Jales Naves
*Especial para A Redação
Goiânia – O movimento estudantil no Colégio Estadual ‘Professor Pedro Gomes’, no bairro de Campinas, em Goiânia, sempre foi dinâmico e cheio de surpresas, com muitas atividades e disputas internas, diante do grande número de alunos, em torno de quatro mil em 1962. O sistema de participação era democrático, com os representantes de classe atuando de forma permanente e contínua, falando em nome dos colegas e levando a eles as decisões tomadas. Predominavam, na direção do então Grêmio Literário ‘Professor Paulo Setúbal’, entidade que representava os estudantes, os grupos mais à esquerda. Em 1961 houve uma guinada, quando uma parcela de alunos, considerados mais à direita em seus posicionamentos, decidiu mudar essa caminhada, por não concordar com os rumos políticos da entidade, com muitas greves e ameaças de fechar a escola.
Como participavam de suas atividades, descobriram que o grêmio não existia legalmente, com o estatuto escrito a mão, todo rabiscado, o que deixava suas decisões a descoberto, e que os dirigentes não prestavam contas do dinheiro arrecadado com a expedição da Carteira de Estudante. Mais experiente do grupo, por já trabalhar na Prefeitura de Goiânia, onde ingressou antes de completar 10 anos de idade, Walmir Martins de Lima questionou a legalidade dos atos da entidade e consultou um colega da Prefeitura, advogado Getúlio de Sá Filho, que explicou as questões legais e o orientou nas providências a serem adotadas.
Ele integrava um grupo de estudantes que participavam do Clube de História – idealizado por Marco Antônio da Silva Lemos, que foi jornalista e depois se aposentou, duas vezes, como desembargador –, que se reunia periodicamente para discutir fatos e questões relevantes. Eram sócios da entidade, que funcionava informalmente: Hermes Sperandio, Wilier Carlos Pereira, Wandervan Silveira de Moura, Raymar Leite, Pedro Celestino da Silva Neto, Wander Arantes, Walter Mendes Duarte e Luiz César Maltez, além de Marco Antônio e Walmir, dentre outros.
Walmir tinha 17 anos quando chamou esses colegas e começaram a discutir a criação de um grêmio estudantil, marcaram uma reunião, publicaram a convocação em jornal e realizaram a Assembleia Geral. No dia 18 de março, nessa reunião, apresentaram um projeto de estatuto, devidamente datilografado, que foi amplamente discutido e fizeram uma ata, constando a aprovação desse regulamento e a eleição da sua primeira Diretoria: Walmir, presidente; Hermes, vice-presidente; e Wandervan, secretário-geral. Em seguida, os dirigentes providenciaram o registro do extrato do estatuto no Cartório do Registro Geral de Imóveis, Pessoas Jurídicas, Títulos e Documentos e de Protesto da 2ª Circunscrição de Goiânia (bairro de Campinas). Como já trabalhava, ele mesmo pagou os custos cartorários.
O extrato do estatuto foi publicado no “Diário Oficial do Estado”, de 13 de abril, edição nº 8.536, e quatro dias depois solicitou a inscrição da entidade no Cadastro de Pessoas Jurídicas.
Com a entidade devidamente registrada, marcaram uma audiência com a diretora do Colégio, professora Lígia Maria Coelho Rebelo, para falar sobre a criação do novo grêmio; ela, que conduzia a escola sob forte controle, sendo dona da situação, de imediato questionou, dizendo que não podiam ter tomado a iniciativa sem consultá-la. Explicaram ter realizado os trabalhos reservadamente, com a participação de poucos, para facilitar a discussão e o devido andamento da documentação; e também porque queriam homenageá-la, colocando seu nome na nova entidade. Surpresa, ela recebeu uma cópia do documento, consultou o professor de Ciência, Fausto Xavier, que era Juiz de Direito, sobre aquela decisão; ele disse da correção da iniciativa e do direcionamento dado, pois o Grêmio ‘Prof. Setúbal’ não estava legalmente estruturado, não tinha personalidade jurídica e não poderia funcionar.
Dona Lígia agradeceu a lembrança do nome dela para a entidade, colocou-se à disposição para apresentar a nova entidade e seus dirigentes e, no dia seguinte, acompanhou a Diretoria eleita de sala em sala, nos três turnos – matutino, vespertino e noturno.
Surgia assim, devidamente regularizado, o Grêmio Literário ‘Professora Lígia Rebelo’, que passou a coordenar o movimento estudantil no colégio.
Tão logo tomaram conhecimento da nova entidade, os dirigentes do Grêmio ‘Professor Setúbal’ fizeram um enorme estardalhaço, falando que foi um golpe; o grupo que fundou o novo centro acadêmico explicou que não houve ruptura, apenas a criação de uma instituição, legalmente constituída e seus dirigentes democraticamente eleitos. Apresentando os registros legais, comunicaram à Diretoria escolhida no final de 1960 que tinha perdido o mandato, pois a agremiação não estava devidamente organizada e que, em função dessa situação, não existia.
Ações
Empossada, a Diretoria deu início ao seu programa de trabalho. Uma das primeiras ações foi a construção da sede, entre os dois pavilhões com salas de aula, já que não dispunham de espaço próprio, e como não tinham recursos para essa obra, realizaram promoções para levantar o dinheiro necessário, como festas e barraquinhas. Tudo muito difícil. A obra foi feita por etapas: primeiro, um barracão, com 30m² em duas salas – uma para Secretaria e outra para biblioteca. Como a escola se situava numa região de famílias de baixa renda, sem condições de adquirir livros, organizar um acervo com obras literárias era uma prioridade, pois o colégio ainda não contava com espaços específicos para guardar e oferecer livros a seus alunos.
A agremiação promoveu concursos, como o torneio de oratória e o de beleza, com a eleição da Rainha do Colégio ‘Pedro Gomes’; participou da organização do desfile cívico de 7 de setembro, na comemoração da Independência, e de 24 de outubro, aniversário de Goiânia; e da fanfarra. Havia uma grande disputa para carregar a Bandeira do colégio nessas ocasiões, e Walmir ficou com esse encargo por três anos seguidos. Como trabalhava na Prefeitura Municipal, conseguiu três jipes para serem decorados para os desfiles.
Como presidente da nova entidade participou, nesse ano de 1961, da Diretora da União Goiana dos Estudantes Secundaristas (UGES), com sua sede no Lago das Rosas; participou de congresso nacional de estudantes secundaristas em Fortaleza, CE; e foi o segundo secretário da Confederação Goiana dos Estudantes (CGE), que teve Henrique Meireles na presidência e, como secretário-geral, Melchior Luiz Duarte de Abreu.
Em 1962 candidatou-se à reeleição, sendo vencedora a chapa liderada por Charife Oscar Abrão.
Prefeitura de Goiânia
Walmir chegou ao Colégio Estadual ‘Professor Pedro Gomes’ em 1959, depois de ter cursado o primeiro ano ginasial na Escola Técnica de Comércio de Campinas, que funcionava na av. Minas Gerais, no mesmo prédio do então Ginásio Estadual de Campinas, e depois foi para a av. Mato Grosso, no setor Coimbra. Tinha 16 anos, acompanhou a mudança do colégio para a av. Sergipe, ali fez o exame de adaptação, pois vinha do curso técnico da ETCC, e começou o segundo ano ginasial.
Era funcionário da Prefeitura de Goiânia desde a gestão do prefeito Venerando de Freitas Borges, na qual seu tio Waldir Fernandes Lima ocupava uma Secretaria; ingressou em 11.03.1953, como mensageiro, foi escriturário e a deixou em 1965, quando era chefe de Administração da Secretaria Municipal da Fazenda. Tinha concluído o Clássico no ‘Pedro Gomes’ e passado no concurso do Banco do Brasil, no qual fez carreira.
Naquele tempo, já participando de outras entidades, firmou sua visão de mundo, de trabalho e de compreensão das realidades. Secretário da Associação dos Funcionários Públicos Municipais de Goiânia, na época presidida por João Divino Dornelles, seguiam linhas de pensamento opostas – não concordava com as propostas apresentadas, como as duas greves por melhoria salarial num momento em que era pequena a arrecadação de tributos. Numa dessas paralisações dos servidores municipais soldaram a porta de entrada do prédio onde a Prefeitura funcionava, na av. Anhanguera, com o prefeito Hélio de Brito tendo que ir à Justiça para obter a imissão de posse para poder entrar naquele espaço público. Lembra que os dirigentes da AFPMG, alguns ocupando cargos comissionados, de confiança, poderiam ter sido afastados de suas funções, devido às greves, e o Prefeito não perseguiu e nem demitiu nenhum deles
Sentia no ar a preocupação em tentar desmoralizar a gestão ousada, inovadora e profícua do dr. Hélio de Brito, que conseguiu a autonomia administrativa da Prefeitura de Goiânia, mas não a financeira, que lhe daria condições de realizar mais. Explicou que eram muitos os boatos, como na decisão dele de construir o Cemitério Parque, no então distante setor Urias Magalhães, época em que espalharam a falsa informação de que os corpos seriam enterrados em pé, com a intenção de ridicularizá-lo.
Hélio de Brito, conforme relatou, foi eleito democraticamente por um partido de oposição, a União Democrática Nacional (UDN), e por isso acabou sendo injustiçado pelos integrantes do Partido Social Democrático (PSD), há muitos anos no poder e que não perdoavam aquela derrota eleitoral. Esse trabalho de demolição se ampliou depois que os militares assumiram o poder em 1964, e o genro dele, então tenente do Exército, era um dos líderes, quando tentavam associá-lo a decisões consideradas arbitrárias adotadas no período, para desgastá-lo.