Logo

Como seria o mundo sem a Amazônia?

20.09.2023 - 10:52:00
WhatsAppFacebookLinkedInX

Como seria o mundo sem a Amazônia? Seria um mundo mais quente e seco: somente no Brasil, a temperatura subiria 0,25° e haveria 25% menos chuvas, segundo uma estimativa feita em 2019 pelos pesquisadores brasileiros Adalberto Veríssimo, Tasso Azevedo e João Biehl, e o americano Stephen Pacala, um dos maiores especialistas mundiais em mudanças climáticas.
 
O fim da floresta parece algo distante, mas não será se continuarmos na mesma toada. Segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o desmatamento no primeiro semestre de 2023 foi 60% menor do que no mesmo período do ano passado, mas a área destruída (1.903 km2) é a sexta maior desde 2008 – e equivale a mais de mil campos de futebol desmatados por dia.
 
O problema, porém, vai muito além do bioma. A Amazônia também é casa de uma enorme diversidade de pessoas, histórias e contextos, que, em comum, são marcados por uma imensa desigualdade. É o que apontam dados organizados pela rede Uma Concertação Pela Amazônia sobre a  Amazônia Legal – território que compreende os 7 estados da região Norte, além do Mato Grosso, no Centro-Oeste, e parte do Maranhão, no Nordeste.
 
Enquanto o percentual de pessoas em situação de pobreza registradas em 2021 na Amazônia Legal é 45%, no restante do Brasil é 26,9%, segundo o IBGE. Nesse mesmo ano, a renda domiciliar per capita foi R$868, na região, e R$1.431, nos demais estados brasileiros. Informações do DataSUS apontam que a mortalidade infantil em 2021 na Amazônia Legal foi 14,4 para cada mil nascidos vivos – acima da média no resto do país, de 11,4. Já o Ideb, aferido pelo Inep, foi 3,4 no Ensino Médio dos estados da região, em 2021, frente a 4,1 no Brasil; e o percentual de jovens de 25 a 29 anos com Ensino Superior completo 22,5, e 14,5%, respectivamente.
 
 Se, por um lado, a redução do desmatamento tem relação com políticas públicas voltadas à conservação da floresta, por outro essas mesmas políticas não têm sido capazes de, sozinhas, promover desenvolvimento sustentável que garanta floresta em pé e melhores condições de vida para todos que vivem na Amazônia.
 
 Lidar com tantos desafios demanda medidas estruturais, e a Educação é uma das principais delas. Um caminho promissor é promover o desenvolvimento integral dos jovens – em suas dimensões cognitiva, social, emocional, cultural etc. – para que possam fazer escolhas conscientes sobre sua vida e a participação que querem ter no meio em que vivem. Indivíduos que hoje estão no Ensino Médio e já são agentes de transformação. Indivíduos que, amanhã, ocuparão os espaços do mundo acadêmico, do trabalho e de lideranças econômicas, políticas, sociais e culturais. Cidadãos que vão atuar pela continuidade de políticas públicas e ações concretas de promoção do desenvolvimento sustentável.
 
 Nesse sentido, conhecer todas as Amazônias, suas histórias, desafios e potencialidades pela voz de quem vive no território é fundamental para que os estudantes possam se conectar com esse conhecimento e transformá-lo em consciência cidadã, agindo para transformar o mundo.
 
 É isso que se pretende com o Programa Itinerários Amazônicos, realização conjunta do Instituto iungo, do Instituto Reúna e da iniciativa Uma Concertação pela Amazônia, em parceria e com investimentos do BNDES, Fundo de Sustentabilidade Hydro, Instituto Arapyaú, Movimento Bem Maior e patrocínio da Vale.
 
 A iniciativa tem como objetivo promover a Amazônia – em sua complexidade ambiental, social, histórica, cultural e econômica – nos currículos de Ensino Médio. Ele consiste em ofertar às redes de ensino materiais pedagógicos e formação docente para que os jovens do Ensino Médio possam aprender, em profundidade, sobre mudanças climáticas, questões sociais, culturais e econômicas da região e os valores tradicionais dos povos da região favoráveis à conservação da floresta. Para isso, alia temáticas que refletem a vida em território amazônico às competências previstas na legislação de serem desenvolvidas pelos alunos em Matemática, Linguagens, Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Projetos de Vida e Educação Profissional e Técnica.
 
 Como não poderia deixar de ser, o programa foi feito com a participação ativa de pessoas que conhecem profundamente todas as Amazônias do Brasil: mais de 120 educadores, técnicos de secretarias de educação, lideranças e jovens amazônicos, além de especialistas de todo Brasil. Ele oferece um material que é, ao mesmo tempo, aprofundado e flexível, pois permite que as redes de ensino o incorporem da forma que for mais adequada à sua realidade educacional, respeitando a autonomia e particularidades de cada estado. E também promove a formação continuada para professores e gestores das escolas públicas da região, por meio de parceria com as redes de ensino estaduais do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Roraima e Tocantins.
 
 Formação docente para discutir em profundidade a Amazônia nas salas de aula é essencial para ampliar o conhecimento dos estudantes. Reforçar a Amazônia nos currículos é necessário pois pensar seu desenvolvimento sustentável é papel de todos. Mas ela não é responsabilidade apenas dos governos.
 
 Diante do alerta da ONU para o risco do não cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, a parceria entre governos e sociedade civil é apontada como essencial para alavancar as ações rumo a essas metas nos próximos 7 anos.
 
 São vários os ODS que se relacionam diretamente com o desenvolvimento sustentável da Amazônia: combater a mudança climática; proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres; garantir água potável para todos; erradicar a fome e promover a agricultura sustentável. A Educação de qualidade é um objetivo essencial para avançarmos em direção às metas e nos mantermos na rota de cuidar da vida terrestre.
 
 Mesmo que o cumprimento integral dos ODS seja pouco provável no prazo definido pelas Nações Unidas, e ainda que o desmatamento irreversível de partes da Amazônia não tenha sido completamente evitado, agir para alcançar o máximo de resultados é fundamental para evitarmos uma catástrofe ambiental e social. Promover uma educação capaz de possibilitar que os jovens do Ensino Médio de todo o Brasil conheçam e ajam a favor da Amazônia é cuidar do planeta.
 
*Eduardo Fischer é CEO da MRV&CO, presidente do Instituto MRV e líder de impacto pelo Pacto Global da ONU Brasil

*Paulo Andrade é presidente do Instituto iungo.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Eduardo Fischer E Paulo Andrade

*

Postagens Relacionadas
Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]