Logo

O amargo preço da violência no Brasil

WhatsAppFacebookLinkedInX
19.08.2023 - 17:25:45

Em meio às agendas da reforma tributária, neoindustrialização, da necessária modernização da gestão pública e do equilíbrio fiscal, fundamentais para a retomada mais robusta do crescimento econômico, há outra prioridade a ser encarada de frente pelo Brasil: o combate à criminalidade e à violência, problema crônico e grave, que intimida e dissemina o medo em nossa sociedade. As estatísticas seguem preocupantes e cada vez mais incongruentes com nossos propósitos de modernização e desenvolvimento.
 
Em 2022, segundo números divulgados em 2023 pelo Monitor da Violência, uma parceria do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, do Núcleo de Estudos da Violência e G1, o País teve 40,8 mil óbitos causados pelos crimes de homicídio, latrocínio e lesões corporais. Houve uma pequena redução de 0,9% em relação a 2021, mas o número segue absurdo e gravíssimo, pois estamos falando de vidas humanas. É muito triste constatar que esses fatores estão entre as principais causas da morte de jovens entre 18 e 24 anos, do sexo masculino. Além de uma consequência demográfica em médio e longo prazos, a alta taxa de assassinatos nessa faixa etária tem consequências econômicas, pois atinge parcela da força produtiva.
 
Em paralelo à violência desmedida, que destrói famílias e abala a saúde e a psique de milhares de pessoas, o Brasil perdeu, em 2022, R? 410 bilhões em decorrência do mercado ilegal. Tais crimes prejudicam muito numerosos setores da indústria e do varejo. O número, também divulgado em março último, é do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a ilegalidade (FNCP).
 
Além da irreparável perda de vidas e dos danos morais, de saúde e relativos à sedimentação de uma cultura de violência desde a juventude, a criminalidade, em todas as suas vertentes, atrasa muito a trilha do desenvolvimento nacional, afetando a segurança física e patrimonial. Somada à insegurança jurídica, instabilidade, baixa eficácia da regulação e excesso de burocracia, constitui um dos principais fatores do “Custo Brasil”, de R? 1,7 trilhão a mais por ano em relação à média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Esses ônus, que ferem nossa competitividade, são apontados em estudo do Movimento Brasil Competitivo, Boston Consulting Group e entidades de classe.
 
A criminalidade, como evidenciam os dados e estudos que compilei neste artigo, é uma chaga para a sociedade e a economia. É danosa ao ambiente de negócios, desestimula investimentos, afeta a atração de talentos, provoca a emigração de recursos humanos em busca de vida melhor e mais segura, prejudica o turismo, uma das fontes mais importantes de divisas no mundo, mancha a imagem global do Brasil e gera custos elevados para as empresas e famílias, as que podem, é claro, com estruturas de segurança particular, tecnologia e equipamentos protetivos.
 
As causas da violência são várias em nosso país, abrangendo a exclusão socioeconômica, o baixo nível educacional, a evasão escolar ainda elevada e o crime organizado/tráfico de drogas e armas, que recruta seus membros entre os jovens desalentados de nossa estrutura sociológica. São problemas crônicos que precisamos solucionar. Além disso, é necessária uma política mais eficaz de segurança pública, unindo esforços, inteligência e informações dos governos da União, estados e municípios.
 
Não podemos continuar tratando a criminalidade como uma epidemia descontrolada e invencível. A cultura da violência não deve ser banalizada, como se fosse atávica em nosso tecido social. Precisamos, de imediato, incluir soluções para esse grave problema na agenda das prioridades nacionais, pois se trata de algo que ameaça a sociedade, atenta contra a vida dos brasileiros e prejudica muito a economia.
 
*Fernando Valente Pimentel é diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Fernando Valente Pimentel

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]