Logo

Um caso de amor com o Setor Oeste

WhatsAppFacebookLinkedInX
05.07.2021 - 16:43:45

Vindos do interior mineiro, ao chegarmos a Goiânia, moramos no Bairro Popular. Bairro simpático, com jeito de interior, tudo ali pertinho, sapateiro, venda, colégio. Alguns anos depois deixamos a casa alugada e fomos para a nova casa, numa das primeiras ruas do novo Setor Sul. Ali tudo era diferente: casas novinhas e distantes umas das outras, com recuo frontal, sem mercadinho e sem bairro no nome. 
 
Duas ruas para a frente, mudava tudo de novo: o bairro já tinha ruas asfaltadas e casas mais antigas. Diziam que ali viviam os ricos: era o Setor Oeste. Muito lentamente, fui fazendo amigos do Setor Oeste e fui perdendo o preconceito. Hoje, coincidentemente, é neste bairro que vivo. 
 
Se no Setor Oeste falta o jeito interiorano do Bairro Popular, na esquina tem venda, sapateiro e colégio. Quase só ando a pé. O centro fica ali, logo do lado, mas o bairro mantém seus ares de tranquilidade. 
 
E isso tem a ver com a própria história do bairro. Quando o arquiteto projetou a cidade, ele pensou num núcleo central circundado por áreas para futura expansão. E batizou-as “setores”, com os pontos cardeais: Setores Norte, Leste, Sul e Oeste. 
 
O Setor Central foi o primeiro a ser implantado, juntamente ao Setor Norte (o futuro Bairro Popular). O Setor Sul seria mais tarde completamente modificado em seu projeto original e levou ainda uns anos para sair do papel, e o Setor Leste sofreu várias invasões. O Setor Oeste resta portanto como único bairro construído ainda planejado pelo arquiteto Atílio Correia Lima. Infelizmente adotou-se recuo frontal para o comércio, o que não constava do projeto original. 
 
Atílio optou por um desenho tradicional, com quadrícula ortogonal, entrecortada por largas avenidas. Decidiu nomear as vias com letras e números, não quis usar dos tradicionais nomes de personagens nacionais. Retomou do 1 a numeração das ruas e as avenidas e praças receberam letras. Com o tempo, a Avenida C virou Assis Chateaubriand, e a Praça E, Tamandaré. Mas as Avenidas B e a D estão ainda lá firmes.
 
Atílio também não caiu na armadilha dos modernistas de separar os usos: no Setor Oeste, convivem lado a lado comércio e residências, o que dá ao bairro sua vitalidade. Enquanto o Setor Sul vem perdendo apelo residencial sem conseguir firmar-se comercialmente, o Setor Oeste é pura vitalidade. Dizem até que tem o metro quadrado mais caro de Goiás. Não é à toa que o bairro sedia os maiores empreendimentos imobiliários atualmente em execução na capital.
 
O bairro ainda mantém algumas marcas do início de sua ocupação. O Bosque dos Buritis perdeu muito de sua área original de 40 hectares, retalhada e doada a instituições e entidades religiosas, como foi o caso das irmãs Dominicanas, dos padres Salesianos e da Assembleia. Sobrou menos da metade da área original do parque. Noutro ponto do bairro houve doação à igreja cristã ortodoxa, o que reuniu o grande contingente de libaneses em seu redor e motivou a homenagem na troca de nome da antiga Avenida E para República do Líbano. E convém lembrar a homenagem à antiga capital do Estado, na Praça das Mães, com seu pioneiro jardim de Cerrado. O Lago das Rosas, também previsto pelo arquiteto Atílio, como Parque Capim Puba, marca os limites históricos do Setor Oeste. 
 
E esse é o maior mérito do plano de Atílio: um projeto aberto e multifuncional, separado do centro por uma enorme reserva de mata nativa. Essas características é que vêm permitindo que o bairro siga o crescimento em sua ocupação e adensamento sem piora da qualidade de vida nem perda de valor de imóveis. 
 
Entre os desafios para o futuro estão justamente essas duas frentes: manter e dinamizar suas áreas verdes, aumentando o adensamento com uso multifuncional. A combinação de comércio vicinal e residências adensadas permitirá mais circulação de pedestres e diminuirá ainda mais a circulação de veículos pelas largas ruas do bairro. É assim nas melhores cidades do planeta: o primeiro bairro de Goiânia continua como seu melhor.

*Wolney Unes é jornalista, escritor, historiador e engenheiro
(Texto publicado em edição da revista do Grupo José Alves e reproduzido no jornal A Redação) 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Wolney Unes

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]