Tenho sobre a mesa o livro “Atirador de facas[1]” que venho lendo e relendo com interesse crescente. Embora note que estou diante de um belo livro desigual, confirmo que estou diante de um ficcionista consciente de sua arte literária. Não é apenas pelo enorme saber ler e reinterpretar que o autor convence o leitor atento.

A personalidade do contista aqui faz com maestria o elo entre ciência e ficção (o autor é físico e escritor), criando liames entre a vida e sua interpretação nos remete à ideia de que a literatura, mesmo em seu gênero mais compacto (o conto) é ainda “a mãe das coincidências”. Embora o autor responda com um sonoro “Não!” à pergunta sobre esta mãe e a renovação literária: “A mãe das coincidências rende literatura. O conceito, nesse caso, tem a finalidade criativa de ser personagem no texto” – afirma Solemar Oliveira.
Aberto com a dedicatória à mãe, “Atirador de facas” contém o germe de pelo menos dois livros de contos. São doze seções, totalizando entre narrativas e explanações mais de 140 textos curtos ou mínimos (hoje intitulados minicontos), tendo sido um deles publicado em duplicata (Um hotel no fim do mundo).
No entanto, nem isso, nem o excesso de vírgulas em algumas peças, impedem que o leitor bem aproveite a leitura e se ponha frente ao atirador de facas, pois se sente seguro de que não será atingido letalmente. O Autor disse a este analista surpreso com o título inusitado (e a ilustração de capa – assinada pelo autor e por Rafael Marques) que a operação não é desprovida de risco, porque segundo ele, “o atirador de facas tem uma região (área) muito restrita para atirar e apenas uma pessoa corre o risco de ser atingida. O escritor, em tese, pode causar mais estrago”. Que o benévolo leitor deste comentário (resenha) se ponha em segurança diante deste “Atirador de facas”.
Alguns insights que surgem à medida que recebemos os golpes:
“O tempo é em si só um enigma, é o incansável orquestrador do produto de toda a criação”. (p.20)
“O tempo quase sempre explora a longevidade dos desejos efêmeros” (p.30)
Da seção “Curta-metragem”, destaco este dístico poético que atingiu em cheio o coração este velho escriba: “L´amour – A misteriosa liberdade é uma coisa sinuosa. Perpetua-se da frequência equilibrada do amor.” (p.55)
E ainda este outro, que é uma retomada inteligente do velho chiste dos clássicos e modernos: “Tsuru – Imagine se sushis dessem em árvores. Teríamos que colhê-los com hashis”
Seguindo em frente, o leitor encontrará no uso de onomatopeias referências às histórias em quadrinhos e poderá esbarrar em exercício meio juvenil, mas bem próprio da geração do narrador (ele nasceu em 1974), que é além de leitor voraz, consumidor de filmes e HQs.
A metáfora quântica por excelência está em “Para Bohr” (p.60) – “Um gato que salta de muro em muro. Uns mais altos, outros mais baixos. Normal! Óbvio como um cão que persegue carros. Mas o que é? Uma metáfora quântica.”
Pode ser útil ao leitor, a resposta que o autor deu a este analista: “em Física, a palavra quântica está associada com o termo pacote, ou porções. Ou algo que se possa contar. Quantidades discretas. Nesse sentido, isso rende metáforas divertidas, que se associam à vida e/ou ao modo de viver. São uma minimização do universo em que vivemos. Assim como são os minicontos: mínimos pacotes de literatura.”
Cabe recordar ainda, mesmo aos mais experientes, que na teoria formulada por Niels Bohr os elétrons saltam de uma a outra órbita e produzem luz. É o que faz Solemar Oliveira em diversos momentos deste “Atirador de facas”.
Em “Os profetas” (p.63/4), o narrador recorda uma visita a Congonhas e a procissão dos peregrinos, dos devotos que ele intitula cegos e, assim mesmo, há uma certa nostalgia do eterno, porque ele, narrador, está a um passo da epifania, mas se nega a cruzar o limiar entre a realidade e a transcendência, embora “saudoso desse tempo” admita seguir no escuro, mas se nega (como agnóstico que é) dialogar com o sagrado – “Eu nunca pedi uma palavra”.
O conto “Um hotel no fim do mundo” (Para Glanton) está duplicado – p. 65/6 e 67/8, onde aparece com o subtítulo “Ao estilo de McCarthy”, emulando o estilo do recém falecido e talentoso narrador norte-americano Cormac McCarthy (1933-2023). É convincente.
A seção “Crônicas Karamazovianas” é uma das melhores partes do livro. Composta de nove textos, contendo referências explícitas à obra de Fiodor Dostoiévski, autor que Solemar Oliveira conhece bem e do qual mostra-se intérprete diferenciado. No preâmbulo aos oito contos, Solemar justifica sua escolha pelo guia dessas narrativas, afirmando:
“É possível uma fusão entre a dimensão avaliativa da obra e a capacidade cínica do estilo literário contemplativo, analítico e direto – a crônica, para rever os comportamentos atuais com drama e humor. E, talvez, possamos iluminar a face de, no mínimo, um arremedo do homem de Diógenes de Sinope – o filósofo grego fundador da escola cínica e conhecido pela famosa frase: “procuro um homem”, usada para justificar sua caminhada durante o dia com uma lanterna acesa – como destaca Oliveira no seu preâmbulo.
Em “Estrangeiro”, Solemar saca esse verso em prosa: – “Às vezes pousavam sobre mim instâncias” (p.180), o que de pronto faz o leitor pensar em provável referência a Albert Camus, mas escrita em prosa poética nos desvia para o mais íntimo do Autor (narrador), embora instância aqui não se refira à estrutura do verso e sim a um estado de alma, donde se conclui ser outro o estrangeiro que ali tão liricamente se expressa. Belo conto este.
Mas é mesmo na seção “Depois de antes” em que se encontro o ápice de uma escrita madura e que não faz concessões – uma das mais belas páginas de narrativa escritas em Goiás neste ano 2023. Dali destaco a primorosa narrativa “A casa” (p.119), que lida no intervalo de estudo que faço do filósofo sul-coreano Byun-Chul Han (O desaparecimento dos rituais. Uma topologia do presente[2]) deu-me a alegria de comparar as reflexões filosóficas com a imaginação ficcional de Solemar Oliveira.
“A percepção simbólica, na condição de reconhecimento, percebe o permanente no fugaz [Gadamer, 1977]. O mundo é, desse modo, liberado de sua contingência e ganha algo permanente. O mundo hoje está muito desprovido de simbólico. Dados e informações não possuem força simbólica. Assim, não admite reconhecimento. No vazio simbólico, todas as imagens e metáforas provocam sentido e comunidade e que estabilizam a vida têm se perdido. A experiência da duração vem diminuindo. E a contingência aumenta radicalmente.
Rituais podem ser definidos como 'técnicas simbólicas de encasamento'. Transformaram o estar-no-mundo em um estar-em-casa. Fazem do mundo um local confiável. São no tempo o que uma habitação é no espaço. Fazem o tempo se tornar habitável. Sim, fazem-no viável como uma casa. Ordenam o tempo, mobíliam-no. Em seu romance Cidadela, Antoine Saint-Exupéry descreve os rituais como técnicas temporais de encasamento: “e os ritos são no tempo o que o lar é no espaço. Pois é bom quando o tempo que passa não nos pareça algo que nos gasta e destrói, como a um punhado de areia, mas como algo que nos realiza. É bom que o tempo seja uma construção…”
É bom que o benévolo leitor se deleite com a íntegra do conto “A Casa”, do qual destaco a página 119, com a qual encerro estas minhas considerações, pois creio que se concentrar em ler apenas este conto de uma série notável de ficções (quase borgeanas, diria o analista), já lhe valerá todo o livro:
“Dentre todos os meus melhores objetos, o que mais estimo é a casa. A casa cresce e diminui, alonga-se e comporta. Super geométrica. Nela, cabe o mundo. Nela, cabe um coração, o artefato mais desproporcional que existe. A casa é meu objeto preferido! E, por gostar tanto, carrego a casa no bolso do meu paletó, protegida, segura. Abrigada do mesmo mundo que abarca. Porque a casa cabe no meu pequeno esconderijo, sinto-me orgulhoso da inversão que proporciono. A casa que está guardada é uma boneca russa, surreal. Está na minha algibeira, que cobre meu coração, que reside na casa, que está guardada no bolso de outro e que tem seu coração numa casa. A casa é uma potência, a casa é uma espiral. É meu objetivo preferido”
*Adalberto de Queiroz é jornalista e poeta, membro da AGL e da AGnL em Goiânia.