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Carta para Gabriel

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10.07.2012 - 11:56:47

Gabriel,

Você não teve tempo de conhecer seu pai, pois o tiraram de você e de toda sua família de maneira covarde e muito cedo. Cedo demais.

Saiba que seu pai era um homem bom. Uma pessoa do bem, sempre de sorrisão no rosto e alegria na alma. Era o cara de um milhão de amigos. Irrequieto, às vezes passava aqui em casa e nem se sentava para tomar uma água e já ia saindo pela porta da rua outra vez. Mas sempre dava tempo de dizer alguma coisa engraçada, soltar uma frase espirituosa, dar uma gargalhada.

Davi era assim: rápido.

Conheci seu pai há bastante tempo, mas só ficamos verdadeiramente próximos há uns dez anos. Viramos unha e carne. Nesta época, seu pai não sabia dirigir, então eu sempre lhe dava carona, mas ele me ensinava os caminhos. Pois apesar de não saber dirigir, seu pai era de longe o cara que mais conhecia Goiânia que eu conheço. Poderia ser o melhor chofer de taxi, se quisesse. Não havia rua, endereço e caminho que não soubesse. Seu pai era muito melhor que o Google Maps, eu te garanto.

Uma outra qualidade do seu pai era saber onde tinha as melhores comidas da cidade. Sabia onde era a lanchonete que vendia a melhor esfiha, o restaurante que tinha o melhor quibe cru, a birosca que vendia a cerveja mais gelada. Apesar de alto e magro – daí o apelido Barai (baralho), seu pai amava comer e falar sobre comida. Tínhamos isso em comum e podíamos ficar horas falando sobre comida e ele sempre me dava uma dica preciosa.

Seu pai era, acima de tudo, um homem bom. Expansivo, extrovertido, extremamente inteligente, tinha o raciocínio rápido e o senso de humor que só as pessoas puras de alma têm. Davi era um meninão de 38 anos.

E esse meninão que parecia ter vindo ao mundo a passeio, encantava. Era despojado, sempre de óculos escuros e boné, gostava de encontrar os amigos, ir pra um churrasco, sentar num boteco e conversar abobrinhas.

Em uma das últimas vezes que veio aqui em casa, parecia que o meninão estava dando lugar ao grande homem que ele sempre foi. Veio com a sua mãe, Mariana, para contar sobre você Gabriel, que já estava na barriga dela. Estavam felizes.

O meninão ia virar pai.

Foi impedido covardemente por um tiro vindo de quem deveria proteger e não matar.

Gabriel, sinto muito que tenham te tirado o direito e a alegria de conhecer e conviver com o seu pai. Espero que você tenha herdado dele o bom humor, o caráter e a bondade.

Saiba que seu pai foi, acima de tudo, um homem bom.
 
Com amor,
Bia

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por Bia Tahan

*Jornalista

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