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Uma epopeia pelo inferno da burocracia

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13.11.2012 - 18:45:05

Goiânia – Estou vivendo uma situação dantesca. Preciso desenrolar um financiamento bancário. Para isso, uma certidão de cartório que necessito tem que ser regularizada. Meu velho, que trampo inglório. Não desejo uma situação assim nem para o meu pior inimigo. Conversar com o bafo de enxofre do cramunhão deve ser mais prazeroso do que desenrolar essa epopeia.Você entende o que é o tal do “custo Brasil”. A expressão , aliás, deveria ser “canseira Brasil”.

A cada lugar que vou, desmembra mais oitocentos lugares para eu ir. Era para ser uma coisa simples no cartório. Isso virou uma ida à Secretaria de Finanças da Prefeitura de Goiânia e à Receita Federal. Fui ao órgão municipal e isso virou uma ida em outra unidade da mesma secretaria, uma visita de um fiscal e mais uma lista de documentos. A ida ao órgão federal rendeu uma ida à Celg, brigar às seis da manhã por uma senha a partir do quinto dia útil do mês, outra lista de documentos e uma série de pormenores. Lembra-se do livro O Processo? Pois é… Além de dantesco, é kafkaniano.  

E pensar que vivemos o mundo do virtual. A internet está aí para que possamos resolver nossas tretas de qualquer lugar. O planeta agora é pequeno como uma laranja nas mãos de Colombo. Para nós brasileiros, isso ainda é ficção de Isaac Asimov. Pode ser lá gringa, pois na rua não é não. Somos bandeirantes do século XVIII, que ainda pensam que colocar fogo em cachaça pode iludir alguém. Precisamos reconhecer firma de nossa própria assinatura, atestando para alguém que nós somos nós mesmos, que não somos falsificadores. Precisamos esperar 15 dias úteis para que um fiscal da Prefeitura vá e verifique que o lote que eles cobram IPTU há mais de dez anos, sabendo até a metragem da construção, tem mesmo uma casa. É o fim da picada!

E mesmo com esse tanto de idas e voltas, mãos que o processo passa, assinaturas com carimbos de cartórios e tudo mais, o povo ainda rouba desse tanto. Sério, como é que dão conta? Talvez o excesso de burocracia favoreça a possibilidade de desvios. Com tantos trâmites, as coisas podem ficar encobertas. O que era para ser transparência, age tal qual uma parede para lá de opaca prejudicando o princípio da moralidade. Que loucura!

Se você ainda não passou por um processo como esse, pode esperar tranquilo: sua hora inevitavelmente irá chegar. Seja quando for tomar posse em um emprego público, seja na hora de comprar a casa própria, seja para conseguir algum benefício do Estado o qual é seu direito. Todos têm que encarar a desanimadora peregrinação de um lado para o outro. É nosso carma. Afinal, somos brasileiros e não desistimos nunca. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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