Jales Naves
Especial para o jornal A Redação
Goiânia – Acolhedora, amorosa, dedicada, solidária e com muitas habilidades, em todas as atividades a que ingressou, sempre faz tudo bem feito. Essa disposição e entusiasmo a tornam uma pessoa especial, admirada e respeitada por todos que a conhecem e que está sempre com as portas de sua casa abertas, recebendo irmãos, sobrinhos, amigos e quem chegar, mesmo sem avisar com antecedência. Assim tem sido a vida de Alda Carvalho Silva, mineira de São Francisco de Sales, onde nasceu no dia 10 de setembro de 1924, na época distrito do município de Frutal. Desde 1949 instalada em Uberaba, MG, onde viveu por 52 anos com o marido, Antônio Silva, falecido em 15 de janeiro de 2000, ela criou os quatro filhos e agora ajuda a criar os netos e os bisnetos, “os mais bonitos do mundo”, como gosta de apresentá-los. Uma casa sempre cheia.
Começou a trabalhar cedo, com apenas 16 anos, quando o então distrito de São Francisco de Sales pertencia ao município de Campina Verde, lecionando em dois locais: na Escola Municipal, pela manhã, nomeada, e, à tarde, na Escola Estadual, substituindo uma professora. Era uma sala apenas, com as quatro séries, quando levou seus alunos numa excursão ao rio Grande, que ficava a meia légua de distância de onde moravam. Depois, ao se casar, passou a ajudar o marido em suas tarefas, primeiro na quitanderia e a seguir na pensão que adquiriram em Uberaba e na qual ficou por mais de 50 anos – era chefe de cozinha e, ao mesmo tempo, sempre requisitada e muito querida por todos, costureira, fazia quitutes e tornou-se a melhor bordadeira, além de cuidar das crianças.
A festa de Natal da família, por muitos anos, foi em sua casa em Uberaba, que recebia a todos os parentes, vindo de diversas regiões, tornando-se um compromisso a que poucos faltavam.
São Francisco de Sales
Situada no pontal do Triângulo Mineiro, a cidade de São Francisco de Sales tem uma longa história, que se origina numa aldeia indígena, localizada nas proximidades da barra do rio Verde, e data de 1835. Nesse ano o padre Jerônimo Gonçalves Macedo ergueu um cruzeiro; e, 10 anos depois, foi construída a primeira igreja. Em 1850 criou-se o distrito de paz denominado Missões e, em seguida, a freguesia, já homenageando o santo. Em 17 de dezembro de 1937 (Decreto nº 148) o distrito de São Francisco de Sales foi transferido do município de Frutal para o novo município de Campina Verde e, pela Lei Estadual nº 2.764, de 30.12.1962, elevado à categoria de município, mantendo a denominação.
Terceira filha do casal José Porfírio de Carvalho, titular do Cartório de Registro de Pessoas Naturais do povoado, e Brasilina da Rocha Carvalho – que já tinha dois filhos, Oda, de 1920, e João Batista, de 1922, ambos nascidos em Frutal – quando a família se instalou em São Francisco de Sales, o distrito era pequeno: uma praça central, cortada por quatro ruas, poucas residências e um pequeno movimento comercial. Moraram numa casa na praça, na qual instalou o Cartório, e ali ele ficou por 30 anos, tocando sua missão. A tranquilidade do povoado era quebrada anualmente com a realização da festa em homenagem ao santo padroeiro, promovida pela Igreja Católica, com a participação das famílias, com destaque para o seu pai, como organizador do evento.
O nascimento de Alda foi em casa, pois não havia hospital no lugarejo, e contou com a ajuda de uma parteira, Maria Alves, que tinha uns 60 anos, morava perto do rio, num rancho, e atendia os chamados percorrendo as distâncias a cavalo.

Alda com as filhas Alda Helena, Maria Angélica e Zuleika (Foto: álbum de família)
A rotina era própria de pequenos vilarejos, com poucas atividades, e uma vida mais em casa, brincando com os irmãos e, um pouco depois, ajudando a criar os mais novos. Frequentou em Frutal o Grupo Escolar ‘Gomes da Silva’, que tinha a sua tia Valdira, irmã de seu pai, como professora. Lembrou-se que no primeiro dia de aula colocou um colar, presente da madrinha Ana, e as colegas, ao tentarem pegá-lo, acabaram arrebentando-o, espalhando as pérolas. Noutro dia, sempre querendo experimentar o lanche das outras, decidiram fazer uma troca e ela saiu prejudicada, pois ao comer geléia de mocotó da colega acabou tendo uma forte indigestão.
Como não tinham professores formados no povoado, aos 10 anos mudou-se para Frutal, para concluir o quarto ano. Depois, esteve em Ituiutaba, estudando no Instituto Marden, muito conceituado na região, quando residiu na casa da tia Ivone, irmã de seu pai. Aos 16 anos, em São Francisco de Sales, lecionou nas duas escolas e ganhou 200 réis, mais 10 réis de cada aluno. Posteriormente, morou em Iturama, quando lecionou no Grupo Escolar, para as três primeiras séries do curso primário, para um total de 40 alunos.
Namoro e casamento
Quando voltou a morar em São Francisco de Sales, surgiu na cidade um rapaz simpático, Antônio Silva, que morava em Veríssimo, na divisa de Minas Gerais com São Paulo. A viagem de ônibus, no modelo jardineira, era demorada, levando “quase um dia”, como se lembra, para percorrer os 180km que separavam as duas cidades.
De início atuava como auxiliar de seu irmão, Afabio Antero da Silva, que era dentista prático, no atendimento que fazia nas fazendas da região, quando ele passava alguns finais de semana em São Francisco de Sales. Em seguida, dedicou-se a recolher fotografias para melhorar a qualidade, mandando-as para São Paulo, e colocar em quadros e álbuns. Mais tarde, resolveu ser fotógrafo, e o primeiro retrato mostrou sua inicial falta de sensibilidade para a arte: apareceram apenas as patas de uma vaca.
Certo dia, numa festa da Igreja, que movimentava o povoado, com leilões e outras animações, Antônio e Alda tiveram o primeiro encontro, casual, a partir de quando começaram a trocar correspondências. Como o pai sempre interceptava as cartas, ela instruiu o irmão Toninho a passar primeiro nos Correios, antes do pai, para pegá-las.
Convidado a passar o Natal em família, ele agradeceu, de forma delicada, em correspondência, afirmando que tinha muita vontade, mas que estaria impossibilitado naquele data, e, afetivamente, assegurou-lhe que iriam passar muitas dessas festas juntos. Em outra, demonstrava seu desejo de se unirem em matrimônio, explicando que naquele momento a sua situação financeira não permitia e que iria construir as condições para a realização desse sonho.
Exerceu diversas funções, como a de sapateiro, lembrando-se de um episódio que não esqueceu: é que, tendo recebido uma encomenda, produziu às pressas a botina para um rapaz ir à festa, entregou o serviço na hora marcada, mas depois a recebeu de volta – é que a sola tinha se despregado quando o moço dançava na pista do salão.
Posteriormente, montou com o irmão Fabico um bar e restaurante, especializado em peixe, na boca da ponte ‘Mendonça Lima’, no rio Grande, separando Minas Gerais de São Paulo.
Nesse tempo, o namoro já estava firme e em 1947 os dois se casaram, em São Francisco de Sales, e o casal foi morar em Veríssimo, MG. Ele continuou com o bar na boca da ponte e mandava uma marmita para ela, que ficava em casa, na cidade, quase um quilômetro de distância do restaurante. Como a exclusividade era de peixes, ele contava com um pescador, que passava as noites fisgando parte do cardume para o dia seguinte, e com um cozinheiro, que preparava os pratos.
Ficaram um ano nesse local.
Depois, decidiram ir para Ituiutaba, MG, onde ele montou uma loja de quitandas; na cidade nasceu a primeira filha do casal, Zuleika, em 1949, com assistência em casa do médico, dr. Davi, do Hospital Santa Cecília, que fez o parto. Como a residência do casal era perto do Clube dos Pretos, no qual tocavam samba a noite inteira, ela ganhou o apelido de “Baianinha do tio Elon”. Quando estava com dois meses, nova decisão em família: buscar uma cidade maior, que oferecesse melhores oportunidades. A opção foi por Uberaba.
Uberaba e pensão
Sem formação escolar, sem uma profissão definida e querendo vencer na cidade grande, a primeira alternativa que surgiu foi vender anúncios e assinaturas do jornal “Lavoura e Comércio”, o mais tradicional de Uberaba, mas a experiência não durou muito: ao final da primeira viagem, à cidade de Prata, viu que não era aquilo que queria e desistiu.
Ao se instalar em Uberaba, comprou uma casa, na vila Maria Helena, no dia 25 de fevereiro de 1949, e a transformou na primeira pensão que o casal tocaria. Ficava na Rua Tristão de Castro, de frente para a garagem de sua residência, e ali ficou dois anos.
Em seguida, comprou outra casa, na rua Major Epitácio, ali ficando por sete meses, quando a desmanchou e construiu um sobrado, no qual o casal se instalou e tocou a pensão por 50 anos. Não teve problemas e foi um sucesso: ele, por sua facilidade de comunicação e bom relacionamento com todos, atuou mais como um eficiente relações públicas, e ela ficou na cozinha, chefiando as cozinheiras no preparo das muitas refeições diárias, desde o café da manhã, ao almoço e jantar, quando foram formando e firmando uma clientela, vinda das cidades ao redor, tanto de Minas como de Goiás e mesmo do Mato Grosso.
Fizeram um cartão, que distribuíam a todos que frequentavam a pensão, das mais diversas cidades, como Caçu, em Goiás, e Mateira.
Assim, a Pensão do Antônio Silva começou a ficar famosa e a atrair hóspedes, em especial quando da Exposição Agropecuária de Uberaba, uma das mais tradicionais daqueles tempos. Ele recebia a todos, criou um cadastro de cada um, de quem passava a ser amigo, para conversas, confidências, levar em consultas médicas e atendimento em hospitais e mesmo para guardar dinheiro dos visitantes em suas viagens a Uberaba. Gostava de contar causos e a criar histórias, sempre com um elogio para o visitante, fazendo piadas e mesmo sugestões em termos de brincadeiras:
– “Moça, coma jiló para anelar o cabelo”.
O casal deitava cedo e acordava cedo. Pela manhã, ele gostava de ficar no alpendre, para cumprimentar e conversar com as pessoas que passavam, ou mesmo para oferecer café para os trabalhadores que por ali circulavam, como os varredores de rua.
A amizade que construiu com os hóspedes tornava cada um fiel na visita à cidade, e todos queriam conversar com ele. Um exemplo dessa forma de cativar aconteceu certo dia, quando um fazendeiro rico de Iturama, Joaquim Tiago de Queiroz, esteve na pensão, para se hospedar; coincidentemente naquele dia havia falecido um parente, João Franco – Antônio recebeu o amigo que chegou, desejou boa estada para ele na pensão e se desculpou dizendo que teria que viajar, ir ao velório. O fazendeiro, que queria sua companhia, logo arranjou uma desculpa: disse que já tinha resolvido tudo na cidade e que também iria embora.
Noutra ocasião, um dono de pensão foi buscar um cliente que havia ficado em sua hospedaria e se surpreendeu ao pegar a sua mala: é que ele, que tinha estado na pensão de Antônio Silva, quis ficar novamente ali, e a pessoa, insistindo em levá-lo para a outra pousada, acabou arrebentando a alça da mala.
Com o resultado obtido com a pensão comprou alguns terrenos na Av. Epitácio Pessoa e construiu quatro casas, que revendeu.
Matriarca e acolhedora
O início deste século foi um divisor em sua vida. Depois de 52 anos de feliz convivência com o marido, teve que retomar sua vida, agora sem a companhia alegre e sempre presente de Antônio Silva. A partir daí, naturalmente, assumia a condição de matriarca da família, que conquistara por sua presença firme, determinada e sempre acolhedora. Sentia que os filhos precisavam de seu comando, os netos chegando, num total de oito, e, logo, os primeiros bisnetos, igualmente totalizando oito.

Alda com netos e bisnetos (Foto: álbum de família)
A irmã caçula, Maria Madalena de Carvalho, que desde os nove anos de idade morou com ela, lembra de ser grudada nela a partir desse período, e foi residindo em sua casa que concluiu o curso Normal. Depois, mudou-se para Goiânia, passou no vestibular para Odontologia, e decidiu retornar a Uberaba, para concluir o curso, quando optou por ir para Belo Horizonte, para morar e trabalhar junto com as sobrinhas Alda Helena e Jane, também odontólogas.
– “É uma pessoa ótima, muito boa, parece a Mamãe”, disse a irmã Leninha, ressaltando a sua positividade: para ela tudo está bom, não reclama de nada. “Foi um tempo muito bom quando morei na casa dela”, completou.
Para a irmã Claudemira Carvalho Azank, ela é uma segunda mãe. Ao cursar o Instituto Marden, interna, em Ituiutaba, quando Alda foi embora saiu correndo atrás do ônibus.
O primeiro genro, Afrânio Paiva, sempre a encontrou trabalhando. “Levantava de madrugada para coordenar o café, o almoço e o jantar”, disse. Tinha auxiliares, mas pegava firme no batente. Antônio gostava de conversar com todos, atendia bem, adorava a cozinha, e seu bife era famoso. “A gente chegava de férias e ela fazia sanduíches, procurando nos agradar”. “Nota mil como sogra”, afirmou. “Tive sorte. Não posso reclamar de nada. Só tenho elogios”, disse, para completar: “Nunca vi uma desavença, uma discussão”.
O namoro de Zuleika e Afrânio, então estudante do Curso de Engenharia Civil na Escola de Engenharia do Triângulo Mineiro, em Uberaba, que se formou em 18 de dezembro de 1968, começou em 1966. Eles se conheceram num baile, sábado à noite, no Clube Sírio Libanês, quando dançaram; e já no domingo foram à matinê no Cine Uberaba Palace.
– Quando namorávamos na sala, geralmente das 20h às 21h30, dona Alda tinha um jeito especial de comunicar que estava na hora de ir embora. Os sinais eram logo captados: começava a tossir, a fechar as cortinas e mesmo perguntava as horas”, recorda-se, gargalhando desses momentos.
A filha caçula Maria Angélica aponta seus muitos predicados: era exímia costureira, bordadeira, quituteira, alegre, companheira e fazia crochê para os familiares, sempre dando de presente uma peça no casamento dos netos e sobrinhos mais velhos, que ganhavam um paletó de tecido. A sobrinha Gláucia Rita de Cássia Machado foi brindada com um enxoval de peças de cambraia com rendas, bordadas a mão, quando nasceu.
Como bordadeira fez o vestido, “maravilhoso”, como todas gostavam de lembrar, da irmã Mirinha quando foi candidata a Rainha da Primavera. Ainda se mantém nessa função, como voluntária na Casa do Menino, criada em 1967 pela Legião de Assistência Cristã (LAC) para oferecer a adolescentes atividades acadêmicas, profissionais, culturais, esportivas e lazer, visando sua integração familiar e social e sua capacitação para o mercado de trabalho. Ela vai todas as terças-feiras bordar roupas que serão vendidas no bazar organizado pela LAC.
Sinônimo de bondade e sabedoria
– “Minha amada e madrinha de todos nós, aquela que ocupou com grande amor e dedicação o lugar de minha mãe desde sua partida, é sinônimo de bondade, serenidade, sabedoria, generosidade e encantamento”, afirmou a sobrinha Heloísa Machado Naves. “São todas dulcíssimas e suaves as lembranças que tenho dela como presença contínua em minha vida. Seu carinho e habilidade permitiram que encontrasse tempo para confecção de vestidos, para dar conselhos e fazer bolos, doces deliciosos para receber-me, muito carinhosamente, em sua casa”.
– “Depois vieram meus filhos e a “titia-madrinha Alda”, como ensinei-lhes a chamá-la, desdobrou-se mais ainda em mimos e afetividade sem que isso parecesse pesar-lhe os ombros. A grandiosidade de seu coração, a nobreza de seu espírito fazem-na adquirir força descomunal para a todos acolher, a todos cuidar”, ressaltou Heloísa. “Sua trajetória de vida, seus exemplos admiráveis, sempre foram referência para aqueles que dela se aproximaram e ainda se aproximam na busca de conforto em seu delicioso e aconchegante ‘colinho’”. “Estar ao seu lado é um dos maiores prazeres de minha vida, beijar-lhe o rosto e afagar suas finas mãozinhas fazem-me sentir-me ao lado de um Anjo terno e acolhedor”.