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Nunca fui santa

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16.07.2012 - 10:58:15
Domingo de manhã fui à feira. A barraca de frutas em que eu estava ficava perto de uma banca de jornal. Ao ver uma revista que acabava de chegar e trazia Juliana Paes na capa, a feirante se indignou. “Pense numa mulher indecente, é essa Gabriela!”, disse, fazendo alusão à personagem da atriz na minissérie da Rede Globo. Bastou falar isso para ser apoiada por todas as clientes da barraca. “Não deixo minha filha assistir a essa minissérie de jeito nenhum. Imagine só um mau exemplo desses, a mulher vai para a cama com tudo quanto é homem que aparece!”, bradou uma delas. A outra concordou: “É um horror, parece uma cadela no cio”.
 
Na opinião da feirante e das clientes, boa mesmo é a personagem Sinhazinha, interpretada por Maitê Proença. “Coitada, ela sofre tanto! Apanha do marido, é maltratada. Merecia um amante bonito daqueles”, disse uma delas. “É diferente da Gabriela. Ela trai o marido com o Osmundo (personagem de Erik Marmo), mas é por amor”, emendou a vendedora. Cinquenta e dois anos se passaram desde a publicação do romance “Gabriela, cravo e canela”, de Jorge Amado, e a exibição da minissérie na TV. No entanto, de lá para cá algumas coisas permanecem espantosamente iguais.
 
Uma delas é a maneira limitada e limitante como o desejo feminino ainda é tratado, não apenas por homens, mas, principalmente, pelas próprias mulheres.
 
A ideia da mulher como um ser etéreo, dependente, casto, quase isento do que a psicanálise chama de “pulsão sexual”, permanece arraigada. Para sentir desejo por alguém, ela deve estabelecer um vínculo afetivo e socialmente reconhecido com essa pessoa. Se não for assim, o desejo precisa vir acompanhado de culpa e sofrimento, para ser legitimado, justificado – vide o exemplo de Sinhazinha. Mas eu pergunto: existe justificativa para o desejo? É possível racionalizá-lo? Fruto do que está gravado no nosso inconsciente e de nossas experiências pregressas, o desejo tem suas próprias leis e é arredio a qualquer tentativa humana de dirigi-lo. Pode ser reprimido, compreendido, talvez, com muito esforço, redirecionado, mas nunca racionalizado.
 
Gabriela é aquela que, ciente da intensidade do seu desejo, da urgência de realizá-lo e do fato de que essa realização não causará o sofrimento nem a humilhação de ninguém – pois ela é solteira, absolutamente livre –, subverte a regra de que mulheres não podem ser protagonistas de suas vidas sexuais e decide render-se à pulsão sexual. Quando e como bem entender. Essa rendição chega com leveza, alegria, com o entusiasmo típico de quem está aberto para a vida e dela sorve o gozo, a plenitude, ainda que por breves instantes. Pena que tanto êxtase não seja “bem visto” por aquelas que estão ao redor. É o êxtase de uma mulher “dada”, que não se faz respeitar, fácil demais.
 
Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher, torna-se. Segundo a filósofa, a identidade feminina não é definida apenas por seu sexo, por sua condição biológica, mas por uma série de normas de comportamento a ela impostas, que determinam como devemos nos relacionar, o que devemos sentir, pensar e até mesmo que orientação sexual devemos ter. Já avançamos muito, mas não o suficiente. Sabe Deus quantos milhares de léguas mais teremos de caminhar até que nosso desejo possa ser, de fato, nosso. Até que deixemos de repetir os padrões de comportamento que nos tornam as mulheres que a sociedade espera, e não aquelas capazes de tomar as decisões que vão nos fazer realmente felizes.
 
É verdade que não se pode satisfazer todos os desejos. Fosse assim, a convivência social, o respeito pelo espaço do outro e até nossa própria sobrevivência, em alguns casos, estariam ameaçados. Mas e quanto aos desejos possíveis? E quanto aqueles que estão ao nosso alcance? Vamos continuar censurando, fingindo que não é conosco, abstraindo, porque não é isso o que esperam de nós? Coincidentemente, ontem à noite assisti a uma entrevista da antropóloga Mirian Goldenberg à jornalista Marília Gabriela, na qual essas questões também eram bordadas. 
Segundo Mirian, várias mulheres mentiam nos questionários de pesquisa que ela aplicava, dizendo que, ao longo da vida, haviam ido para a cama com apenas um ou dois homens.
 
Ao serem confrontadas pela pesquisadora sobre a veracidade das informações, as entrevistadas reconheciam a mentira e se justificavam com o argumento de que, se admitissem para os outros que haviam tido relações sexuais com mais de três homens ao longo da vida, não arranjariam namorado. As respostas dos questionários sobre infidelidade também foram reveladoras. Ao perguntar às mulheres por que razão traíram seus parceiros, Mirian contou que elas atribuíam a responsabilidade a tudo – rotina do casamento, falta de atenção do parceiro, falta de carinho, de diálogo – , menos a si mesmas. Não admitiam para elas próprias que tiveram casos extraconjugais porque sentiram desejo por outra pessoa, porque quiseram e fizeram isso por livre e espontânea vontade.
 
Ninguém se reprime tanto impunemente. Enquanto seguimos decentes, bem faladas, contidas, nossa alma permanece angustiada, inquieta, triste. E nosso corpo, ah, esse então… Esse não mente, apesar de toda censura, e uma hora deixa-se levar por gestos inesperados, incompreensíveis.“O que a linguagem oculta é dito pelo corpo. Meu corpo é uma criança teimosa, minha linguagem é um discurso muito civilizado”, já ensinava Roland Barthes. Nossos desejos riem de nossas mordaças sociais, de nossa moral e nossos bons costumes. Quando percebemos, já estamos exalando ressentimento por tê-los reprimido e inveja por quem os realiza.
 
De repente, tomamos atitudes desvairadas, que nos deixam perplexas e assustadas. Depois de tantas tentativas de arrefecer nossa pulsão sexual, uma hora ela se manifesta nua e crua, mostrando que, a despeito do que acreditamos, somos feitas mesmo de carne e osso. Em nossa caminhada rumo à “decência”, tropeçamos na nossa essência, traídas pelo desejo. Citando (de novo, ela) Simone de Beauvoir, Mirian Goldenberg disse que, no final das contas, o que importa à mulher não é buscar a autoimagem perfeita nem a felicidade – pois ninguém sabe, ao certo, no que consiste isso – , mas a liberdade. A liberdade de experimentar, de vivenciar seu desejo como quiser e até de assumir para si mesma que nunca foi santa. Bingo! 

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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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