundo Dias lhe confiou. O próprio testemunho somou motivos de sobra para dedicar a vida à coordenação dos trabalhos voluntários.
 
"O índice que foi feito na época que eu estava preso nos Estados Unidos era que, de 100 pessoas que não frequentam qualquer trabalho religioso, 80 retornam à reincidência do crime. Pelo que acompanho aqui, os números são equivalentes. Com certeza absoluta o preso que se envolve com a religiosidade começa a olhar mais para Deus, buscando conhecê-lo. Ele começa a estudar a Bíblia, e é impossível que não haja modificação positiva na vida dele".

 

Atalho à liberdade

Nathália defende o princípio bíblico de que a fé sem obras é morta. Mais que a prática religiosa, ela investiu o tempo que esteve presa em aprendizagem. Isso lhe trouxe dois benefícios: conhecimento e redução de pena. "Terminei o segundo grau, fiz um ano e meio de inglês, curso de capacitação para professora e até de informática, que era um privilégio na época. Tudo que eu fiz lá dentro me acrescentou aqui fora, tanto que já saí empregada e até hoje nunca me faltou um emprego", conta a ex-detenta que atualmente é casada, tem um filho e ajuda no sustento da casa.
 
Se antes a condenação era de 18 anos, o que pelas contas a levaria à liberdade somente em 2017, a boa conduta e os serviços prestados fizeram com que a dívida com a sociedade fosse diminuída para 7 anos. Três dias trabalhados equivalem a um dia de redução na sentença inicial.
 
"Eu acredito que, se a pessoa tem fé, o lado religioso é suficiente para formação do caráter. Mas o ideal mesmo é a união das duas coisas. Primeiro, na minha opinião, tem que ter essa base religiosa para acontecer uma transformação e renovação da mente. Depois o lado de construção, de serviço. Só se envolvendo essa pessoa vai sair de lá preparada para ser bem recebida pela sociedade aqui fora", finaliza Nathália.
 

A atual população carcerária do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia gira em torno de 3.450, variando para mais ou para menos diariamente. Cerca de 45% dos reeducandos se envolvem em atividades culturais, educativas ou profissionalizantes, mas este número deve aumentar nos próximos anos. Segundo Edemundo Dias, a construção de um polo industrial com 21 galpões vai gerar 4 mil vagas de emprego dentro do complexo. "Esse polo vai ser a grande diferença do sistema prisional goiano. Será o maior polo industrial de obra carcerária do Brasil. Nossa expectativa é que ele funcione a patir de julho de 2013".

 

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por Mônica Parreira

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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