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Beethoven era negro?

29.07.2020 - 21:01:06
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Em primeiro lugar, “VIDAS NEGRAS IMPORTAM”!!!
 
Em segundo lugar, em relação à pergunta do título desta coluna, poderíamos contra-atacar com nova pergunta:
Que diferença isso faz? Cuja resposta seria: NENHUMA!
 
Ora, independentemente da cor de sua pele, a música de Beethoven é perfeita! Confesso que quando comecei a escrever este texto, logo me lembrei das discussões sobre o “embranquecimento” do nosso grande escritor Machado de Assis (1839-1908). Em ambos os casos – e certamente todos vão concordar comigo – eles eram verdadeiros gênios!
 
No caso específico de Ludwig van Beethoven (1770-1827), em minha opinião, o fato de esse compositor alemão ter sido branco, negro, amarelo ou extraterrestre não muda a importância de seu legado para a humanidade. Afinal, a genialidade é (ou deveria ser) daltônica.
 

Ludwig van Beethoven (1770-1827)
Obra de arte datada de 1824
Autor: Blasius Höfel (1792-1863)
Obs.: a partir de um desenho de Louis René Letronne
Fonte: commons.wikimedia.org
 

Mas, antes de continuarmos a desenvolver o presente texto devo esclarecer que, dias atrás, tomei conhecimento de que esse assunto estava “bombando” no Twitter (internacional), por meio do amigo Orlando Moura Jr., um violinista e engenheiro residente na cidade de Anápolis, Goiás.
 
Seria essa mais uma fake news?
 
De fato, estamos tratando de um tema requentado. Sobre isso, há uma série de postagens curiosas – datadas de 18/06/2020 – no perfil do Twitter, que leva o nome da Dra. Kira Thurman*. Do referido perfil copiei dois arquivos, os quais são tidos como recortes de matérias veiculadas na Revista “The Week”, veiculada nos anos 1930.

 

*Kira Thurman é professora universitária nos Estados Unidos.
Veja sua página no site da Universidade do Michigan.
Veja também seu perfil no Twitter. 

Nos tuites acima mencionados, Kira Thurman diz pesquisar e escrever sobre músicos negros da Europa. Em particular, no tocante à pergunta apresentada no título desta coluna, a professora confessa que, até a data de suas postagens, não havia lido as fontes originais alemãs, motivo pelo qual não se considerava ainda apta a opinar. 

No entanto, essa investigadora deixa um questionamento aos seus seguidores: But do you know a figure who was Black during Beethoven's day? Realmente, recorrendo à memória, confesso não me lembrar de ter lido na historiografia musical algo sobre os feitos de um ou mais músicos negros contemporâneos de Beethoven. 

 
Assumindo uma postura de ativista, Kira Thurman aproveita suas postagens para citar, entre outros, o nome do músico George Augustus Polgreen Bridgetower (1791-1860). Esse violinista, cujo nome praticamente foi extirpado da história da música, era filho de um afro-caribenho e de uma polonesa. Foi aluno do renomado compositor Joseph Haydn (1732-1809) e amigo de Ludwig van Beethoven (1770-1827). 
 
Aliás, Beethoven dedicou a Bridgetower uma de suas obras escritas para violino (e piano): a Sonata nº 9, op. 47 (Sonata Mulatta2), a mesma que, posteriormente, quando publicada em 1805, receberia o nome de “Sonata Kreutzer”. Mas esta já é uma outra história! 
 

Violinista Augustus Polgreen Bridgetower (1791-1860)
Data: entre 1769 e 1821
Fonte: commons.wikimedia.org

 

É relevante ressaltar que Kira Thurman deixa uma importante mensagem em um de seus posts. Para essa professora doutora negra, não é necessário tentar provar que Beethoven era negro, pois, certamente, há muitos negros para serem resgatados do anonimato.
 
Retomando o nosso tema, ao navegar por alguns sites percebi que os adeptos da teoria da negritude de Beethoven se fundamentam essencialmente no livro 100 amazing facts about the negro – with complete proof, escrito pelo jornalista e historiador jamaicano-americano Joel Augustus Rogers (1880-1966), em 1934.

Joel Augustus Rogers (1880-1966)
Fonte: Site The African Americans…

Há, neste livro, alguns trechos interessantes. Abaixo, o primeiro deles:
 


 
 
Aqui, no “fato 8” (p. 19), o autor Joel Rogers afirma que Beethoven era mulato e que era conhecido em seu tempo pelo apelido “O Espanhol Negro1”. E, mais, que Joseph Haydn também era moreno. 

Mais adiante (p. 27), Rogers afirma que o antropólogo alemão Frederick Hertz faz referência ao aspecto físico de Beethoven em duas oportunidades. Em uma tradução livre, posso citar as seguintes expressões: traços negroides, pele escura e nariz achatado e grosso

Há também uma citação (p. 27) atribuída a Frau Fischer, uma conhecida de Beethoven. Para Frau Fischer o compositor teria os ombros  largos, pescoço curto, nariz redondo e pele marrom-escura

Nas páginas 27 e 28 seguem outros fragmentos que contêm descrições sobre Beethoven. Rogers menciona citações de outros autores, tais como: Andre de Hevesy (biógrafo), Alexander W. Thayer (biógrafo) e Paul Bekker (crítico musical).

 
Assevero que, como de costume, busquei uma crítica confiável sobre a obra supracitada. Foi assim que encontrei o comentário de Henry Louis Gates Jr no site The African Americans: many rivers to cross with Henry Louis Gates Jr. E, para ser mais exato, encomendei, por meio de um conhecido site de compras, em exemplar desse livro.
 
Sobre o musicólogo Henry Louis Gates Jr. posso dizer que recentemente, em 2017, tive um contato mais direto com parte de seu trabalho. Isso ocorreu quando li o livro Disciplining Music – Musicology and its Canons3 (1992), organizado pelos ilustres musicólogos Katherine Bergeron e Philip V. Bohlman. Nessa obra, em seu Capítulo 5, assinado por Gary Tomlinson, uma das reflexões de Henry Louis Gates Jr.  – o conceito de Signifyin(g) – é bastante explorado. 

Mas, o que nos interessa aqui, efetivamente, é relatar que a crítica de Louis Gates – sobre o livro 100 amazing facts about the negro – with complete proof – possui credibilidade.
 

Em sua análise, Louis Gates faz elogios ao livro de Joel Rogers. Diz, inclusive, que conheceu o trabalho deste autor quando cursava graduação na Universidade Yale (Connecticut, USA). Relata também que esse ativista – nascido na Jamaica – foi um dos principais jornalistas negros de sua geração. Escreveu regularmente para importantes veículos de comunicação, entre eles: Pittsburgh Courier, New York Amsterdam News, Chicago Defender.
 
Na opinião de Louis Gates Jr., algumas vezes os artigos de Joel Rogers eram surpreendentemente precisos. Entretanto, em outros casos, como em seu “fato 8”, constante de 100 amazing facts about the negro – with complete proof, ele parece ter tropeçado. Por fim, Gates declara ter desconfiança quanto à veracidade das afirmações do jornalista Joel Augustus Rogers sobre o compositor Beethoven.
 


NOTAS:

1. Beethoven “era chamado de Der Spagnol na juventude por causa de sua compleição morena. Ele era baixo, tinha 1,62 m, era rechonchudo e pesado, com uma cabeça grande, uma luxuriante cabeleira, dentes protuberantes, um nariz redondo e pequeno (…)” (Schonberg, 2010, p. 127). De acordo com Nicholas Rinehart (2013, p. 117), a família de Beethoven – por parte de mãe – teria raízes na região de Flandres, a qual, por algum tempo, esteve sob o controle da monarquia espanhola. Ora, sabe-se que a Espanha manteve uma conexão histórica com o Norte da África, por meio dos Mouros. Daí vem a teoria que Beethoven descende dos Mouros. Rinehart afirma que o autor Joel Rogers (citado no texto), popularizou essa teoria na primeira metade do século XX.
 
2. Para Josephine Wright (2020, p. 65), Ludwig van Beethoven (1770-1827), deixou grafado no manuscrito autógrafo da Sonata em lá menor, op. 47 (1803), a seguinte dedicatória: “Sonata mulattica composta per il mulatto Brischdauer (…). Ainda para essa autora, Beethoven e George Bridgetower fizeram a estreia da Sonata mulattica em 24 de maio de 1803. Segundo Rita Dove, citada por Felícia Lee (Folha de São Paulo, 20/04/2009), “em aparente acesso de raiva depois de uma discussão por causa de uma mulher, Beethoven tirou o nome de Bridgetower” da "Sonata Mulattica". Cerca de dois anos depois, "quando foi publicada, em 1805, havia se transformado na Sonata “Kreutzer”, dedicada ao violinista francês Rodolphe Kreutzer [1766-1831]”.

Beethoven – Sonata "Kreutzer"
Anne-Sophie Mutter, violino
Lambert Orkis, piano

 
3. O livro Disciplining Music – Musicology and its Canons (1992), organizado pelos ilustres musicólogos Katherine Bergeron e Philip V. Bohlman, é uma coletânea de artigos de diferentes musicólogos ou etnomusicólogos. No Capítulo 5, Gary Tomlinson, um desses autores, traz à baila o conceito conhecido como Signifyin(g), formulado por Henry Louis Gates Júnior, em seu trabalho intitulado The Signifying Monkey: A Theory of African-American Literary Criticism. Detalhando um pouco mais, Gary Tomlinson utiliza-se do referido conceito para contextualizar o período referente à fusão jazz-rock de Miles Davis (final da década de 1960 e início dos anos 1970). Não foi por acaso que resolvi citar aqui, esse ensaio de Louis Gates Jr. Ocorre que, em 2017, como atividade de uma das disciplinas frequentadas em um Curso de Pós-Graduação, elaborei uma recensão crítica sobre o citado livro Disciplining Music, em sua totalidade. E ao escrever esta coluna, me vieram à mente as reflexões de Gates sobre o seu Signifyin(g) que representa, num plano mais geral, a mediação linguística entre os vernáculos negros e os discursos da cultura hegemônica branca.


LEIA TAMBÉM:

A Décima Sinfonia de Beethoven (texto postado em 19/01/2015).

A Maldição da Nona Sinfonia (texto postado em 27/02/2015).

30 anos de Amadeus (texto postado em 14/11/2014).

Mozart e Salieri (texto postado em 11/12/2014).


RERERÊNCIAS:

 
Rinehart, Nicholas T. (2013). Black Beethoven and the Racial Politics of Music History. Transition, (112), 117-130. doi:10.2979/transition.112.117.
 
Rogers, Joel Augustus. (1985). 100 Amazing Facts about the Negro with Complete Proof: A Short Cut to the World History of the Negro. St. Petersburg, Florida, USA: Helga M. Rogers.
 
Schonberg, Harold. C. (2010). A vida dos grandes compositores. (Wagner Souza, Trad.). Osasco, São Paulo: Novo Século Editora.
 
Tomlinson, Gary. (1992). Cultural Dialogics and Jazz: A White Historian Signifies. In Katherine Bergeron e Philip V. Bohlman (Editores), Disciplining Music – Musicology and its Canons. Chicago, USA: The University of Chicago Press.
 
Wright, Josephine R. B. (1980). George Polgreen Bridgetower: An African Prodigy in England 1789-99. The Musical Quarterly, 66(1), 65-82. Retrieved July 28, 2020, from www.jstor.org/stable/742137.
 

LINKS VISITADOS:


Folha de São Paulo (20/04/2009) – Livro lança luz sobre jovem que inspirou Beethoven
 
 
 
Los Angeles Times – Thanks to Filmmakers, Composer's Life Still a Mystery: Beethoven's racial ties misrepresented again.

Smithsonian Magazine – Was Beethoven Black? Probably not, but these unsung composers were.

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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