Logo

A eterna mania de culpar os outros

WhatsAppFacebookLinkedInX
20.07.2012 - 19:18:39


Como todo ser humano minimamente são, também estou estupefato com a história desse maluco de Aurora, no estado do Colorado (EUA), que matou e feriu uma galera em uma sessão de cinema. Esse tipo de massacre é simplesmente incompreensível, gera todo tipo de especulação. Natural. Quando entendemos, mesmo que discordando profundamente, a coisa fica mais clara. Por exemplo, um latrocínio. Por mais absurdo, sabemos que o cara matou para roubar. No crime passional, mesmo revoltados, sabemos que o cara matou por ciúme. No massacre dentro do cinema, só nos resta uma grande interrogação.

E daí começam a surgir teorias mais malucas possíveis. Dizem que o assassino de 24 anos era fã de videogames. Em especial dos jogos violentos, desses em que a matança é geral. Logo, segundo os comentários que surgem na imprensa, o videogame teria influenciado o rapaz. Uma bobagem. Mas o mundo hoje é de sempre pegar o caminho mais fácil, os simplismos e sempre que dá, meter a culpa no outro.

Quantas pessoas têm como hobby jogos violentos? Dessas, quantas cometeram chacinas como a que chocou o mundo? Percentualmente, veremos que essa hipótese é absurda. Mas ela está inteiramente vinculada à estúpida mania de culpar o outro. Se meu filho mexe com drogas, a culpa é das más companhias. Se minha empresa quebrou, a culpa é do governo que não me ajudou. Se meu time foi goleado em casa, a culpa é do técnico que sequer entra em campo. Se minha mulher me traiu com meu amigo no sofá da minha casa, a culpa é do sofá. Se eu não consigo emagrecer, a culpa é da minha mãe que só faz comida gorda. Se minha vida está toda errada, a culpa é do capeta. Desculpe, mas eu não caio nessa.

Se fosse questão de influência, não existiria violência antes do advento desse tipo de jogo. E não o passado nos mostra. Até as histórias que estão na Bíblia são repletas de sangue. Há poucos anos, a culpa era da televisão e do cinema. Agora sobra para os joguinhos. Cara, será que não está claro que a culpa é do fulano que pega em uma arma sem o menor preparo ou capacidade mental para isso? O fato é que discutir censura aos jogos, televisão ou cinema é mais cômodo do que ter um maior controle sobre o aceso às armas.

Culpar os jogos pode ser o mais fácil, mas definitivamente não é o mais factível.

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pablo Kossa

*Jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
lABORATÓRIO pÚBLICO - cIÊNCIA, pOLÍTICA E MEIO AMBIENTE
29.09.2026
Sem apocalipse ou redenção II

No último artigo por aqui, comentei das visões diametralmente opostas a respeito da inteligência artificial. De um lado, os otimistas tecnológicos acreditam que ela resolverá todos os nossos problemas; de outro, os tecnofóbicos já decretam para breve o fim da humanidade à medida que a IA rapidamente evoluir e sair de nosso controle. Argumentei que […]

Noite e Dia
28.09.2026
Armazém AZ apresenta mostra sobre Maria Abadia Haich em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Armazem AZ apresentou no último sábado (26/9), em Goiânia, a exposição Tessituras: Histórias de Bá, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, co-fundadora da loja e personagem ligada à formação e à difusão do design brasileiro na cidade. Construída a partir do olhar de seus seis netos, com coordenação de […]

Curadoria Afetiva
27.09.2026
Códigos atemporais

Há uma contagiante efervescência cultural, como costumávamos caracterizar o circuito social na década de 80, que, curiosamente, vem se reprisando na capital goiana. Salões de arte, mostras de artistas renomados (estejam eles vivos ou mortos), apresentações públicas e privadas de espetáculos clássicos, caricatos e criativos. Aparentemente, um despertar coletivo que contamina, no bom sentido, todos […]

Joias do Centro
25.09.2026
Avenida Goiás: a linha que desenhou o coração de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Há avenidas que levam a algum lugar. E há aquelas que, antes mesmo de serem abertas, já foram concebidas para dizer alguma coisa sobre a cidade. Em Goiânia, a Avenida Goiás pertence à segunda categoria. Desenhada no plano original da capital pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima, ela nasceu como […]

Noite e Dia
25.09.2026
Evento apresenta primeira mostra de Di Cavalcanti para convidados em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Cerrado Galeria realizou nesta quinta-feira (24/9) a abertura exclusiva para convidados da apresentação do novo ciclo expositivo da galeria, que traz pela primeira vez à Goiânia obras do renomado artista Di Cavalcanti, além da primeira individual do goianiense Walter Pimentel. As mostras Di Cavalcanti: Lírico, brasileiro, modernista, e Anímica e […]

Noite e Dia
21.09.2026
Jardim Potrich une Yoga, cerâmica e arte em programação especial; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – O Jardim Potrich abriu suas portas para uma programação que aproxima duas práticas aparentemente distintas — Yoga e cerâmica — a partir de um território comum: a presença. No dia 12 de setembro, o jardim recebeu “Beta & Bia no Jardim”, uma manhã dedicada ao movimento, à respiração e à consciência […]

CURADORIA AFETIVA
20.09.2026
Da Tranquilidade botânica

“No entanto, o sábio não pode desprezar os maus, porque, em todos os tempos, as condições morais quase sempre são as mesmas. Se o mal é uma necessidade da vida, da qual os homens não podem subtrair, não se deve odiá-los, mas aprender a respeitá-los.” (Da tranquilidade da alma, Sêneca) A palavra mal vem do […]

Joias do Centro
18.09.2026
Praça Cívica preserva a ideia de ágora onde Goiânia encontrou sua identidade

Carolina Pessoni Goiânia – Antes de Goiânia existir como cidade, ela já existia como desenho. E, nesse desenho, havia um ponto destinado a concentrar o poder, organizar os caminhos e criar um lugar de encontro. Era a Praça Cívica, concebida pelo urbanista Attilio Corrêa Lima como o centro administrativo da nova capital. A ideia, segundo o […]