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Goiânia 90 anos: A cidade na contraluz

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17.10.2023 - 08:20:21

Andei pensando sobre a cidade onde envelheço. Fi-lo não porque qui-lo como um propósito estabelecido, mas como uma consequência natural do ato de andar. É que há algumas semanas, retomei (pela centésima vez) a rotina de caminhadas diárias no Parque Vaca Brava. Gosto de caminhar só, sem relógio, sem celular, levando apenas um documento e um cartão pra comprar água de coco. Essas peregrinações despojadas têm me induzido a pensar sobre a cidade que ora também envelhece. 
 
Digo isso porque estamos em outubro, mês em que Goiânia completará 90 anos. Outro dia, estava me lembrando de quando nos conhecemos. Isso foi em 1983, eu tinha 17 e ela, 50. Na época, tive o desafio de fazer uma redação sobre o cinquentenário da cidade aonde acabara de chegar. Hoje, após 40 anos de convivência, escrever sobre a aniversariante continua difícil, mas pelo menos assuntos não faltam. Vamos ver o que sai dessas matutações. 
 
Iniciemos pela de ontem, no meu novo way of life. Mal comecei a deambulação, o aeróbico teve que ceder ao poético: é que um sabiá-barranco se apresentava na palmeira jerivá e fui obrigado a parar pra ouvir o concerto. Reiniciando a marcha, reparei que estava dentro de um mosaico. À direita, os automóveis, a urbe nervosa; à esquerda, o lago, o verde e os edifícios do entorno, ao fundo o outdoor com a Hariany de biquíni. Uma sinfonia de cigarras, sabiás e curicacas se somava a frases voantes, de erres retroflexos. Os transeuntes, os mais variados: alguns velhinhos lentos, outros lépidos, rapazes espadaúdos, beldades de top, balzaquianas charmosas arrastando cachorrinhos. Era um dia normal em Goiânia. 
 
Depois de me esfalfar em seis movimentos circulares e desuniformes, veio a recompensa, a bolacha pro cachorro de circo: sentar-me numa cadeira de macarrão, resfolegar e embriagar-me com água de coco. A cidade se mostrava acolhedora. Assumi que gostava de viver aqui. Sentia-me seguro e à vontade, como se estivesse no meu quintal, debaixo de um pé de manga, ouvindo conversas amigáveis. A metrópole ainda não perdera sua essência roceira, interiorana, o que me acalentava e me dava uma sensação de pertencimento. 
 
Hidratado e refeito, tomei o rumo de casa, ainda envolto em lucubrações: quantas cidades coexistiam nessa Goiânia nonagenária? Muitas. A minha era a dos burgueses bem-alimentados que se dão ao luxo de fazer caminhada às 5 da tarde num parque de área nobre. Há patamares mais altos e mais baixos. Existe a Goiânia rainha rica, a meca agro-pop-sertaneja, a campeã de vendas da Louis Vuitton e onde existe fila pra se comprar um Porsche. A cidade dos condomínios de luxo e dos rooftops. E existe a Goiânia súdita pobre, feia, maltrapilha, faminta, viciada em crack, violenta, proletária, onde existe fila pra se subir em ônibus lotados. A cidade dos barracos e do feijão-com-arroz requentado.
 
Não precisei ir longe pra me encontrar com a última. Na calçada da farmácia, uma mulher de não mais que 30 anos amamentava um bebê enquanto vigiava outros dois menininhos enfarruscados que brincavam, em volta dela, com pedaços de lixo. “Compra um leite em pó pro meu filho, moço. Meu leite tá secando”. Entreguei-lhe o alimento — oferta infinitamente pequena — e pensei nas outras tantas vidas secas que sobrevivem nessa pólis plural, vidas invisíveis das ruas, dos becos, dos casebres à beira dos córregos. Pra essas é mais difícil sentir a segurança e o acalento a que me referi há pouco.  
 
Finalizo o papo com a matutação estática. Faço-a da minha sacada, mirante donde vejo a cidade em contraluz, seus esboços, seus tons claros e escuros. Vasta, profunda, desigual. Daqui a alguns dias teremos uma comemoração de aniversário e um bolo com 90 velinhas. Seria maravilhoso se aquela família que vi sob a marquise participasse da festa e os meninos recebessem uma generosa fatia do bolo, mas eles não serão convidados. Eles nunca são.    
 
*Luciano Alberto de Castro é escritor e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).
 
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por Luciano Alberto De Castro

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