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O tempo e a palavra

15.07.2012 - 17:53:41
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Zurique – Se perguntarem quem sou.  Não sei.  Sobre o meu advir ou sobre o que deixei de ser. As cascas que fui deixando pelo caminho, não conheço. Tampouco conheço as dos meus companheiros. Somos todos mutantes, pulando, correndo atrás do desconhecido. Desconhecidos do nosso destino ou rumo. Mas se observarmos bem, somos sempre os mesmos no núcleo mais íntimo, no absoluto em que nada sabemos além de nós mesmos, depois da maquiagem, da troca de roupas e louvores, das artes e das coisas a possuir, consumir, que sejam livros ou móveis, cachorros ou apartamentos, nosso valor não está nas coisas, são as coisas que estão em nós.  
 
O que fica são as marcas, profundas ou ríspidas, são as marcas dos encontros, das emoções que definem o tempo, demarcam o espaço, dão nome, cheiro e gosto às coisas, criam sentido, tecem momentos, o manto de Penélope, nossa teia sensorial, emocional, é isso que somos, nada mais. 
 
Quem precisa de geladeira ou fogão, carros ou smartphone para estar presente no momento é porque já deixou de existir. E a verdade, qual é a verdade?  Nada sei, por isso sigo inteira e entrego-me à sede de saber, agradecendo à ignorância a chance de buscar, ainda mais, sempre mais.
 
O dia-a-dia nos chama, nos resgata e ser sincera até o último fio de cabelo é uma proposta de vida, difícil, mas viável, faço por covardia, de enganar, mentir, faço por amor a mim mesma, por orgulho talvez. E quando tiver chegado lá, começarei tudo de novo.  Até o infinito.
 
Não saberei tudo, mas tentarei ouvir com atenção e razão. Porque razão? Não sei. Sou quem sou e quem deixei de ser. Sou o vácuo do que passou. Em minhas palavras encontra-se meu destino, pedra por pedra desse caminho tosco, descuidado. Nada mais. Entrego-me a elas por saber que elas me antecedem, o dito vem antes do não dito. E assim seja. 
 
Não adianta muito pensar, refazer-se em análises e frases perfeitas, anoréxicas. Nada disso faz sentido, além da existência estão as palavras, elas nos definem. O dizer define o ser.  No início era o verbo, nada mais. Antes das filosofias, existia a voz. E a escrita é o dizer aprisionado em letras. Em gaiolas perfeitas, feito frases, com ponto, vírgula, dois pontos e toda a gramática que nos auxilia a recompor o que a palavra dita e ousa. Vivida. 
 
Ousar ir além do momento. Pensar em vão. Entre a palavra e a vida há uma imensidão a preencher. Quanto mais se busca, mais se perde. A busca é o contrário da vida, pois se perde no espaço. Além do espaço há o momento. O momento presente. O instante único e inalcançável. Perdidos no espaço. Perdido, perdido, perdido. A voz do robô ecoava no cenário de isopor. 
 
Quando a lembrança ocupa o espaço, tudo vira história, o recompor da vida, em cenas e diálogos perfeitos, filme, plot, ação. Mas a vida está em outro lugar, fora do plot. Fora do script.  Histórias em quadrinho, filmes de animação na mente são lembranças ingênuas e amadoras. As lembranças não lembram, recriam. 
 
Diante de tudo, o nada. O silêncio. A música de Keith em espasmos também é história. 
 
Se um dia eu souber do mapa da vida, do tesouro escondido, das minas do Rei Salomão em mil e uma noites de histórias, terei chegado ao fim. E o fim não tem graça. Prefiro buscar, incessantemente, incansavelmente, inalienavelmente, impudoravelmente, infinitamente, imperfeitamente, incorrigivelmente, impudicamente, imperativamente, inabalavelmente…
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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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