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Doentes de acúmulo

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25.10.2012 - 15:51:11

Goiânia – Assim que me separei, há muitos anos, num século que já se findou, instalei-me provisoriamente no apartamento vazio de uma amiga, equipado apenas com cama, geladeira, fogão e um conjunto de panelas. No tumulto doloroso da separação – elas sempre são, de quem quer que seja a vontade ou a razão – levei uns poucos objetos pessoais, algumas roupas, o computador e o aparelho de som. 
 
Comprei dois pratos, duas chávenas (não xícaras) e um jogo de talheres. Decerto havia ali uma faca afiada de cozinha, que não usei para cortar os pulsos, visto que cá estou eu ainda inteirinha e as minhas facas, as que comprei depois, sempre foram ceguinhas e não cortariam meus pulsos nem de mentira. 
 
Cansada de comer pratos frios, iogurtes, sanduíches, e da frieza da minha recém-conquistada solidão, desejando resgatar um pouco do calor do ambiente doméstico, inventei de preparar uma sopa quentinha de legumes. Comprei os ingredientes, cortei-os, às cenouras, às batatas, às cebolas, que responsabilizei pelo choro, e eis que quando vou abrir a lata de extrato de tomate (se existiam os molhos prontos e práticos, eu os ignorara), percebo que não tinha um abridor. 
 
Resolvi abrir a lata com a faca. Foi bem trabalhoso perfurar a tampa. Findo o trabalho, ao me servir, notei que só havia comprado pratos rasos. Fui e voltei novamente ao fundo do poço, mas a fome da barriga era maior que o charco de lágrimas do olho, e tomei a sopa na chávena.
 
Naquele momento, mesmo no gelo do apartamento vazio, pensei: como a gente, pra viver, na verdade necessita tão pouco: um prato, uma chávena, uma colher, um garfo, uma faca; às vezes a gente até prescinde da tampa da panela. Um abridor era afinal apenas uma sofisticação para o essencial. Durou apenas uns segundos tal reflexão.  Nos momentos críticos, ante a chama do fogão, é que temos esses clarões. Depois, nos devolvemos novamente às brumas do automatismo. 
 
Em breve, mudei-me para apartamento alugado, onde depositei os despojos da união desfeita, os presentes de boda. E sob o pretexto de forjar aconchego, ele foi se enchendo rapidamente de sofás, mesas, cadeiras, utensílios domésticos, quinquilharias que serviriam ou sobrariam para uma família inteira, mas que então eram inúteis apenas à minha própria e recém-consolidada solidão.
 
E assim se passaram anos, os armários cada vez mais cheios de louça, de roupas, de sapatos, de bijuterias, de livros… É preciso ter mais armários, ora pois!  De vez em quando, eu me lembrava de preparar uma sopa, comprava legumes de que logo me esquecia. Foi nessa época que criei o que considero a minha melhor frase: solidão é quando as batatas brotam na geladeira.
 
Hoje já não brotam, felizmente. Casei-me novamente, tive um filho. Novamente, me separei, mas pelas crianças se fazem sopas rotineiramente, elas que trazem alma e calor para qualquer lugar e criam o que se chama lar; elas que enchem os ambientes de sua presença e de cor, e de centenas de objetos, berços, trocadores, brinquedos… 
 
No apartamento hoje habitado por apenas duas pessoas, ou uma pessoa e meia, há uma meia dúzia de armários abarrotados de tantas coisas que nunca mais serão usadas. Eu precisaria ser uma centopeia para calçar tantos sapatos que residem na sapateira. Precisaria viver outros quarenta anos para reler todos esses livros que se empoeiram na estante. Meu filho deveria ter outras dez infâncias para poder brincar com tantos brinquedos.
 
Frequentemente me sinto sufocada por esse excesso e quero livrar-me de pelo menos metade de tudo isso. Não avanço para além do começo, padecendo de um cansaço e um desencorajamento antecipados. E as coisas parecem se multiplicar, como se estivessem se reproduzindo sozinhas, empoeirando-se, amarelando sem uso.
 
 Sei, porém, que não estou sozinha nessa abundância sufocante. Visito casas de amigos e vejo quase todos, como eu, soterrados no excesso, alguns até com armários transbordantes de tão cheios, depósitos que só serão revolvidos quando enfrentarem o terremoto de uma separação ou de outra mudança. Uma vez ao ano, com o intuito de desocupar espaço para os presentes de Natal, para abrigar as roupas novas compradas para as festas, até se atrevem a uma faxina, mas mal fecham os olhos e lá estão novos objetos acumulados.
 
 Que admiração tenho por pessoas organizadas, que mantêm em ordem seus armários, com um rígido controle sobre o que ali guardam, tudo bem separado e etiquetado. E que inveja sobretudo das pessoas comedidas e austeras, daquelas que só compram o essencial e não se permitem acúmulos, que descartam tudo aquilo que já não tem utilidade. Mais inveja tenho ainda dos nômades, dos viajantes, que levam tudo de que necessitam numa pequena mochila, que têm em si mesmos sua própria casa e não vivem escondidos sob os objetos que acumulam.
 
A maioria de nós, porém, está longe disso. Sofre da compulsão da novidade, apega-se aos objetos, deposita neles afeto e simbolismos, atribui a eles o que se chama de valor sentimental. Desde que nos entendemos por humanidade fazemos isso. O problema é que hoje estamos atribuindo tal valor a coisas demais e adoecemos de acúmulo. 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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