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Eu gosto de tradição até para comer

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26.09.2012 - 11:00:37

Goiânia – Eu não me divirto quando as coisas mudam. Quem me acompanha aqui no A Redação, já percebeu isso. Eu não pertenço a esse novo mundo. Minhas referências são arraigadas e são motivo de sofrimento as transformações que o tempo impõe. Sei que já torrei sua paciência com minhas lamúrias, meu mimimi, mas peço licença para reclamar um pouco mais das transformações do mundo de agora.

Sinto saudades demais dos restaurantes e bares da velha guarda. Daqueles que não tinham televisão e nem cardápio. Os preços ficavam ao fundo, com letrinhas de imã. Daqueles que você entrava e o atendente já lhe dizia: “Fala, Pablo! Vai querer o de sempre?”. Isso sim era real, tinha verdade. A personalidade de cada local era facilmente perceptível. Cada um tinha uma cara própria. Hoje, todos são pastiches. Tudo fake. Tudo de plástico.

Nada me derrota mais do que televisão espalhada em tudo quanto é canto no restaurante ou no bar. Esse aparelho maldito rouba a atenção até quando você não quer. Pô, televisão a gente assiste em casa no auge do tédio! Se você vai a um local para comer, naturalmente está fugindo da TV. Mas os caras me colocam 80 aparelhos em um espaço de 80 metros quadrados. E cada televisão em um canal! É o fim da picada. Como manter o diálogo com uma gostosa rebolando na sua frente? Ou quando está passando os gols da rodada? Impossível concorrer. O olhar vai para a televisão e ficará ali por algum tempo. Nisso, já acabou todo clima da conversa.

Outra coisa que me deprime é a falta de personalidade dos cardápios. Acredito que o advento e a popularização dos restaurantes por quilo são responsáveis por isso. Quando inventaram esse infortúnio de pesar e comer, todos restaurantes se viram na necessidade de oferecer de tudo um pouco e perderam o foco. Pouquíssimos conseguem jogar nas 11, só os gênios absolutos. E eles não são encontrados em qualquer esquina. Então por que diabos acham que farão com perfeição comida japonesa, churrasco, pamonha, massas, peixes e tapioca? Seria bem melhor focar naquilo que trabalha melhor e se tornar a maior referência da cidade. Mas não, eles querem atender a todos os gostos e acabam decepcionando em tudo.

Estou cada vez mais chato com isso. Dou preferência total a quem trabalha bem com uma coisa só e foge da tentação de colocar uma televisão para a clientela. Dá uma sensação de conforto incrível não ouvir a música do Fantástico quando vou jantar no domingo ou tomar o último chope antes do martírio da segunda. Isso é o que busco ao sair do conforto do lar.

Sei que sou uma espécie em extinção. Eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos velhos. De boa. Fiquem aí com seu mundo artificial. Enquanto isso, vou ali no buteco da esquina que ainda se mantém “truezão”, sem cardápio e com um torresmo de primeira. Acho que esse é meu último refúgio. 

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por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

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