Michelle Rabelo
Atualizado às 11h46
O ex-presidente da empresa pública Valec Engenharia Construções e Ferrovias S.A foi preso na manhã desta quinta-feira (5/7) pela Polícia Federal em Goiás (PF/GO). José Francisco das Neves, conhecido como Juquinha, comandou a Valec entre 2003 e 2010 e foi preso durante a operação “Trem Pagador”. Ele é acusado de fraudar licitações da Ferrovia Norte-Sul, onde somente no trecho 4 calcula-se superfaturamento de R$ 47 milhões.
Foram presos juntamente com o empresário, a mulher dele, Marivone, e os filhos Jader e Karen. Um terceiro filho de Juquinha, Jales Ferreira das Neves, foi levado para a sede da PF de forma coercitiva, para prestar esclarecimentos. O delegado Eduardo Tales Scherer, o procurador da República, Hélio Telho e o superintendente da Polícia Federal em Goiás, Joaquim Mesquita, falaram nesta manhã com a imprensa.
A família foi presa em casa, no condomínio Alphaville, em Goiânia. Além da família de Juquinha, outras cinco pessoas foram encaminhadas para a Polícia Federal: Vilmondes Gonzaga, Mauro de Souza, Aurelino Ivo Dias, Maria Emília da Costa Lamar e Marineide Pereira da Silva. A operação contou com a participação de 70 policiais, que irão analisar ao longo do dia o conteúdo dos materiais apreendidos durante a abordagem à casa de Juquinha. No total, 14 mandados de busca e apreensão foram cumpridos.
Juquinha teve uma série de bens sequestrados e congelados. Entre eles três fazendas no município de Mundo Novo, calculadas em mais de R$ 11,5 milhões, uma fazenda em Senador Canedo no valor de R$ 4,5 milhões, uma gleba de terra em Campinas/SP no valor de R$ 222.416,00 e três imóveis localizados no Condomínio Alphaville Flamboyant, com valor cumulativo estimado em R$ 1,290 milhão. Conforme explicou o delegado Eduardo Tales Scherer, além do empresário e dos familiares dele, também tiveram as contas bancárias bloqueadas Kamila Santos Sokolowskei e as empresas USI participações Ltda., SPE Palace Empreendimentos Imobiliários Ltda. e Mundi Desenvolvimento Imobiliário Ltda.
Investigações
A ação é decorrente das investigações sobre a Valec, iniciadas em agosto de 2011, por requisição do Ministério Público Federal do Maranhão (MPF/MA). Na ocasião, o Tribunal de Contas da União (TCU) fez um levantamento do processo licitatório da Ferrovia Norte-Sul e encontrou indícios de superfaturamento que girava em torno de R$ 90 milhões. Desde então a Polícia Federal investiga as movimentaçõres bancárias de Juquinha.
Durante as análises, a polícia chegou à suspeita de lavagem de dinheiro, já que a renda do empresário não era compatível com o patrimônio que estava no nome dele, declarado em R$ 18 milhões. Nas investigações foi constatado que Juquinha e, principalmente, a mulher e os três filhos adquiriram um vasto patrimônio imobiliário, o que inclui fazendas, imóveis, lotes e casas em condomínios fechados. Além disso, segundo a investigação, eles haviam constituído empresas destinadas a administrar e explorar todos estes bens, o que demonstrava incompatibilidade com a condição de empregado público. Embora ainda não avaliados, estima-se que os bens apreendidos superem R$ 60 milhões.
O desdobramento da operação “Trem Pagador” agora é apurar a autoria e materialidade dos crimes de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, usado na compra de imóveis, rurais e urbanos. “Em um primeiro momento, identificamos o tamanho do patrimônio, depois onde estava e por último se tinham regularidade”, explica o delegado Eduardo Tales Scherer.
As investigações indicam que Juquinha comprava imóveis desde 2003 e os registrava em nome de empresas cujos sócios eram pessoas póximas ou em nome dos próprios parentes. Segundo a PF, o órgão pretende “sufocar economicamente a organização criminosa e promover o ressarcimento dos danos ao patrimônio público”, identificando, localizando e apreendendo a maior quantidade possível de bens obtidos por meios ilícitos. O procurador da República, Hélio Telho, explica que existe a possibilidade da Justiça decidir pela perda dos bens ligados a Juquinha que, neste caso, podem ser incorporados ao patrimônio público. O bloqueio dos bens objetiva impedir que estes sejam vendidos.
Candidatura
Um agravante no caso do Juquinha foi a declaração feita por ele em 1998, quando se candidatou para o cargo de deputado federal. O ex-presidente da Valec declarou à Justiça Eleitoral que seu patromônio não atingia o valor de R$ 560 mil. A possibilidade levantada agora pela PF é de que Juquinha estaria usando a mulher e os filhos como “laranjas” com o objetivo de esconder o patrimônio. De acordo com Hélio Telho, a suspeita foi confirmada, mais tarde, por dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).