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Pequeno manual de felicidade em fotografia

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16.08.2012 - 11:22:23
 

Há algum tempo observo, intrigada, as fotos publicadas em redes sociais e procuro analisar as poses, caras e trejeitos que as caracterizam, identificando padrões e comparando-as com as fotos de antes. Por antes, entendam-se as poses que eram comuns há cerca de 40, talvez até 60 anos. 

As tendências demoram um pouco para se consolidar em padrões. Rememorando antigos álbuns de fotografias, encontramos fotos de moças com expressões meigas, as duas mãozinhas sob o queixo ou reunidas logo abaixo de uma das orelhas, o rosto ligeiramente inclinado para um lado.
 
Eram naturalmente fotos de moças de família, destinadas ao casamento e, portanto, deveriam transmitir toda a pureza e seriedade da condição. Nada de sorrisos muito ostensivos – devia-se sorrir com os olhos e não com a boca regateira – e nem o mais leve traço de sensualidade (leia-se assanhamento) poderia ser admitido.
 
Nas fotos de grupos de amigos, havia o clássico agrupamento de time de futebol, uma fileira em pé, a outra agachada. Quando eram grupos de normalistas ou de moças casadoiras em geral, era comum uma toalha estendida no gramado e todas lá sentadinhas, as pernas dobradas para um lado, recatadamente, estendendo as saias de seus vestidos abundantes em tecidos.
 
Essas poses se cristalizaram nos clichês de uma época ou de várias épocas, como vemos agora outras se converterem no padrão de nosso tempo.  E este padrão poderia ser reunido num pequeno manual de felicidade em fotografia, aqui rascunhado, e que eu iria propor que se seguisse nas redes sociais, já não estivesse sendo ele muito bem observado. Ele não se pretende completo, claro, visto que é apenas esboço de pequeno manual.

Caso se deseje passar a imagem de uma mulher sensual – e a sensualidade se tornou um atributo essencial para as mulheres em nosso tempo do “amor nos tempos de cópula” – convém lançar mão do indefectível auto-retrato com o biquinho e o olhar provocativo para a câmera. Versões no espelho também são uma alternativa. 

 
Outra opção é deixar-se fotografar meio de costas, empinando-se e deixando ver bem o volumoso derrière – há que ser volumoso, por favor, bastando para isso recorrer a uma lipoescultura que transfere a gordura de certos lugares para outros, notadamente o pompom. Se a lipo não estiver temporariamente ao alcance, sempre se pode recorrer ao photoshop, que é atualmente o maior aliado da formosura e sobretudo da gostosura. Para atingir o intuito sedutor da foto, convém lançar para trás um olhar de mulher fatal, que se fabrica abaixando-se levemente o rosto e fechando um pouco os olhos. 
 
Nas fotos em grupos, preferencialmente só de mulheres, algumas das moças que pretenderem destaque devem virar-se ligeiramente de lado e abaixar-se perigosamente, colocando as mãos sobre os joelhos, evocando sutilmente a posição de uma dançarina de funk.
 
Como nem só de sensualidade é feita a vida nas redes sociais, mas principalmente de felicidade, há várias poses para os que querem obter tal efeito. Para mostrar que a criatura está se divertindo muito em uma viagem, um recurso é estender bem os dois braços, numa posição de quem abraça o mundo. Essa pose tem também o efeito adicional de evocar a sensação de liberdade.
 
Os que querem passar a impressão de que estão se acabando de alegria na balada podem fazer gestos com as mãos, o polegar e o dedo mínimo levantados, ou uma variação em que se ergue também o indicador. Esses gestos, atualmente, assim como as tatuagens ou os piercings, já não identificam nenhuma tribo específica, não trazem qualquer alusão ao surf, ao coisa-ruim, nem mesmo ao rock. Sinalizam apenas que se está curtindo adoidado. Até os apreciadores de axé ou música sertaneja e mesmo de música gospel podem valer-se deles, democraticamente.
 
Para quem tem uma carreira artística – principalmente duplas sertanejas e grupos de pagode – está em voga lançar um olhar profundo para a câmera e apontar o indicador, com o polegar erguido, de forma a simular-se uma arma. Pode-se apontar também apenas o indicador, de modo que quem contempla a foto sinta-se observado ou escolhido. Até hoje não compreendo muito bem o que esse gesto matador quer dizer, mas suponho que seja eficiente, pois dez em cada dez cartazes de duplas sertanejas o utilizam, o que deve ser um indício ou sintoma de sucesso.
 
No caso dos escritores, professores e jornalistas, não houve muita variação nas poses da moda. A indefectível mão no queixo continua tendência, desde O Pensador de Rodin, o que dá ao ser um ar inteligente, meditativo.  A mão na cabeça também é opção válida, mas o recurso é arriscado, porque pode dar a impressão de que o sujeito está é pensando negativamente na vida e descrente do mundo. 
 
Se bem que – melhor deixar pra lá –, já que essas profissões e a atividade intelectual de modo geral estão como nunca fora de moda, e pensar não é algo que faz muito sucesso nas redes sociais, talvez porque quem muito pensa tem mais dificuldades para ser ou parecer feliz. Portanto, este manual recomenda que os que têm tal atividade ou profissões utilizem-se de alguma das poses anteriores ou nem se deixem fotografar. Melhor não ser visto do que ser mal lembrado.  
 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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